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Corporação

Sobre brigas na corporação…

Uma coisa sempre me chamou a atenção no comportamento dos médicos: nunca encontrei neles qualquer superioridade (ou inferioridade) moral ou intelectual quando comparados a qualquer outra profissão, mesmo as mais “humildes”. Médicos são humanamente imperfeitos como qualquer sujeito.

Isso me marcou desde o tempo de faculdade quando vi famosos professores da minha área fazendo fofocas mordazes para grupinhos de residentes atacando seus colegas de cátedra. Eu pensava: “mas… a vida na Academia é assim mesmo, como um recreio de escola?

Sim, sem tirar nem por. Esses personagens podem ser tão violentos e agressivos nas críticas quanto os piores políticos do baixo clero. Não havia nenhuma sofisticação neste grupo, o que foi um choque de realidade que agradeço por me alertar para a natureza humana.

Entretanto, apesar de achar natural que haja lados e perspectivas distintas a defender, eu acho curioso esse ataque à legalização do aborto por parte de setores da corporação. Sério que existem facções na AMB, no CFM e até na FEBRASGO contrárias à legalização do aborto? Agora a moda é atacar candidatos por serem favoráveis ao aborto seguro, “lenientes” com a “invasão” das doulas e por reconhecerem a existência de violência obstétrica. Mesmo?

Pois vejamos; ser contra as doulas é uma bobagem. Elas já ganharam o jogo, estão presentes em todo os lugares. Legislações municipais e estaduais se multiplicam. Lutar contra elas é perda de tempo, e a atitude correta é essa mesma: adaptar-se a essa nova realidade, firmar parcerias, regulamentar e assimilar. As doulas representam um avanço com embasamento científico e aceitação popular, uma viagem que não tem volta.

Quanto à violência obstétrica, o mesmo. Fingir que não existe é estupidez. Uma atitude sábia é reconhecer e, pelo menos, se comprometer em combatê-la. Negar é suicídio, tolice, burrice.

Ser a favor da descriminalização e posterior legalização do aborto não é uma questão moral, mas de saúde pública. Ponto. Os médicos deveriam estar na linha de frente da defesa desse DIREITO.

É triste ver como as organizações médicas frequentemente andam a reboque da história. Há alguns anos apoiaram descaradamente a candidatura de Aécio. Depois disso foram parceiros no golpe de 2016 e ainda agora associam-se ao bolsonarismo, assumem posturas anacrônicas como o combate à liberalização do aborto, a exaltação da Cloroquina, o desmonte do SUS e o apoio à um genocida na presidência.

Não acredito que a saúde do Brasil pode se fortalecer sem a presença de médicos comprometidos com o oposto destas posturas, que alguns integrantes de relevância nas suas entidades abraçam. Por enquanto a medicina brasileira está tristemente parecida com o pior de sua política.

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Parto da Vaca

Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…

Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.

Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….

Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.

Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.

Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.

E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.

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Zíper

Ainda impactado com as novidades que vivenciei em meu primeiro plantão em um centro obstétrico, encontrei meu pai recostado em sua poltrona lendo um livro e tomando uma xícara de café. Eu não tinha mais do que 20 anos de idade e o contato com o nascimento humano me havia deixado deslumbrado. Mais do que o universo químico, hormonal e mecânico que eu só aprenderia mais tarde, esta oportunidade me havia jogado de cabeça na realidade crua e animal do parto. Em verdade, mal eu sabia que esta experiência me transformaria a tal ponto que seria o funil pelo qual, por muitos anos, eu enxergaria o mundo.

