Eu e as Doulas

– Você sabe o que é uma doula?

Sua pergunta era direta e seus olhos verde-água me encaravam com a mesma firmeza doce com que segurava Miguel, seu filho recém-nascido. Poucos dias haviam se passado do nascimento, e ela vinha ao meu consultório para a revisão de rotina. Os desafios daquela gravidez e os mistérios daquele parto haviam me oferecido inúmeros ensinamentos sobre as conexões entre o espírito, a mente, o corpo e suas inúmeras e enigmáticas falas. Quando a pergunta de Cristina me chegou aos ouvidos eu sequer sabia que as grandes transformações ainda estavam para começar…

Não, eu ainda não sabia o que era uma doula, mas Cristina teve paciência para me explicar o que elas faziam. cris-doulaFalou de Wendy, Klaus e Kennell, Dana Raphael, Penny Simkin. Falou do suporte psicológico, afetivo, emocional, físico e espiritual que elas podiam proporcionar. Falou também dos estudos, da biblioteca Cochrane, e de tantas outras verdades as quais eu desconhecia por completo.

– Eu sou uma doula, Ricardo, continuou ela. E nós vamos trabalhar juntos.

O convite inesperado me acertou em cheio. Sua proposta era simples: referência e contra-referência. Ela me encaminharia pessoas interessadas em um atendimento humanizado ao parto e eu encaminharia a ela gestantes que desejam um acompanhamento de Yoga durante a gestação e que desejam a presença de uma doula no parto. Os partos seriam uma tarefa compartilhada entre nós. Ali começava uma parceria que produziu muitos frutos, mas que também acabou atingindo de forma inquestionável um dos pilares da obstetrícia moderna: o poder sobre o corpo da mulher. O preço a ser pago, sei bem agora, seria o pior possível, e o perdão… impossível.

Nosso trabalho se iniciou de forma tímida, mas tinha uma característica importante: a busca de horizontalidade. Não se tratava de uma “auxiliar de médico” a fazer um trabalho acessório para ajudar o “nosso” trabalho. Não, o trabalho da doula vinha inserido em um outro entendimento da atenção, em que diferentes atores executam funções complementares e de igual importância. A doula fazia o trabalho de preparação física para o desafio do parto, e durante o processo se ocupava de oferecer conforto, confiança, determinação e relaxamento. Depois de cada parto conversávamos para ver os pontos positivos e negativos da nossa atuação, o que poderia ser melhorado e o que poderia ser repetido em novos atendimentos.

Todavia, o primeiro grande assombro do meu trabalho com as doulas não ocorreu pelos partos maravilhosos, pelo choro de felicidade, pela alegria de pais e mães envolvidos em um abraço comovido com sua cria, ainda úmida e quente, embalada nos braços. Não foi pelo clima maravilhoso de sensualidade, de carinho, de proteção e confiança. Não, não foram estas as causas do meu assombro.

Meu primeiro grande susto foi ver uma paciente escrever na internet uma nota sobre um parto que nós tínhamos atendido. Nela se lia, com palavras semelhantes a estas: “Agradeço ao meu marido, minha família, meus amigos e à minha doula. Sem ela eu jamais conseguiria.

A sensação que eu tive foi de espanto. “Como assim sem ela eu não conseguiria? E eu? E a minha arte, meu esforço, minha dedicação, meu talento, meus anos de estudo?” Meus pensamentos incontroláveis eram o suporte da minha indignação, mas era preciso absorver o golpe e tentar entender. Com o passar do tempo consegui compreender que minha irritação se dava por não conseguir admitir nada além de mim mesmo como merecedor de qualquer tipo de elogio pelo nascimento. Minha mente ainda acreditava que eu “fazia” os partos de minhas clientes e, sendo assim, não haveria como alguém querer roubar este corpo e este parto que a mim pertenciam.

Era preciso sair deste lugar, e eu sabia disso. Sem abrir mão da posição de “dono do parto” eu jamais poderia dar um passo adiante. “Humanizar o parto é garantir o protagonismo à mulher“, dizia eu. Se o protagonismo a elas pertence, que disputa é essa que se pode estabelecer entre pessoas alheias ao evento? “Se a posição de coadjuvante não lhe é suportável, esqueça esse ofício“, repetia meu amigo Max. “Médicos, parteiras e doulas não são feitos para brilhar, são feitos para refletir e ampliar a luz que emana de uma mulher parindo“. Aquela era a lição mais dura, a mais difícil, a mais complexa e a mais desafiadora. Descer do pedestal de saber auto erigido sobre o corpo da mulher é terrível. Quando vejo os ataques ferozes de elementos da corporação médica às doulas fica claro para mim que eles são tomados pelo mesmo sentimento que me atingiu ao ler aquela nota, mas sem a fidelidade aos compromissos de equidade, justiça e protagonismo garantido às mulheres aos quais eu me propunha.

Meu trabalho com as doulas foi abrindo um portal que eu jamais teria imaginado. Era como se um aspecto gigantesco, imenso e misterioso do meu trabalho houvesse sido trancafiado por 10 anos e só então pudesses ser aberto. Os aspectos psicológicos, absolutamente negligenciados durante toda a minha formação médica e na residência, finalmente faziam sentido. O enigma da página 138 do livro “Nacimiento Renacido“, de Michel Odent, podia ser desvendado: era essa conexão física, emocional, intensa e profundamente feminina que oportunizava às mulheres percorrer os labirintos obscuros do seu ser feminino com mais confiança. Era essa a parte que me faltava, da qual eu carecia e que as doulas poderiam ajudar, acrescentando a feminilidade e o contato amoroso ao trabalho técnico de médicos e obstetrizes. Durante muitos anos eu fui um médico manco, claudicante, que andava me arrastando, sem saber como oferecer uma atenção que contemplasse as reais e profundas necessidades das gestantes e seus parceiros. Foi através das doulas, com sua calma, silêncio, tranquilidade, compaixão e arte que eu aprendi muito sobre os intrincados caminhos da feminilidade. Se o parto verdadeiramente é “uma parte da vida sexual normal de uma mulher” como dizia Odent, então a própria sexualidade feminina se desenrolava diante dos nossos olhos no momento sublime do nascimento, o que nos obrigava a uma atitude de solene admiração e respeito.

As doulas me levaram a uma revolução interna sem precedentes. Com elas percebi que a única posição subjetiva coerente de um médico é a humildade, aliada a compreensão do nascimento como um fenômeno para muito além do que conseguimos atingir com a mera pesquisa biológica e mecânica. Existem segredos ainda reclusos, que precisam ser descobertos, e cabe a nós a coragem de procurá-los. Para as doulas, e para Cristina – minha primeira doula – fica a minha homenagem e os meus agradecimentos eternos.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s