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Fofocas e tiros no pé

Começo com uma conversa hipotética com um lesado de esquerda…

– Para uma parte da esquerda os ataques misóginos, as mentiras, as fake news, o racismo, a lgbtfobia, as fraudes, a falsa religiosidade e até a ligação com as milícias se tornarão justas e corretas desde que sejam usadas por nós contra os nossos inimigos fascistas, certo?

Exatamente

– E por que são eles nossos inimigos?

– Ora, porque são canalhas!!

– E por que são canalhas?

– Simples, porque são misóginos, racistas, milicianos, preconceituosos, homofóbicos e corruptos. Entendeu?

– Sim, entendi… Na sua guerra vale tudo. Por essa perspectiva, porque não usar inclusive uma mamadeira de piroca e um “kit gay” inventado para atacar Bolsonaro?

– Ora, não precisa. Basta atacar a honra da mulher dele e chamá-lo de “corno” sem qualquer prova ou evidencia….

– Uau, genial!!!

Essa fofoca sobre a mulher do presidente é de caráter misógino, difamatório, grosseiro, absurdo e machista. Infelizmente um presidente dessa categoria arranca o que existe de pior em todos nós. Só acho curioso ver tantas mulheres se juntarem ao coro dos acusadores. Os ataque atingem a todas, não apenas à “primeira dama”. Colocar a mulher nessa posição é cruel; obrigá-la a fazer declarações públicas para assegurar sua honestidade, abalada por fofocas maldosas, é injusto e humilhante.

“Ahn, mas olha só o quanto de difamação eles mesmos fizeram toda a vida. Olhe os tuítes da imprensa corporativa acusando Dilma e Marisa. Olhe a atitude desrespeitosa da família contra as mulheres. Olhe como se comportou a imprensa miserável desse país com as mulheres da esquerda”.

Olho, sim, exatamente para dizer que são atitudes inaceitáveis. Estas manifestações preconceituosas servem para provar que a arena moralista pertence àqueles vazios de conteúdo e propostas e que esse assunto serve apenas como isca para a porção da esquerda – felizmente minoritária – mais retrógrada e vingativa. Essas acusações são um tiro no pé da esquerda. Se eu não achasse nosso presidente tão burro e despreparado eu pensaria que foi uma ideia genial para colocá-lo como vítima (seja de adultério ou de maledicências) e expor a parte mais machista e retrógrada da esquerda.

Deixem essa mulher em paz. Aliás, parem de tratar a sexualidade das mulheres como um assunto coletivo e público. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Parem de apontar dedos.

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Fabíola

Culpa-e-da-mulher.html

Li uma suposta carta de Fabíola sobre o triste episódio ocorrido na saída de um motel, mas creio – pela forma como foi escrita – que se trata de uma missiva apócrifa. Melhor que seja, pois achei decepcionantes as suas palavras. Depois de ler a mensagem eu fiquei pensando nas possibilidades de continuidade da vida depois daquele fato trágico e pensei que a melhor alternativa seria o silêncio. Entretanto, se uma explicação pública se tornasse obrigatória ou necessária, o que eu diria?

É praticamente impossível responder o que “deveria” ser dito por ela, pois só ela pode saber o quanto lhe dói. Mais ainda: como aquilatar o que uma mulher sofre diante desta situação? O máximo que eu poderia fazer seria a “transposição” masculina do sofrimento de uma mulher, mas isso é sempre uma aproximação. Ser traído por uma namorada em um mundo patriarcal é diferente de sê-lo por um namorado neste mesmo contexto machista. São acontecimentos que se tornam diferentes pela imersão em uma cultura que penaliza de forma diversa essas experiências.

Por esta razão é difícil me colocar “no seu lugar”. São dores diferentes, repercussões díspares e um resto da vida com caminhos muito distintos.

Todavia, fosse colocado nessa situação e tendo que responder, não tentaria me esconder atrás das frases que eu ouvi por aí. “Ah, os homens sempre fizeram e nada lhes acontece”; ou “ela era uma mulher desprezada”; nem mesmo “trair não é crime”, etc. Acho que acusar os outros – no caso, os homens – não é uma resposta justa. É escapista e mimetiza as respostas históricas que os homens sempre utilizaram para estes “deslizes”.

Eu teria uma mensagem, porém não quero que ela seja vista como a correta; é apenas o que eu diria. Tampouco acho que exista uma frase ou declaração certa a se fazer, e ainda acho o silêncio a melhor opção. Mas, diante da premência de oferecer uma resposta, ela seria assim:

“Sim, errei. Não posso justificar o que fiz sob nenhum aspecto. Minha atitude pode ser humanizada, entendida, contextualizada, analisada e até perdoada, mas não posso justificar a tristeza que causamos (lembrem, eu não estava sozinha) a tanta gente, principalmente àqueles que muito amamos. Sei também que a divulgação das cenas e as agressões que sofri são PIORES do que minhas atitudes, mas para isso existe a lei e ela será acionada. Eles que lidem com o mal que causaram, enquanto eu lidarei com o tanto que causei.

