A Culpa é dos Outros

julgamento

 

Meu filho, porque você comeu o bolo que estava aqui em cima? Mamãe falou que estava quente e não era para comer!

A criança faz cara de choro e aponta para o irmão.

– Mas o  mano também comeu!

A mãe põe as mãos na cintura e o encara com olhar de falsa brabeza:

– Meu filho, desde quando apontar a culpa nos outros diminui o seu erro?

Quem não passou por esta cena?

Apenas quem não teve infância, ou uma mãe zelosa para apontar o certo e o errado para um filho. Pois surpreendentemente, este tipo de lógica usada pelo garoto ainda é muito frequente nos discursos que vejo sobre temas relativos à mulher. Analisem apenas estes dois fatos atuais:

O aborto passa por uma fase de intenso questionamento e avaliação por parte da sociedade civil. Evidentemente as mulheres – seu corpo e sua autonomia – são os mais visados. Parece que a sociedade ocidental patriarcal acende um sinal vermelho sempre que as liberdades femininas são acenadas, mesmo as mais sutis. As antigas estruturas falocêntricas da cultura parecem se abalar diante de qualquer iniciativa que ofereça às mulheres uma liberdade maior para a escolha de seus destinos e para gerenciar com autonomia a sua vida. Por serem elas “matrizes” tendemos a entendê-las como conteineres fetais que carregam algo que é, acima de tudo, nosso.  As mulheres ainda estão longe de garantir o pleno protagonismo de seus corpos.

Entretanto, quando li os primeiros escritos atuais sobre o aborto fiquei um pouco surpreso com o conteúdo de vários deles. Ao invés de testemunhar uma chuva de argumentos em favor da liberdade de escolha,  enfocando a questão de saúde pública envolvida, as mortes evitáveis de mulheres ou a falha dos sistemas policiais de obstaculizar o aborto clandestino no mundo inteiro,  eu me deparei com argumentos ao estilo o “aborto do homem“.

Esse argumento se baseia no fato de que milhões (ao que parece 5 milhões) de crianças não tem o nome do pai na sua certidão, e que isso seria um “aborto de pai“. Quando eu vi essa ideia pela primeira vez eu pensei: “Caraca, o que tem a ver uma coisa com a outra? Porque um pai abandonar um filho é o mesmo que não permitir que ele venha a nascer? Estão tentando comparar maçãs com brócolis! Qual a razão para criar mais culpados nesta equação?“.

Ainda não consigo aceitar que um pai fugir de suas responsabilidades pudesse ser comparável ao aborto, o impedimento de um nascimento. Ambas as situações são problemas sociais que precisam ser atacados: o aborto clandestino e a falta de presença e/ou suporte do genitor no cuidado com seus filhos. Entretanto, o aborto não passa a ter uma compreensão melhor se nós encontrarmos falhas – inquestionáveis – nas condutas masculinas relacionadas à criação de filhos! O argumento do “aborto do pai” em NADA ajuda a descriminalizar ou legalizar o aborto, apenas usa a mesma retórica da criança que comeu o bolo ainda quente. E isso, ao meu ver, apenas exalta uma culpa feminina que tem vergonha de se expressar, da mesma forma como o menino que comeu o bolo sente-se culpado e tenta exonerar esta culpa apontando para o irmão.

Não é necessário criar mais culpados para libertar as mulheres do jugo do patriarcado e oferecer-lhes autonomia. O aborto do pai é um erro retórico que apenas atrasa o debate.

Outro cenário: um adolescente toma 30 “shots” em uma competição de quem suportava mais bebida alcoólica em uma festa de “bichos” de uma universidade paulista. Em consequência da intoxicação aguda por álcool ele vem a falecer. A sociedade consternada se pergunta: De quem foi a culpa? Universidade? Cultura?  Sociedade? Família?”

Alguém insinua a estúpida e extemporânea pergunta: “Onde está a mãe desse menino que permitiu que isso acontecesse?

Para uma mulher enlutada pela mais dura das dores, a mais cruel das tristezas, o silêncio quebrado pelo soar de um telefone na madrugada, não poderia haver nada pior do que ser acusada por esta tragédia. Posso apenas imaginar a dor amplificada de uma mulher que perde o filho e depois é açoitada por acusações infundadas e absurdas.

Ora, muitas dessas tragédias ocorrem a despeito de todos os esforços que fazemos para que elas sejam evitadas. Eu sou pai e avô, além de ser tio de dezenas de sobrinhos “capetas”, e já tive minha cota de sustos e pânicos. Apontar o dedo para uma mãe nestas condições é mais do que injusto; ultrapassa todos os limites da crueldade. Fazer isso é desconsiderar as circunstâncias e contextos, as forças do grupo e as necessidades de expressão do ego em uma época tão complexa da vida como a adolescência.

Eu mesmo já bebi em uma festa da faculdade. Tomei todas, apenas para saber do que se tratavam as alterações de consciência que eu testemunhava no hospital de Pronto Socorro. Saí cambaleando da festa em direção à minha casa, e no meio do caminho caí. Perdi todos os meus documentos (e só soube dias depois), mas fui socorrido por um gentil passante que me ajudou a entrar em um taxi. Mas poderia ter sido assaltado, esfaqueado, atropelado. Poderia ter morrido por uma dessas tragédias que estão no jornal de hoje.

Seria justo culpar a minha mãe – ou o meu pai!!! – por uma bebedeira juvenil de um menino que antes disso nunca havia bebido, e que depois disso nunca mais se embriagou?

Certo, é estúpido e injusto oferecer esta conta para uma sofrida mulher pagar. Mas diante dessas acusações eu esperava uma defesa aberta da maternidade, um pedido de consciência sobre estes casos, uma solicitação de ponderação sobre os múltiplos elementos que levam a estas tragédias. Eu queria apenas serenidade e menos apontar de dedos. Entretanto, sou obrigado a ler algumas matérias cujo argumento principal é: “Ah, estão acusando a mãe do adolescente? Mas e o pai? Porque não falam dele?

Essas pessoas realmente acreditam que esta mulher terá menos peso a suportar se direcionarmos esta carga para seu marido? Acreditamos mesmo que a dor de uma perda como esta fica menos dolorida se acrescentarmos INJUSTAMENTE outros culpados? A angústia que uma mulher sofre por optar por um aborto fica menor quando sabemos que os homens também fraquejam e abandonam filhos?

Por quê o discurso de algumas feministas (a minoria) insiste nesta dicotomia infantil? Porque não investir em desculpabilizar as mulheres que escolhem pelo aborto ou oferecer aconchego e abraços para uma mãe cujo filho se foi numa brincadeira trágica de faculdade? Porque é necessário atirar a culpa para os “inimigos”, os homens?

E porque, afinal, continuamos a escolher os homens como inimigos quando o patriarcado e o machismo é que deveriam ser os verdadeiros alvos?

Quando me perguntam porque as modificações na sociedade são tão lentas no que diz respeito aos direitos das mulheres eu sempre respondo que enquanto as mulheres aceitarem este discurso equivocado as conquistas continuarão lentas.

 

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