As Regras Sujas do Jogo

O mesmo discurso ingênuo que o PT usava nos anos 80 eu vejo agora sendo utilizado pelo “outro lado”, com as mesmas características de exclusão e essencialismo. Na época os integrantes do PT chamavam a todos os “não PT” de “eles”, os outros, os que “não são como nós”. Quando um deputado do PT enfureceu-se com uma manifestação violenta e antidemocrática e convocou os petistas para “sair na porrada com os coxinhas” eu li de um colega de direita a expressão: “Olha como se comporta essa gente”.

“Essa gente”, uns irresponsáveis, baixo nível. Petistas, petralhas e corruptos.

Mais uma vez a diferença “essencial”. Essas pessoas são diferentes de nós. Suas veias carregam outra coisa, seus sonhos são diferentes, seus objetivos diversos dos nossos. Essa gente bagaceira, sem nobreza e sem valor.

Esta semana escutei outra pessoa me dizendo: “Já fui fã do PT, mas ele sujou as mãos. Não voto neles nunca mais, mas também não voto nos miseráveis da direita. Minha simpatia agora é com o PSOL“.

Pronto, o PSOL passou a ser a “virgem da vez”. Luciana passa a ser a impoluta representante dos éticos, honestos e corretos. Continuamos com a mesma retórica ilusória do futebol: “Bom mesmo é o Zezinho: não errou nenhum passe e não perdeu nenhuma bola. Bem verdade que não jogou também; estava no banco assistindo a partida”.

Mas, pasmem, as pessoas que compõe o PSOL (ou o PSTU, PCO, PMN…) são feitas da mesma carne, os mesmos vícios, o mesmo sangue e linfa que constitui a todos nós. Estivessem agora no poder e o dilema seria o mesmo:

“Se eu me mantiver puro não governo e apenas permito que os corruptos, os que se sujam, os canalhas e aproveitadores, continuem no poder. Posso me manter fiel aos princípios e fracassar em alguns meses. Porém, posso me sujar como TODOS fizeram, e tentar impor um pouco do meu estilo, minhas ideias, meus desejos e meus valores. Mas para isso precisarei me sujar na mesma lama que emporcalha a vida pública do país há séculos. Precisarei do dinheiro dos poderosos, e será necessário selar alguns compromissos com o demônio. O que fazer?”

Qualquer um tem o direito de, arrogantemente, exclamar: “Eu nunca sujaria as minhas mãos. Só “eles” fazem isso. Nós somos éticos.” Pois eu também tenho o direito de duvidar de tamanha prepotência. Ora, o poder embriaga a todos e, mais do que isso, as regras desse jogo estão aí para serem jogadas. “Não quer cair do balanço não desce pro play“, já dizia a turma do bullying. O jogo da política – como o conhecemos na atualidade brasileira – é SUJO em essência e qualquer partido que tenha a possibilidade de ascender ao poder usará todos os recursos para conquistar a maioria no congresso e fará isso da maneira que for possível. Comprará votos, ameaçará, pressionará, boicotará e todos os outros recursos – éticos ou não. Não existem “nós” ou “eles” quando as regras dadas são estas.

Não, é um erro acreditar que eu defendo uma complacência com os erros do PT. Digo o mesmo que a presidente Dilma se esforça por repetir: “Se há erros que sejam punidos exemplarmente“. O equívoco é imaginar que tirando o PT do governo teríamos todos os problemas resolvidos, como se o PT fosse um cancro, uma agremiação que concentra a podridão e a corrupção no país. A história nos mostra que não, e a própria ascensão deste partido ao poder nos anos 80 se deu para combater a corrupção galopante da época. A história apenas se repete, ou “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, como diria meu caro amigo Karl.

Trocamos os jogadores, mas mantivemos as mesmas regras pútridas. O resultado é que boas intenções (como as que reconheço no PT) acabam sendo manchadas pelas falcatruas que ocorrem pelo próprio transcorrer de um jogo com cartas marcadas.

A reforma política é a saída, mas será que desejamos mesmo que algo mude? Ou seremos apenas pobres corruptos menores aguardando a nossa chance na fila das vantagens indevidas?

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Arquivado em Ativismo, Política

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