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Ostomias

Recebi num grupo político do whatsapp um vídeo humorístico e mordaz que mostrava um ator homem interpretando uma médica entrevistando uma paciente no consultório. Essa mulher dizia à médica que seu marido gostaria que ela não desfizesse sua colostomia porque ele estava gostando de ter relações sexuais por aquela “via alternativa”. O vídeo é sarcástico e trata, de forma debochada, de uma questão que eu conheço há décadas: a história de que mulheres submetidas a colostomia são constrangidas a não fecharem suas cirurgias porque seus maridos desejam continuar a ter relações com elas pelo orifício cirúrgico.

Este relato eu escutei de muitas pessoas, de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e também de pessoas de fora da área médica. Diante de comentários deste tipo eu sempre questionava se havia algum relatório a respeito desse fenômeno ou se ele se restringia a este tipo de descrição anedótica. Via de regra, as pessoas se surpreendiam com a minha solicitação de evidências, como se eu estivesse numa posição de ingenuidade, sem saber como é feio “o mundo de verdade”. “Como você é ingênuo, Ric”, diziam elas. Outras afirmavam que “Sim, conheci muitas pessoas que me relataram essa história”, e ficavam indignadas se alguém questionasse a veracidade do relato. Acontecia sempre o mesmo: eu perguntava se havia alguma evidência científica relacionada a esta parafilia e a resposta imediata era “conheço uma amiga da minha prima que é enfermeira que me contou a seguinte história”. E sempre apareciam histórias indiretas, relatos, fatos contados por terceiros. Nada de concreto.

Quando recebi a mensagem no grupo de whatsapp imediatamente escrevi: “Eu acho que a antiga história do sujeito que pede para o médico não fechar a colostomia da esposa para poder continuar “usando” não passa de um mito médico, como tantos que circulam na cultura”. A reação do grupo (composto quase totalmente por mulheres) diante da minha observação foi de defesa da tese, e usando os mesmos argumentos: “Ahh, uma paciente me disse”, “isso é muito comum, você que não sabe”, “Ahh, vai dizer então que as mulheres estão mentindo?”.

Quando nos ocupamos de procurar na internet algo sobre o tema percebemos que os poucos relatos disponíveis costumam oferecer:

  • artigos sobre fetichismo médico;
  • revisões sobre coprofilia;
  • relatos de caso de parafilias incomuns;
  • discussões em comunidades de pessoas ostomizadas, onde ocasionalmente se menciona que alguns parceiros demonstram fascínio ou fetiche pela estomia, embora isso não constitua evidência científica.

Ou seja: relatos de pessoas esparsas, anônimas, sem que ninguém até hoje tenha contabilizado ou usado qualquer método para avaliar a prevalência desse evento. É notável o fato de que a ostomia não é reconhecida como um foco parafílico específico no DSM-5-TR nem na CID-11. Não existe um diagnóstico denominado “ostomy fetish” ou equivalente. É interessante isso porque, se uma pessoa quer ter sexo com cadáveres ou cães existe um nome específico para estas parafilias. Entretanto, o caso tratado como “comum” de uso das ostomias para a satisfação sexual de parceiros nunca foi classificado. Pode-se acreditar que não o foi porque, em verdade, é muito incomum, se é que ele realmente existe.

Para mim se trata realmente de um mito, mas segundo Claude Lévi-Strauss, um mito “uma forma de pensamento que organiza contradições fundamentais da experiência humana (vida e morte, natureza e cultura, masculino e feminino etc.) por meio de uma narrativa simbólica”. Quando escutava a manifestação desse mito relacionado à sexualidade masculina, sempre me questionei qual mensagem ele tentava simbolizar? Por que passei 40 anos escutando pessoas me dizendo que tal comportamente existe e é “mais comum do que se pensa”?. Sim, também escutei que as luas cheias traziam mais partos, e os relatos eram da mesma natureza: “a segunda feira passada era de lua cheia, e por isso tivemos 40 partos no plantão”. Nenhuma metodologia para avaliar a veracidade dessa prevalência aumentada, apenas um relato cru. Entretanto, existe uma razão que explica a emergência de mitos: no caso dos partos, a tentativa de colocar ordem no caos da natureza, como se a lua pudesse trazer alguma luz sobre a escuridão de um evento imprevisível como o parto.