No plantão que fiz como estudante em um pequeno hospital de periferia acompanhei, junto ao médico, o nascimento de uma criança. Lembro até hoje do nome do bebê que nasceu: Maurício. Não pude esquecer porque se parecia com o nome do meu pai, “Maurice”, uma provável homenagem ao cantor, ator e humorista parisiense Maurice Chevalier. A explosão sensorial a que fui submetido foi estupenda. Senti-me catapultado para um estrato de percepção completamente diverso daquele a que um menino ainda adolescente vive em seu cotidiano. As dores, os puxos, os esforços, o suor, o sangue, o líquido da bolsa, o grito, o alívio. Depois o cansaço, a dúvida, as incertezas. Também vi o abandono e a superação, todos juntos e embrulhados em um pacote chamado “vida”.

– Acompanhei um parto ontem no hospital, disse-lhe eu, fingindo uma naturalidade que evidentemente era falsa.

– Humm, disse ele. Que tal?

– Interessante, respondi.

– E como é? Em verdade eu sou do tempo em que os pais eram proibidos de entrar em um centro obstétrico. Mas, para ser sincero, nunca me passou pela cabeça assistir algo assim. Mesmo se tivesse esse direito eu declinaria. No nascimento dos meus 4 filhos minha única preocupação sempre foi saber se havia gasolina no carro para levar até o hospital. O resto era com as freiras e com os médicos.

– Eram outros tempos, disse eu. Pois é muito curioso ver uma criança nascendo. A dilatação, o aparecimento da cabeça, o corte no períneo para permitir a saída e o nascimento e depois os pontos para fechar o corte.

– Corte na vagina?

– Sim, se chama “episiotomia”.

Ele parou alguns instantes, tomou um gole de café. Ficou me olhando com uma face desconfiada. Por fim, perguntou:

– Como é feito este corte na vagina?

– Com bisturi ou tesoura. Fazemos assim para não estragar a vagina. Se o corte não for feito os tecidos esgarçados pela passagem da cabeça podem se romper de forma errática, destruindo a anatomia dessa região, o períneo. É uma forma de “civilizar o parto” que, de outra forma, poderia trazer danos para a mulher.

– Hummm, respondeu ele coçando a cabeça. Ok, eu entendi, mas com qual material é feito esse bisturi? E a tesoura?

– Creio que de aço inoxidável, por quê?

Ele sorriu e respondeu:

– Sua história não faz sentido. Não consigo entender como poderiam usar aço inoxidável para fazer isso.

Eu sabia que havia um truque em sua pergunta, mesmo assim resolvi continuar.

– Qual o problema? Queria que usasse outro material? A questão é que nos hospitais a esterilização e as autoclaves pre….

Ele me interrompeu com a mão espalmada a frente.

– Calma, não estou fazendo críticas ao material, mas não consigo entender como um processo fisiológico e natural como o parto precisa de uma ajuda tecnológica que tem apenas algumas poucas dezenas de anos. Para mim, ajudar tecnologicamente um parto é como furar o nariz para aumentar a passagem de ar, como se nossos narizes fossem insuficientes, defectivos e falhos. Como o processo adaptativo de milhões de anos se esqueceu de dotar as mulheres de um “zíper” neste local para auxiliar na passagem de um bebê? Como as parteiras primitivas cortavam o períneo na pré-história? Com pedra lascada?

Tomou mais um gole de café e continuou a me bombardear com perguntas desconcertantes.

– Como podemos admitir que um processo fisiológico e natural necessita de um “conserto” que só vai ocorrer milhões de anos depois? Essa conduta – romper as vaginas para alargar a passagem – me parece insensata se formos analisar por uma perspectiva darwinista. Onde estava o processo evolutivo que não olhou para as mulheres? Por que a natureza se esqueceu delas e ficou milhões de anos aguardando um garoto como você para ajudar estas senhoras a terem filhos?

Para um eletricitário aposentado ele tinha uma observação muito objetiva da realidade. Eu fiquei sem entender sua posição e por causa disso resolvi fazer o que qualquer um faria: desconsiderei sua fala acreditando ser apenas uma tolice produzida por alguém que não conhecia o tema em profundidade. Troquei de assunto e contei as outras peripécias do meu dia de plantão.

