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Tabus

Em uma comunidade que participo foram postadas as fotos do parto do homem trans realizado na água que rodaram o mundo. Por ser uma comunidade progressista o tema “trans” é bem recebido, especialmente porque dá destaque à liberdade e à diversidade. Boa parte dos integrantes se diz feminista. Apesar de encontrar manifestações de “estranheza” (da qual também fui acometido) não vi nenhuma posição debochada ou desrespeitosa sobre o tema nessa comunidade.

Entretanto, mesmo nas comunidades de esquerda, fica evidente por esta postagem que, mais do que a questão trans, o PARTO ainda é o tabu mais intenso e forte. Os comentários seguem a mesma trilha conhecida de culpar o nascimento – e sua configuração humilhante e dolorosa – pelo sofrimento das mulheres. “Degradante” foi a palavra usada, mais de uma vez.

Espero falar sobre isso nas lives que farei nos próximos dias. O discurso de muitas mulheres continua sendo a penalização de sua própria condição feminina, carregada como uma cruz e/ou uma maldição. As que tiveram partos fáceis – ou rápidos, indolores, suportáveis – creditam esse resultado à “sorte”, algum mistério genético ou metabólico que as protegeu de uma desgraça quase inevitável.

Quase ninguém ousa questionar o entorno, a atenção obstétrica ou a cultura que circunda, envolve e permeia a perspectiva dessas mulheres sobre o fenômeno do parto. O discurso se mantém inalterado, inobstante o viés de esquerda ou direita. O corpo das mulheres é defectivo, imperfeito e falho, responsável pelo tortura de parir.

A culpa continua sendo da natureza – misógina, cruel e insensível ao martírio feminino. Assim, fica claro que a luta pela humanização do nascimento não pode prescindir da educação das meninas (e meninos) sobre os significados últimos do feminino e do parto, para que a geração que agora chega possa ter uma compreensão mais profunda desses dilemas.

PS: mantive o nome das pessoas que se manifestaram porque não faço críticas às suas posturas – que são legítimas e sinceras – mas as utilizo com o um retrato da visão da cultura – em especial das mulheres – sobre a questão do parto contemporâneo.

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Sociopatia

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Há quase 50 anos, durante uma festa de São João no prédio onde morava, percebi meu pai sentado em silêncio em um canto do recinto  com o olhar preso no infinito cósmico. Perguntei a ele se estava bravo ou triste, e ele me respondeu que não. Perguntei se ele estava se divertindo e ele novamente disse “não”.

Fiquei surpreso,  pois era uma festa. Música,  fogueira, crianças correndo, piadas, “quentão”, broas e pinhão. O que poderia ser melhor e mais divertido que isso?

– Eu não consigo achar festas divertidas, mas não me pergunte o porquê. Qualquer explicação será parcial e incompreensível. Não se preocupe, estou bem.

Fiquei triste, sem saber o que dizer e, de uma certa forma, fiquei decepcionado. Ao meu lado via outros pais dizendo bobagens, cantando músicas e exagerando na bebida, enquanto meu pai apenas observava e, quando muito, ensaiava um tímido sorriso. Seu rosto demonstrava toda a distopia e toda a falta de conexão com a alegria fugaz, superficial e explícita do ambiente.

Por muitos anos não consegui entender meu pai e sua sociopatia. Por um tempo eu o culpei por ser como era. Todavia, minha incompreensão não durou muito tempo. Lembro que os primeiros sintomas percebi na adolescência, e na entrada da vida madura eu podia reconhecer em mim a mesma patologia em graus crescentes de manifestação. O destino se ocupara de me amaldiçoar com a mesma sina.

Hoje vi uma cena de carnaval de rua e fiquei pensando “Como eles podem se divertir saltitando assim e se vestindo como tolos?”, mas me calei antes que tal sintoma emergisse como palavra. Tenho vergonha da minha doença. Felizmente eu não falo para muitos o meu diagnóstico e minha enfermidade fica a maior parte do tempo escondida, como um eczema coberto pelas mangas compridas no tempo frio.

É uma maldição, e dela a única saída é o derradeiro fechar de pálpebras.

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Adeus

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E o seu marido, onde está?

Bem vi, por certo dorme,

pensando em outras volúpias.

Impossível que não desconfie

do nosso envolvimento.

Eu acho que não devemos

continuar nos vendo…

Já sabia?

Meus clichês são assim

tão previsíveis?

Eu não queria me apaixonar…

Desde o princípio nossa química

parecia perfeita, mas este é apenas

mais um lugar comum estúpido.

E agora nem as reações mais banais

parecem oferecer segurança.

Você nunca deveria ter

me seduzido dessa forma…

Sim, não tire de si esta responsabilidade.

Não estou lhe jogando culpas,

mas perceba como tudo aconteceu

de uma forma que não me deixava

alternativas.

Fui uma mosca emboscada, hipnotizada

e acabei enredado, sem perceber,

no visgo de sua teia.

Você foi cruel

e sua sensualidade destrutiva.

E eu acabei caindo

pelas minhas próprias fraquezas.

Roubou-me a alma e agora vejo você

se comprazendo com a dissolução lenta

e agonizante do meu corpo.

Será que por algum momento

pensou em mim?

De verdade?

Sabe de uma coisa?

Melhor que ele saiba.