E o mito das ostomizadas? Para mim é um mito de degradação da sexualidade masculina. É usado para reforçar a ideia de que o masculino é tóxico na nossa sociedade, e por isso esta mitologia é é tão fortemente disseminada por identitários. A ideia que subjaz é de que a sexualidade dos homens é doentia e obsessiva, incapaz de respeitar até mesmo as debilidades da parceira. Serve para criar a imagem de homens violentos e abusivos, ligados a mulheres frágeis, fracas, submissas e vitimizadas. Ficou sempre muito claro para mim que o foco não era sobre um fato aberrante, num sujeito que abusava de sua parceira de maneira cruel a despeito de suas dificuldades ou sofrimento. Não, a ideia era de mostrar que esta é a natureza da sexualidade masculina, de que os homens são assim mesmo, que isso faz parte da arquitetura normal do seu erotismo, intrinsecamente deteriorado e tóxico.

Creio que depois de décadas de feminismo e de sua luta justa por equidade e justiça é importante questionar até onde é correto este tipo de ataque à essência do masculino. Criar narrativas monstruosas sobre os homens e tratar historietas de corredor como se fossem uma verdade científica não auxilia as mulheres e afasta os homens de qualquer parceria. Criar a imagem de homens abusadores em potencial é injusto diante da gigantesca maioria de homens que jamais cometeram qualquer ato de violência contra as mulheres.Propagar mitos como se fossem verdades cristalinas acaba por revelar muito mais as dificuldades de quem os dissemina do que as fantasias de quem é acusado.  

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Homens

Nunca vou esquecer o dia que fui assistir um filme e a pessoa que estava comigo começou a elogiar o ator principal da trama – um famoso galã de Hollywood – de uma maneira completamente diferente daquela que eu me acostumei a ouvir por anos a fio. Exaltava as suas qualidades masculinas, sua força, seus traços másculos, elogiava seus braços e pernas, seu sorriso dolorido, sua ternura positiva, sua imposição, seu destemor, sua coragem, sua nobreza e sua especial devoção à mulher que amava. “Queria eu ser esta mulher, para ter um homem desses ao meu lado”, me disse.

Nunca havia escutado tantos elogios a um homem e tanto encantamento com suas qualidades, sem retirar dele o fato de ser homem, sem dizer que ele era “feminino” por expressar seu afeto, sem querer transformá-lo em uma versão masculina domesticada. Pelo contrário: o admirava exatamente por ser homem e deixar claro o quanto isso pode ser verdadeiramente bonito e fascinante.

Passei muitos anos da minha vida envolvido em um universo de ataques aos homens e ao masculino, a ponto de que aquelas palavras produziram um choque estético, uma surpresa, um espanto pela devoção tamanha ao que os homens representam na cultura e na vida de todos. A descrição que ouvi dos valores de um homem naquela noite eu nunca esquecerei. Depois de décadas de críticas – muitas delas justas – descrevendo-os como estúpidos, grosseiros, malévolos e ignorantes, as palavras que escutei abriram uma porta de admiração há muito trancada.

O filme era “Nasce uma Estrela”, o ano 2019 e o ator Bradley Cooper. Ao meu amigo gay que assistiu este filme ao meu lado agradeço a oportunidade de escutar sua particular perspectiva sobre os homens, e o quanto ela significou para mim. 

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Causas

As causas são PROFUNDAMENTE masculinas. Elas são mudanças no rumo da história, do roteiro das ideias. São golpes de machado nas raízes da natureza. Os homens sempre estiveram por trás delas. As revoluções foram todas lideradas por homens, assim como as lutas, as guerras, as conquistas. Todas estas são “causas”, mais ou menos nobres, que estimularam a inventividade, a coragem e a genialidade. Todas, sem exceção, determinaram vontade, desprendimento e sacrifícios.

