Extremismos de Esquerda

Esse para mim é o pior problema: o surgimento de um pelotão de fascistas de esquerda, prontos para atacar com igual ou maior ferocidade do que os seus adversários da direita. Muito triste ver os progressistas se tornando tão nocivos quanto aqueles a quem criticam. Quando vejo jovens militantes de esquerda agredindo ou tentando calar bolsonetes eu sempre penso que um visitante estrangeiro, ao ver tal cena, teria imensas dificuldades em saber qual grupo representa melhor os fascistas.

Ina May Gaskin, ativista americana pelo parto humanizado, foi apenas mais uma vítima desses “pelotões de renegados” capazes de exercer tanta violência quanta aquela a que foram submetidos durante sua vida. É nesses momento que aparece mais luminosa ainda a fala de Paulo Freire:

“Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar opressor”.

As meninas que atacaram Ina não são da esquerda como a conhecemos no Brasil, mas são lutadoras por equidade racial, um pensamento e uma luta normalmente ligados à esquerda. Entretanto suas armas se tornam iguais às usadas pelos piores fascistas: a destruição da imagem pública de alguém cujas diferenças são infinitamente menores que as semelhanças no discurso e na prática. Isso precisa ser denunciado pelo bem da própria luta contra o racismo. Produzir mais racismo e mais perseguições não poderá trazer nenhum benefício aos negros e nem acabar com a opressão que sofrem.

Não se constrói uma sociedade igualitária com violência. O que faltou a estas ativistas é a compreensão de que nós brancos precisamos ser educados para um novo mundo e não destruídos por sermos da cor “moralmente errada“. A insensatez dos ataques demonstra a incapacidade de suplantar o ciclo vicioso de violência. O que elas fizeram com Ina May foi usar a chibata midiática e humilhá-la publicamente, um sofrimento semelhante ao que historicamente tiveram. Que alternativa de mundo elas tem a oferecer se tudo que mostram é rancor e vingança?
O que digo serve para qualquer grupo, seja branco, preto, mulher, homem ou gay: o ódio jamais será ferramenta de transformação positiva. Não se trata de “colocar o negro no seu lugar“, mas colocar a todos nós em um modelo de fraternidade. A única coisa que este tipo de ação agressiva resulta é em atitudes defensivas. Acabamos pensando “ok, então é isso mesmo: seremos nós contra vocês.” Todo o simpatizante da causa negra (ou gay, feminista e indígena) acaba se afastando porque será sempre visto como “o inimigo a ser aniquilado“. Que tolice brutal!!!

Não vou dizer (não ousaria) como as feministas ou as negras ativistas americanas devem agir, mas a forma como agem vai resultar em me considerar aliado ou adversário. No momento, apesar de ser um ferrenho anti-racista, me considero mais adversário desse movimento americano do que amigo. Até porque sei que, basta uma vírgula mal colocada, ou diferente da agenda destes grupos para ser literalmente linchado, destruído e jogado ao inferno. Infelizmente é um fato inquestionável de que os ex-aliados são sempre tratados com mais crueldade do que os inimigos declarados. Todavia, apesar das críticas à violência desses grupos, isso em hipótese alguma invalida a justiça da luta contra o racismo, porém nos alerta para que as armas usadas nesta luta não podem ser as mesmas do opressor.

No eterno embate das ideias e dos projetos somos pedagogos de nossas propostas e nosso comportamento será sempre um reflexo do que verdadeiramente somos, por mais belas e sublimes que sejam estas propostas.

Minha mãe sempre dizia: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Acatar e absorver como prática a crueldade de nossos adversários apenas nos torna uma cópia mal feita daqueles a quem tanto combatemos.

Menos o surgimento de monstros como Bolsonaro e mais o apoio que recebe de uma imensa parcela idiotizada da população (10%!!!!) se relacionam com a imagem que é vendida à população por estes extremistas que se chamam esquerda, mas cuja postura e atitudes estão mais próximas do fascismo do que das históricas bandeiras de solidariedade e democracia que a esquerda carrega.

Quando fui vitima de insultos e boicotes há alguns anos eu estava sozinho nessa luta. Era fácil agredir uma pessoa que pedia moderação e menos violência por parte de grupos historicamente oprimidos. Não acredito no ódio como solução, muito menos a vingança. Esta queixa agora explodiu ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no Brasil, com Ina May e Elinka. Estamos cansados de radicalismos e não precisamos mais aguentar fascistas de esquerda que infestam partidos e universidades subvertendo a visão solidária e democrática do socialismo.
Não se trata de calar a voz de nenhum grupo; pelo contrário, é fazer a nossa voz ser respeitada por quem não admite contraditório ou crítica.
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