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Dores de par(t)ir

No meu modesto ver – e reconhecendo meu lugar de fala de quem jamais vai passar pela experiência de parir – creio ser necessário quebrar a construção cultural da dor do parto como o elemento descritivo e preponderante do evento. Não resta dúvida que a dor existe, às vezes excruciante e violenta – exatamente pela passagem do bebê através da ossatura e pelo colo uterino, da forma como o pediatra Ricardo Chaves demonstrou neste vídeo. Todavia, descrever as infinitas sensações presentes no parto através de apenas UMA delas – a dor – serve apenas para validar uma postura profissional cuja insensibidade às múltiplas funções do parto – psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais – nos faz anestesiar sua expressão mais potente. Calamos esse grito por medo de lidar com algo que extrapola nossa tênue compreensão.

Em verdade sou ainda mais radical. Ao meu ver, para que o parto cumpra sua função de partir, cortar, libertar e transpor é essencial que o evento seja marcado no corpo, com a brasa incandescente da ruptura. Assim transformada pela dor criativa de parir, essa mãe terá as melhores condições possíveis para suportar os desafios do ser que se tornou. A dor, como fenômeno inserido na fisiologia do parto, é um poderoso elemento na construção da maternidade.

Como dizia Bárbara Katz-Rothman “Parir não é apenas fazer um filho, mas forjar uma mãe forte, capaz de suportar os desafios da maternagem“. A dor é a tatuagem mais perene a compor este rito de passagem que, como todo ritual, marca os limites do que se foi e do que nos tornamos.

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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

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Milícias, brigadas, fundamentalismo e …. medo

Sao Paulo - Brazil -  31/07/2014 - Solenidade de inauguraÁ¿o do Templo de Salom¿o em Sao Paulo Jonne Roriz

Há algumas semanas eu escrevi um post perguntando as razões para que a Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, mudasse de uma forma tão radical sua forma de expressão. Basicamente eu perguntava porque o foco deixava de ser o Evangelho – a Boa Nova, o novo testamento – para buscar uma ligação intensa e absoluta com o judaísmo, o velho testamento e o sionismo. Os detalhes da cerimônia de inauguração do “Templo de Salomão” (obra que custou mais do que a Arena do Corinthians) são inacreditáveis.

Pois quando eu li (vide link abaixo) que no início da cerimônia de inauguração do templo foram entoados os hinos brasileiros e o de Israel (!!!!) minha perplexidade deu lugar à certeza de que, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos com os tele-evangelistas, tais iniciativas tem relação ideológica e econômica com o sionismo internacional e com o suporte ao governo de ocupação racista de Israel. Os esforços para criar uma consciência global contra a limpeza étnica e o apartheid na Palestina vão esbarrar no pior fundamentalismo religioso existente. A Igreja do bispo Edir continuará sendo um baluarte do atraso e um entrave aos direitos humanos na Terra Santa. Pobres palestinos…

Não por acaso tal conluio com as forças mais violentas e agressoras dos direitos humanos partem do mesmo grupo pentecostal que acaba de anunciar a criação dos “Gladiadores do Altar“, com seus gritos fascistas, uniformes militares, ordem unida, discurso de direita e comportamento agressivo. Como diz o parlamentar Jean Wyllys, falta pouco para espancarem e matarem em nome da religião, ou para jogarem gays e lésbicas do alto das torres.

Mas aí já será em nome de Moisés e das tribos de Judá.

 

Leia mais no link abaixo:

O que a imprensa não disse sobre o Templo de Salomão

 

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O abuso – das calcinhas aos bisturis

Gerald Thomas Corte

Nos últimos dias fomos assaltados por uma imagem que até poderia ser chocante e agressiva não fosse a televisão a nos escandalizar todos os dias e banalizar os abusos. Entretanto, tivesse acontecido há alguns anos e isso seria intolerável para a moral e os bons costumes. Na foto que circulou pela Internet, um conhecido dramaturgo brasileiro (apesar do nome estrangeiro) coloca as mãos por debaixo do vestido exíguo de uma – aparentemente – constrangida apresentadora que participava de um programa de televisão. A cena é tão grosseira que até parece uma montagem previamente combinada, tamanha a liberalidade com que o artista se desvencilha das mãos da modelo e tenta alcançar as peças mais íntimas do seu vestuário.

Tudo é permitido na cena contemporânea. Para alcançar o sucesso e a fama parece que o limite tornou-se obscuro e esfumaçado. Numa sociedade de “ninguéns” um alguém que retira despudoradamente a calcinha de uma modelo parece alcançar uma merecida notoriedade. A fotografia bizarra chamou a atenção da mídia e de inúmeros articulistas, das feministas aos cronistas de cotidiano, todos condenando a ação violenta e grosseira levada a efeito durante a sessão de autógrafos do citado artista.