A história está repleta de homens que sacrificaram tudo – em especial a própria vida – em nome de causas que ajudariam a todos. Pense em qualquer movimento paradigmático no mundo e houve ali um homem envolvido em uma grande luta que envia a todos de sua etnia, seu grupo, comunidade ou país.

Sim, homens não se preocupam tanto com câncer de pênis ou próstata o quanto deveriam. Entretanto se preocupam com o de mama e o de colo uterino, que sequer é no corpo deles. Todos os recursos, a energia, a vontade e a dedicação está focada para ajudar as mulheres, as matrizes, suas mães, filhas e esposas.

Mas… claro que isso é apenas mais uma faceta do machismo. Os homens cuidam das mulheres porque as odeiam e querem escravizá-las. Curam suas doenças, tratam suas feridas, deixam suas vidas mais dignas, mas o motor destas ações é o ódio. Este mesmo ódio que todo homem carrega por uma mulher é fruto da…. da… raiva que sentem da primeira mulher que os abandonou. Por isso tanta mágoa e desprezo. Por isso as poucas causas em que os homens se engajam dizem respeito apenas ao seu gênero, sua infinita vaidade e seu infindável egoísmo.

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O machismo de cada um

Machismo-II

Eu não sou um machista (porque racionalmente rejeito qualquer tese de supremacia masculina sobre a mulher), mas vivo num mundo controlado pelo patriarcado. Assim sendo, muitas vezes minhas ações são comandadas por este paradigma. Por exemplo: dirigir o carro quando a família toda está junto; pagar a conta do restaurante; ter um comportamento de proteção quando minha mulher e minha filha estão comigo.

Machismos? Não creio… marcas dos milênios de patriarcado. Portanto, o patriarcado está embebido nas minhas células determinando de forma invisível minha maneira de agir e proceder. Todavia, ele também compõe a matéria que forma as células das mulheres. Elas também vivem nesse sistema e esperam que ele lhes ofereça alguma vantagem e proteção. O problema é que, depois de 10 mil anos de vigência é hora de exterminá-lo por algo que ofereça uma condição melhor para as mulheres, mas também para os homens. Se ele teve sua importância no mundo a ponto de ser usado em toda parte, agora está caduco e não serve mais aos propósitos deste mundo. Para acabar com isso é necessário tocar nas fundações profundamente fincadas em nosso código valorativo, e isso não se faz sem dor.

Da mesma forma que a passagem da infância para a adolescência nos propicia um acréscimo de liberdade às custas de uma perda da proteção paternal, a queda do patriarcado também se fará com o necessário sofrimento, para os homens – que sofrem as dores da perda de uma identidade forjada há milênios como provedores e proprietários das mulheres – e para as mulheres, que terão que aprender a se defender sozinhas em um mundo em que a liberdade sempre cobra altos preços. É isso o que vemos hoje em dia: mulheres muitas vezes solitárias pelas perdas de companheiros, mas orgulhosas dos passos que deram em direção à liberdade e à autonomia. A literatura e o cinema nos oferecem exemplos magníficos dessa fase de transição.

Por seu turno vemos homens que se despedem da roupagem controladora e machista de “proprietários“, e que sentem-se confusos e desnorteados, perdidos num limbo identificatório sem precedentes. “Se não sou mais o provedor, o que sai pelo mundo na caça e na luta, se as mulheres não mais precisam de mim para sobreviver, se não sou mais o braço forte em um mundo mecanizado e cibernético, para o que sirvo, afinal? Qual o sentido do masculino no mundo? Seremos fêmeas sem útero?”

Estas são as perguntas de homens e mulheres, cujas respostas nos aguardam nos próximos séculos. Certamente que o mundo que virá será diferente, mas espero que, apesar dos embates necessários e da reacomodação das placas tectônicas dos papéis sociais, os homens continuem amando suas mulheres e que elas continuem nutrindo por eles a paixão que é a chama indelével que nos transforma em humanos.

Se não sobrar nenhuma marca cultural e artificial que nos defina, que o desejo e a complementariedade permaneçam para nos dar esperança no futuro.

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