Adeus

suicidio-3

E o seu marido, onde está?
Bem vi, por certo dormita, pensando em outras volúpias.
Impossível que não desconfie do nosso envolvimento.
Eu acho que não devemos continuar nos vendo…
Já sabia? Meus clichês são assim tão previsíveis?
Eu não queria me apaixonar…
Desde o princípio nossa química parecia perfeita, mas este é apenas mais um lugar comum estúpido.
E agora nem as reações mais banais parecem oferecer segurança.
Você nunca deveria ter me seduzido dessa forma…
Sim, não tire de si esta a responsabilidade. Não estou lhe jogando culpas, mas perceba como tudo aconteceu de uma forma que eu não tinha alternativas. Fui uma mosca emboscada, hipnotizada e acabei enredado, sem perceber, no visgo de sua teia.
Você foi cruel e sua sensualidade foi destrutiva.
E eu acabei caindo pelas minhas próprias fraquezas.
Roubou-me a alma e agora vejo você se comprazendo com a dissolução lenta e agonizante do meu corpo.
Será que por algum momento pensou em mim? De verdade?
Sabe de uma coisa? Melhor que ele saiba. Melhor que me mate. Talvez assim eu consiga o descanso que desejo; a sorte que procurei; o destino que sempre ambicionei.
Quer saber se quero lhe ver? Que pergunta é essa?
Perguntarias a um faminto se ele quer seu prato de comida contaminada?
O quanto te sorvo, tanto me consumo…
Tu és minha saciedade e meu veneno.
Vou ligar para ele e contar tudo; de uma só vez. Talvez a bala que ele me lançar já me encontre morto.
Se eu quero lhe deixar louca? Pudera eu enlouquecê-la. Assim louca talvez nossa relação tivesse mais sanidade.
A verdade é que meus tendões estão a se romper e minhas mãos procuram meu pescoço, num afã de terminar com o ar que respiro. Minha mente vagueia solta, desesperada, perdida e presa ao mesmo tempo. Só penso em você, prisioneiro de uma doença. Ao mesmo tempo em que lhe quero, lhe odeio e amaldiçoo.
Prefiro a liberdade final ao aprisionamento que se impõe.
A arma carregada transpira na minha mão seca.
A ponta do revólver coça meu palato…
Tento engolir em seco, mas sinto o gosto do cano a corroer minha garganta…
Minha vida não merece o calor das manhãs. Meu despertar tem o sabor ocre das saudades infinitas. Não há mais sentido nessa dor, somente dor nos meus sentidos.
E a culpa é toda sua…

 

PÁ!… o ruído seco ecoa na minha boca semiaberta.
Sinto o gosto da pólvora na língua.
Minha mente se embaralha com o som áspero da bala a romper a neuróglia.
Sinto os sonhos confusos tornando-se imagens vítreas.
Mas na escuridão que se forma percebo uma tênue luz que ganha corpo no infinito próximo…
Lá, no brilho tubular encontro, sem surpresa, tua imagem. Percebo então, endoidecido, que nem a morte me separaria de você.
Você me acompanharia aonde quer que minhas ilusões me levassem. Mesmo a extinção não seria a cerca definitiva.
Tiro a arma da boca e vejo a realidade da parede à minha frente. Olho para os lados à procura de mim mesmo.
Por não me encontrar, decido fazer um sanduíche de atum…

E como sozinho.

 

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