Por outro lado, muito se falou sobre o descaramento e a permissividade do tal ato, e pouco se falou do terreno fértil que a cultura contemporânea cria para esta ação. Se a atitude do cabeludo artista é deplorável, e tem sido por todos condenada, resta a pergunta que não quer calar: porque é tão fácil acessar o corpo de uma mulher?

Difícil responder, mas eu temo que esta questão fique restrita à discussão da exposição excessiva do corpo e das formas de uma mulher desejável, e das consequências que este oferecimento parece produzir nos homens. É certo que a provocação erótica de uma mulher que vende seus atributos físicos para o uso da fantasia alheia não significa, em hipótese alguma, a liberação de acesso à sua intimidade. Se a atitude agressivamente erótica dela pode receber alguma crítica de setores mais moralistas da sociedade, não vejo possibilidade de aceitar qualquer invasão do sagrado território de seu corpo com a justificativa de que “ao vestir-se assim estava autorizando o abuso”. Chega desse tipo de discurso, pois que ele está velho demais para continuar sendo usado.

Entretanto, eu gostaria de falar de outros abusos contra o corpo das mulheres. Há mais neste abuso do que simplesmente uma mão boba explorando uma calcinha, e acho que é oportuno que abordemos esta questão de frente. Para mim, que milito na área da humanização do nascimento, o “levantar de saias” deste senhor é uma agressão menor se comparada aos abusos diários e repetidos contra as mulheres perpetrados por uma atenção ao parto que viola a segurança de seus corpos.

O índice de cesarianas no Brasil chegou a números inaceitáveis. Mais da metade das mulheres deste país é submetida a uma grande cirurgia para a extração de bebês, muitos deles antes de estarem minimamente adaptados à vida extrauterina. As taxas de prematuridade explodiram no país, com consequências que podem se alastrar por toda a vida deste ser que está nascendo. Nossa invasão irrefletida ocorre à despeito de milhões de anos de processo adaptativo que capacitaram as mulheres para um nascimento fisiológico. Centenas de estudos e pesquisas abrangentes já foram realizados sobre esta questão e todos confirmam que a cesariana é muito mais perigosa e danosa para a segurança de ambos, mãe e bebê. Mesmo assim, e apesar das comprovações do risco aumentado, a incidência continua aumentando. Por quê? Qual a razão para continuarmos aceitando tanto abuso?

Se nos escandalizamos com a atitude obscena, despudorada e invasiva realizada contra a modelo de pernas saradas, por que não ocorre o mesmo com as intervenções abusivas nos corpos roliços e lustrosos de grávidas, submetidas diariamente – e aos milhares – a procedimentos invasivos e perigosos? Mais ainda: Se consideramos inaceitável que o ato deste artista seja esquecido, e considerado apenas um “arroubo de liberalidade em uma sociedade histérica”, ou quem sabe “uma brincadeira inconsequente de uma mídia para idiotas”, porque continuamos a fechar os olhos para a violência de corpos retalhados sem necessidade para satisfazer os desejos de controle e poder sobre as gestantes e seus corpos? Porque não produzimos em nós a mesma sensação de enojamento que o abuso na moça bonita produziu?

Minha resposta não é que os homens e as mulheres ainda se calam, ainda se fecham. Não há vozes suficientes para fazer a indignação das redes sociais virar um clamor por respeito, verdadeiro e eficiente. Os mesmos corpos que são vendidos ao lado de cervejas não conseguem se mobilizar para exigir que a inviolabilidade do corpo de uma mulher seja um fato social.

Por enquanto só escutamos ruídos baixos, ranger de dentes, lágrimas contidas e indignações sussurradas. O respeito à mulher precisa ir para a rua, para os parlamentos, para os centros obstétricos e para o ouvido das meninas, para que elas cresçam com a consciência de que o corpo que carregam por toda uma vida é um patrimônio de valor, e que deve ser respeitado.

Enquanto as mulheres permanecerem em silêncio todos os tipos de abusos serão cometidos. Levantar o vestido de uma mulher em público, abrir seu ventre sem justificativa ou impedir que seu marido esteja presente no parto são abusos que tem a mesma origem: o silêncio, a mortificação muda, a apatia vitimista e a condescendência com uma ordem cultural que avilta o feminino e expropria a mulher de seu próprio corpo. Lutar pela liberdade das mulheres é um dever dos cidadãos, homens e mulheres, que desejam uma sociedade baseada na fraternidade, na justiça e na liberdade.

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