Sim, eu errei. Entretanto uma pessoa é mais do que seus erros ou suas virtudes. Sou mais do que minhas fraquezas e fragilidades. Sou mãe, mulher, profissional e cidadã e não apenas uma “pecadora útil”, cujos erros servem para oferecer aos outros a ilusão de que são mais virtuosos do que realmente são. Qualquer rótulo colocado será injusto e reducionista; sou muito mais do que qualquer nome que me ofereçam.

Meu erro está sendo pago de forma desproporcional, mas o mundo patriarcal cobra esse preço injusto das mulheres. Nossa sexualidade nunca é plenamente nossa; precisa sempre passar pelo controle de um outro, seja no sexo ou até mesmo quando vamos parir, e quando burlamos essas “leis” o céu desaba sobre nossas cabeças.

Peço desculpas pela dor que causei. Realmente não precisava ser assim, mas o que está feito… está feito. Espero que um dia possam entender que sou uma mulher igual a qualquer outra, cujas falhas serviram ao gozo sádico de um público sedento de sangue. Agora, passado o escândalo, peço que me esqueçam e deixem que eu viva minha vida em paz.”

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Adeus

suicidio-3

E o seu marido, onde está?

Bem vi, por certo dorme,

pensando em outras volúpias.

Impossível que não desconfie

do nosso envolvimento.

Eu acho que não devemos

continuar nos vendo…

Já sabia?

Meus clichês são assim

tão previsíveis?

Eu não queria me apaixonar…

Desde o princípio nossa química

parecia perfeita, mas este é apenas

mais um lugar comum estúpido.

E agora nem as reações mais banais

parecem oferecer segurança.

Você nunca deveria ter

me seduzido dessa forma…

Sim, não tire de si esta responsabilidade.

Não estou lhe jogando culpas,

mas perceba como tudo aconteceu

de uma forma que não me deixava

alternativas.

Fui uma mosca emboscada, hipnotizada

e acabei enredado, sem perceber,

no visgo de sua teia.

Você foi cruel

e sua sensualidade destrutiva.

E eu acabei caindo

pelas minhas próprias fraquezas.

Roubou-me a alma e agora vejo você

se comprazendo com a dissolução lenta

e agonizante do meu corpo.

Será que por algum momento

pensou em mim?

De verdade?

Sabe de uma coisa?

Melhor que ele saiba.

Melhor que me mate.

Talvez assim eu consiga

o descanso que desejo;

a sorte que procurei;

o destino que sempre ambicionei.

Quer saber se quero lhe ver?

Que pergunta é essa?

Perguntarias a um faminto se ele quer

um prato de comida envenenada?

O quanto te sorvo, tanto me consumo…

Tu és minha saciedade e meu veneno.

Vou ligar para ele e contar tudo;

de uma só vez.

Talvez a bala que ele me lançar

já me encontre morto.

Se eu quero lhe deixar louca?

Pudera eu enlouquecê-la.

Assim louca talvez nossa relação

tivesse mais sanidade.

A verdade é que meus tendões

estão a se romper

e minhas mãos procuram

meu pescoço,

num afã de terminar com o ar

que respiro.

Minha mente vagueia solta,

desesperada, perdida

e presa ao mesmo tempo.

Só penso em você,

prisioneiro de uma doença.

Ao mesmo tempo em que lhe quero,

lhe odeio e amaldiçoo.

Prefiro a liberdade final

ao aprisionamento que se impõe.

A arma carregada transpira

na minha mão seca.

A ponta do revólver coça meu palato…

Tento engolir em seco,

mas sinto o gosto do cano

a corroer minha garganta…

Minha vida não merece

o calor das manhãs.

Meu despertar tem o sabor ocre

das saudades infinitas.

Não há mais sentido nessa dor,

somente dor nos meus sentidos.

E a culpa é toda sua…

PÁ!… o ruído seco ecoa

na boca semiaberta.

Sinto o gosto da pólvora na língua.

Minha mente se embaralha

com o som áspero da bala

a romper a neuroglia.

Sinto os sonhos confusos

tornando-se imagens vítreas.

Mas na escuridão que se forma

percebo uma tênue luz que ganha corpo

no infinito próximo…

Lá, no brilho tubular encontro,

sem surpresa, tua imagem.

Percebo então, endoidecido,

que nem a morte me separaria de você.

Você me acompanharia aonde quer

que minhas ilusões me levassem.

Mesmo a extinção não seria

a linha definitiva.

Tiro a arma da boca e vejo

a realidade da parede à minha frente.

Ainda com o gosto da fumaça na boca

olho para os lados à procura de mim mesmo.

Por não me encontrar, decido esquecer

Sozinho.

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