Melhor que me mate.

Talvez assim eu consiga

o descanso que desejo;

a sorte que procurei;

o destino que sempre ambicionei.

Quer saber se quero lhe ver?

Que pergunta é essa?

Perguntarias a um faminto se ele quer

um prato de comida envenenada?

O quanto te sorvo, tanto me consumo…

Tu és minha saciedade e meu veneno.

Vou ligar para ele e contar tudo;

de uma só vez.

Talvez a bala que ele me lançar

já me encontre morto.

Se eu quero lhe deixar louca?

Pudera eu enlouquecê-la.

Assim louca talvez nossa relação

tivesse mais sanidade.

A verdade é que meus tendões

estão a se romper

e minhas mãos procuram

meu pescoço,

num afã de terminar com o ar

que respiro.

Minha mente vagueia solta,

desesperada, perdida

e presa ao mesmo tempo.

Só penso em você,

prisioneiro de uma doença.

Ao mesmo tempo em que lhe quero,

lhe odeio e amaldiçoo.

Prefiro a liberdade final

ao aprisionamento que se impõe.

A arma carregada transpira

na minha mão seca.

A ponta do revólver coça meu palato…

Tento engolir em seco,

mas sinto o gosto do cano

a corroer minha garganta…

Minha vida não merece

o calor das manhãs.

Meu despertar tem o sabor ocre

das saudades infinitas.

Não há mais sentido nessa dor,

somente dor nos meus sentidos.

E a culpa é toda sua…

PÁ!… o ruído seco ecoa

na boca semiaberta.

Sinto o gosto da pólvora na língua.

Minha mente se embaralha

com o som áspero da bala

a romper a neuroglia.

Sinto os sonhos confusos

tornando-se imagens vítreas.

Mas na escuridão que se forma

percebo uma tênue luz que ganha corpo

no infinito próximo…

Lá, no brilho tubular encontro,

sem surpresa, tua imagem.

Percebo então, endoidecido,

que nem a morte me separaria de você.

Você me acompanharia aonde quer

que minhas ilusões me levassem.

Mesmo a extinção não seria

a linha definitiva.

Tiro a arma da boca e vejo

a realidade da parede à minha frente.

Ainda com o gosto da fumaça na boca

olho para os lados à procura de mim mesmo.

Por não me encontrar, decido esquecer

Sozinho.

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A Princesa e as Escolhas

A princesa e seu cavalheiro

Então, a decisão para o galante cavalheiro foi pronunciada com severidade:

“Podes escolher entre estas opções, nobre senhor. Poderás ter a mais bela mulher de dia, para mostrar nas festas, para os visitantes, para os assuntos oficiais e para a corte. Por outro lado, terás uma mulher horrenda em tua cama, pegajosa e malevolente, por quem terás repulsa.

A outra opção também te será complexa: Poderás ter uma mulher horrenda e asquerosa durante o dia, que te envergonhará diante do reino inteiro, comportando-se como uma ogra nas festas, nas recepções e nos encontros com os signatários de outros reinos. Em compensação terás uma mulher linda, graciosa, meiga, sensual e carinhosa a compartilhar contigo os lençóis. Ela afagará teu cabelo, te dará conforto após as batalhas e pronunciará palavras de apoio diante de tuas angústias.

Agora tu tens o poder de escolher qual das duas faces desta maldição preferes: a mulher linda à luz do dia e perante os olhos de teus súditos, mas horrorosa quando o sol desaparece nas montanhas; ou aquela feia na luminosidade das horas mas delicada e desejável quando o véu da noite cobre a todos nós com seu breu.”

O nobre cavaleiro olhou para um ponto fixo no horizonte e depois de poucos instantes de reflexão respondeu:

A mim não cabe decidir sobre a vida de outrem. Se ela será feia ou bonita, desejável ou repugnante é uma decisão que só pode estar nas suas próprias mãos de princesa. A mim cabe apenas o direito de querê-la ou não. Não posso modificá-la diante do meu desejo, minhas ideias e minhas escolhas.

Respirou profundamente, olhou para aqueles que lhe dirigiram a palavra e completou: “Deixem que ela decida como a maldição se fará. Prefiro viver ao lado de uma princesa que seja capaz de decidir sobre sua própria vida.

E quando lhe foi oferecida a oportunidade de escolher como desejava ser perante seu amante o feitiço que nela habitava sumiu. Sim, de forma instantânea ele se foi, pois esta era a chave que a libertaria: o direito restituído de escolher o próprio destino e ser protagonista da própria vida. Liberta das amarras milenares do poder obliterante de uma cultura machista ela agora podia escolher seu caminho, fazer o que bem desejasse, dizer o que lhe viesse à mente, abrir seus lábios e beijar a quem seu desejo apontasse e amar aquele que seu coração abraçasse. Assim, solta, pôde finalmente seguir seu desígnio humano de cumprir com os mais altos fins de sua existência.

Fechando o livro, o velho olhou para os olhos do seu netinho e completou: “E assim ela viveu, feliz para sempre, mas não tenho sequer a certeza de que tenha se casado com o príncipe que a libertou. É possível, claro, mas é igualmente razoável que tenha até ficado só. E digo isso por uma única razão: o que aconteceu depois de cair o feitiço só ocorreu porque ela assim escolheu”.

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