O machismo de cada um

 Machismo-II

Eu não sou um machista (porque racionalmente rejeito qualquer tese de supremacia masculina sobre a mulher), mas vivo num mundo controlado pelo patriarcado. Assim sendo, muitas vezes minhas ações são comandadas por este paradigma. Por exemplo: dirigir o carro quando a família toda está junto; pagar a conta do restaurante; ter um comportamento de proteção quando minha mulher e minha filha estão comigo.

Machismos? Não creio… marcas dos milênios de patriarcado. Portanto, o patriarcado está embebido nas minhas células determinando de forma invisível minha maneira de agir e proceder. Todavia, ele também compõe a matéria que forma as células das mulheres. Elas também vivem nesse sistema e esperam que ele lhes ofereça alguma vantagem e proteção. O problema é que, depois de 10 mil anos de vigência é hora de exterminá-lo por algo que ofereça uma condição melhor para as mulheres, mas também para os homens. Se ele teve sua importância no mundo a ponto de ser usado em toda parte, agora está caduco e não serve mais aos propósitos deste mundo. Para acabar com isso é necessário tocar nas fundações profundamente fincadas em nosso código valorativo, e isso não se faz sem dor.

Da mesma forma que a passagem da infância para a adolescência nos propicia um acréscimo de liberdade às custas de uma perda da proteção paternal, a queda do patriarcado também se fará com o necessário sofrimento, para os homens – que sofrem as dores da perda de uma identidade forjada há milênios como provedores e propietários das mulheres – e para as mulheres, que terão que aprender a se defender sozinhas em um mundo em que a liberdade sempre cobra altos preços. É isso o que vemos hoje em dia: mulheres muitas vezes solitárias pelas perdas de companheiros, mas orgulhosas dos passos que deram em direção à liberdade e à autonomia. A literatura e o cinema nos oferecem exemplos magníficos dessa fase de transição.

Por seu turno vemos homens que se despedem da roupagem controladora e machista de “propietários“, e que sentem-se confusos e desnorteados, perdidos num limbo identificatório sem precedentes. “Se não sou mais o provedor, o que sai pelo mundo na caça e na luta, se as mulheres não mais precisam de mim para sobreviver, se não sou mais o braço forte em um mundo mecanizado e cibernético, para o que sirvo, afinal? Qual o sentido do masculino no mundo? Seremos fêmeas sem útero?”

Estas são as perguntas de homens e mulheres, cujas respostas nos aguardam nos próximos séculos. Certamente que o mundo que virá será diferente, mas espero que, apesar dos embates necessários e da reacomodação das placas tectônicas dos papéis sociais, os homens continuem amando suas mulheres e que elas continuem nutrindo por eles a paixão que é a chama indelével que nos transforma em humanos.

Se não sobrar nenhuma marca cultural e artificial que nos defina, que o desejo e a complementariedade permaneçam para nos dar esperança no futuro.

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