Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

 

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

WTF? Apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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