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As Armadilhas da Identidade

Há muitos anos me debato com a questão do identitarismo, até porque sempre fui um homem imerso em um universo absolutamente feminino, e seria normal e compreensível que sempre fosse visto com uma certa estranheza. Por esta razão, não foram poucas as vezes que me defrontei com silenciamentos, exclusões e com o indefectível argumento do “lugar de fala”.

Por certo que muita besteira eu disse nessas três décadas de debates sobre partos, amamentação, puerpério e os próprios aspectos da sexualidade ligada ao parto, mas eu via nas inúmeras interdições – veladas e explícitas – um cancelamento indevido de vozes cuja aparente dissonância em verdade oferecia a possibilidade de se criar uma melodia muito mais rica e complexa. Sempre acreditei que estes múltiplos pontos de vista poderiam compor uma paralaxe benéfica para fortalecimento das ideias. Todavia, muitas vezes preguei no deserto.

Assim, o livro “Armadilhas da Identidade” de Asad Haider, caiu como uma luva sobre minhas inquietações, em especial porque trazia a resposta para uma antiga indagação. Em uma parte do livro – onde comenta sobre a realidade do racismo que atinge os negros americanos – ele observa que em muitos lugares (como em Milwakee, por exemplo) a maioria dos policiais é negro. Surge então a questão: como poderia a polícia se manter violenta e racista se os indivíduos que a compõem são do mesmo grupo vitimado por esta instituição?

Quando li isso me veio à mente outra violência que acompanhei diuturnamente durante mais de três décadas: a violência de gênero que se expressa na assistência ao parto, onde a imensa maioria das atendentes – inclusive as obstetras, que se situam no ápice do sistema de poderes – é composta por mulheres. Aqui sempre esteve presente a mesma pergunta: por que mantemos uma assistência violenta e misógina mesmo depois da obstetrícia se tornar majoritariamente feminina?

Não seria de se esperar que a violência diminuísse a partir do momento em que negros vigiassem negros e mulheres acolhessem mulheres? Não haveria uma obrigatória identificação com o outro, objeto de nossa ação?

O resultado dessa maior representação – conforme testemunhei durante décadas – foi ausente ou pífio. Não há até hoje nenhuma diferença mensurável entre as ações de policiais negros ou de obstetras mulheres no que diz respeito à violência de sua prática. A explicação para esse fenômeno é porque, muito mais importante do que os sujeitos que estão presentes nestes atos, são as instituições e os valores que elas representam. A polícia existe para impor à sociedade pela força uma divisão brutal de classes, enquanto a obstetrícia vai marcar as mulheres com o signo da submissão feminina dentro da sociedade patriarcal, inobstante os atores que emprestam seus corpos e mentes para essa função.

Colocar indivíduos negros na polícia e mulheres na obstetrícia – garantindo a esses grupos uma maior representatividade – em nada auxilia na transformação radical do sistema que os sustenta. Em verdade, as políticas identitárias que se resumem a colocar mulheres e negros em posição de destaque são parte do sistema de dominação – e não sua real oposição.

O grande equívoco é mantermos nossa visão obscurecida pelo gênero e raça e não percebermos a estrutura capitalista que subjaz, a mesma que fabrica a misoginia, o racismo e outros preconceitos como ferramentas para manter a sociedade de classes. Esse erro se espalha e se reproduz quando colocamos a culpa no branco e no homem, como se estes personagens fossem os culpados pelo sistema de opressão do qual eles também são vítimas.

Por esta razão creio que um movimento unificado que suplante os identitarismos seria a grande saída para o fortalecimento das lutas. Aliás, a proposta de colocar homens, cis, brancos e heterossexuais como “os inimigos a serem destruídos” é um roteiro que só pode levar ao fracasso, como visto até agora.

O fim do racismo e do machismo vai ocorrer quando houver a superação da sociedade de classes através da luta de todos, acima das identidades, em direção a uma sociedade sem divisões artificiais.

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Desabafo

desabafo

Ontem eu li a emocionada declaração de uma médica obstetra na Internet descrevendo o bom trabalho que faz junto às suas pacientes e as dificuldades da profissão. Diante de cada dificuldade ela dizia se sentir “violentada”. Depois de descrever com minúcias sua atuação médica ela se alia aos críticos da atuação do deputado Jean Wyllys (que combate a violência obstétrica) e estampa a hashtag “calabocajeanwyllys”.

Eu tentei entender a motivação da colega e vi que ela se estendia para além das palavras escritas, e ficou nítido que ela se referia a uma herança da ação médica, que entende todo ato médico como “benevolência”. Em palavras – menos explícitas – o que ela diz é: “Depois de TUDO o que faço por vocês, com enorme sacrifício da minha vida, como ousam falar de violência obstétrica?”

Para mim fica clara a ideia de que os pacientes “devem” aos médicos pela ação devotada e superior que eles tem na sua labuta diária contra as doenças e o sofrimento. O salário que recebem é insuficiente para dar conta dessa dívida e, portanto, não faz sentido uma reclamação vinda de quem tanto deve para eles.

Este tipo de postura é essencialmente autoritária e desprovida de sentido amplo, servindo apenas como um desabafo pessoal, que qualquer um pode fazer diante da sensação de não receber o reconhecimento de que se acha credor. Ele, entretanto, falha quando insinua que uma profissão não pode ser questionada por estar “acima” das críticas, em função da essência superior de sua ação.

O desabafo soa como o de um policial que enfrenta bandidos, prende malfeitores, arrisca a vida em tiroteios e depois não aceita que se fale em “violência policial” já que ele coloca sua vida em risco por nós.

Ora, o fato de haver bons e dedicados policiais não inválida a existência de violência, tortura, ilegalidades, arbítrio e corrupção, assim como o fato de que estas falhas PRECISAM ser denunciadas. Da mesma forma, o fato de um obstetra (ou qualquer outro profissional da assistência ao parto) fazer bem o seu trabalho (SIC) não invalida a existência de um modelo violento de obstetrícia, que despreza a autonomia feminina, desreconhece práticas baseadas em evidências, burla a legislação do acompanhante, impede a livre expressão e objetualiza gestantes. E isso também PRECISA ser denunciado, para que seja eliminado da assistência ao parto.

O deputado Jean foi apenas o veículo de uma indignação crescente da população com a incapacidade do sistema médico de reconhecer as questões éticas essenciais da assistência ao parto, como a liberdade de fazer escolhas informadas. Reclamar dele é cegar-se à óbvia mudança que se aproxima em relação aos direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que minha colega continue seu bom trabalho mas que possa, ao mesmo tempo, reconhecer que a violência ainda é um modo de relação entre profissionais e pacientes, e que ela precisa ser eliminada para sempre do nosso meio.

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