Desabafo

desabafo

 

Ontem eu li a emocionada declaração de uma médica obstetra na Internet descrevendo o bom trabalho que faz junto às suas pacientes e as dificuldades da profissão. Diante de cada dificuldade ela dizia se sentir “violentada”. Depois de descrever com minúcias sua atuação médica ela se alia aos críticos da atuação do deputado Jean Wyllys (que combate a violência obstétrica) e estampa a rechitégue “calabocajeanwyllys”.

Eu tentei entender a motivação da colega e vi que ela se estendia para além das palavras escritas, e ficou claro que ela se referia a uma herança da ação médica, que entende todo ato médico como “benevolência”. Em palavras – menos explícitas – o que ela diz é: “Depois de TUDO o que faço por vocês, com enorme sacrifício da minha vida, como ousam falar de violência obstétrica?”

Para mim fica clara a ideia de que os pacientes “devem” aos médicos pela ação devotada e superior que eles tem na sua labuta diária contra as doenças e o sofrimento. O salário que recebemos é insuficiente para dar conta dessa dívida e, portanto, não faz sentido uma reclamação vinda de quem tanto deve para nós.

Este tipo de postura é essencialmente autoritária e desprovida de sentido amplo, servindo apenas como um desabafo pessoal, que qualquer um pode fazer diante da sensação de não receber o reconhecimento de que se acha credor. Ele, entretanto, falha quando insinua que uma profissão não pode ser questionada por estar “acima” das críticas, em função da essência superior de sua ação.

O desabafo soa como o de um policial que enfrenta bandidos, prende malfeitores, arrisca a vida em tiroteios e depois não aceita que se fale em “violência policial” já que ele coloca sua vida em risco por nós.

Ora, o fato de haver bons e dedicados policiais não inválida a existência de violência, tortura, ilegalidades, arbítrio e corrupção, assim como o fato de que estas falhas PRECISAM ser denunciadas. Da mesma forma, o fato de um obstetra (ou qualquer outro profissional da assistência ao parto) fazer bem o seu trabalho (SIC) não invalida a existência de um modelo violento de obstetrícia, que despreza a autonomia feminina, desreconhece práticas baseadas em evidências, burla a legislação do acompanhante, impede a livre expressão e objetualiza gestantes. E isso também PRECISA ser denunciado, para que seja eliminado da assistência ao parto.

O deputado Jean foi apenas o veículo de uma indignação crescente da população com a incapacidade do sistema médico de reconhecer as questões éticas essenciais da assistência ao parto, como a liberdade de fazer escolhas informadas. Reclamar dele é cegar-se à óbvia mudança que se aproxima em relação aos direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que minha colega continue seu bom trabalho mas que possa, ao mesmo tempo, reconhecer que a violência ainda é um modo de relação entre profissionais e pacientes, e que ela precisa ser eliminada para sempre do nosso meio.

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Arquivado em Ativismo, Parto

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