Corta a cena e, oito anos depois, eu fazia plantões – agora como obstetra – em um hospital de periferia. Depois de costurar um períneo na madrugada lembrei das ponderações do meu pai naquele encontro regado a café. Pensei na sua observação e nas suas exatas palavras: “Não faz sentido”. Questionei solitariamente os significados últimos desse procedimento e o que lugar ele ocupava na narrativa contemporânea da obstetrícia. Lembrei de suas origens com De Lee e a emergência da obstetrícia como especialidade médica, ao mesmo tempo em que ocorria o ocaso da parteria. Alguns anos depois Robbie Davis-Floyd escreveria “Birth as an American Rite of Passage” e este enigma, em minha mente, seria solucionado. Antes disso, no início dos anos 90, durante a solidão de um plantão de periferia, eu decidi que não faria mais episiotomias de rotina, que não mais perpetuaria um procedimento que, lentamente, ia se configurando como uma real violência contra as mulheres e sua integridade física. Naquele exato dia, com as lembranças da perspectiva do meu pai sobre esse procedimento, eu abandonei essa prática.

Ainda perplexo pela minha decisão, resolvi escrever nas costas de um manual de obstetrícia, um código pessoal de conduta para os procedimentos obstétricos. Procurei ser o mais sucinto possível e escrevi uma lista que se baseava em cinco pontos capitais, sendo o sexto adicionado apenas 10 anos depois quando do surgimento das doulas no Brasil:

1- Ambiente acolhedor

2- Posição vertical como padrão

3- Suporte físico e emocional

4- Uso restrito de drogas

5- Uso restrito de intervenções

6- Auxílio de doulas

A observação do meu pai havia plantado uma semente de dúvida sobre o que era o proceder médico. Pude enxergar que tais procedimentos são baseados no que eu mais tarde chamaria de “misoginia essencial”, que pode ser definida como a incapacidade da sociedade patriarcal em reconhecer as mulheres como intrinsecamente capazes e aptas para suportar os desafios que lhes cabem, em especial aqueles ligados à reprodução.

Por fim, eu entendi que a tarefa de auxiliar as mulheres durante o parto passava por uma compreensão da real posição de um cuidador: aquele que deve estar ao lado, invisível, como feito de vidro, para que suas intervenções não venham a ofuscar a luz que emana daquelas que devem brilhar.

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Dores de par(t)ir

No meu modesto ver – e reconhecendo meu lugar de fala de quem jamais vai passar pela experiência de parir – creio ser necessário quebrar a construção cultural da dor do parto como o elemento descritivo e preponderante do evento. Não resta dúvida que a dor existe, às vezes excruciante e violenta – exatamente pela passagem do bebê através da ossatura e pelo colo uterino, da forma como o pediatra Ricardo Chaves demonstrou neste vídeo. Todavia, descrever as infinitas sensações presentes no parto através de apenas UMA delas – a dor – serve apenas para validar uma postura profissional cuja insensibidade às múltiplas funções do parto – psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais – nos faz anestesiar sua expressão mais potente. Calamos esse grito por medo de lidar com algo que extrapola nossa tênue compreensão.

Em verdade sou ainda mais radical. Ao meu ver, para que o parto cumpra sua função de partir, cortar, libertar e transpor é essencial que o evento seja marcado no corpo, com a brasa incandescente da ruptura. Assim transformada pela dor criativa de parir, essa mãe terá as melhores condições possíveis para suportar os desafios do ser que se tornou. A dor, como fenômeno inserido na fisiologia do parto, é um poderoso elemento na construção da maternidade.

Como dizia Bárbara Katz-Rothman “Parir não é apenas fazer um filho, mas forjar uma mãe forte, capaz de suportar os desafios da maternagem“. A dor é a tatuagem mais perene a compor este rito de passagem que, como todo ritual, marca os limites do que se foi e do que nos tornamos.

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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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Arquivado em Ativismo, Parto