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Identitários

“Identitários pegam uma boa causa – o anti racismo, o orgulho LGBTQ+ ou o feminismo – e a transformam num discurso arrogante, chato, presunçoso, violento e agressivo. Esse modelo individualista – de viés americano e liberal – é um dos principais fatores para o afastamento dos aliados. Fácil entender porque nenhum branco, homem, cis e hétero vai aceitar apoiar um movimento que o trata com tanto desprezo e prepotência.

Essas meninas e meninos são os responsáveis pelo atraso dessas ideias, em especial ao tentar estabelecer uma posição de superioridade moral na condição de oprimido, o que é tão somente um absurdo; você não é moralmente melhor por ser socialmente explorado.”

Jeanette Wilkins, “Another Round Table”, ed. Cambridge, pág. 135

Jeanette Wilkins nasceu em Glasgow, na Escócia, em 1975. Socióloga, comunista, membro de movimentos de libertação feminina, tem uma postura crítica em relação aos modelos de luta liberais importados da América. Publica no Glasgow Herald todas as semanas.

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Miko

Não resta dúvida que para as esquerdas é fundamental nos aprofundarmos na luta anti racista, na luta por direitos humanos reprodutivos e sexuais (incluindo aí a luta pelo parto humanizado), na conquista da autonomia de corpos, na proteção aos grupos vulneráveis, etc. Modelos sectários baseados em identidades não cabem mais na nossa sociedade e não podem mais ser confundidos com as bandeiras históricas que defendemos.

Meu paradigma nessa história se chama Miko Peled, que provavelmente poucos conhecem. Israelense, por volta dos 50 anos, judeu. É filho de um famoso general de Israelense, herói da guerra do Yom Kipur, Matti Peled, já falecido. Quando jovem, ainda vivendo em Jerusalém, Miko viu sua sobrinha morrer em um ataque suicida causado por um homem bomba do Fatah. No dia seguinte políticos e jornais israelenses clamavam por vingança e retaliação contra os terroristas árabes. Diante das câmeras a irmã de Miko, mãe da menina morta e uma conhecida professora judia israelense, disse em lágrimas para os jornalistas: “A culpa dessa morte é do governo de Israel, que nunca deu aos palestinos qualquer alternativa para além do terror. Não aceito nenhuma retaliação em meu nome ou de minha família, porque jamais aceitarei que uma mãe Palestina sofra a dor que agora estou sentindo”.

Miko, alguns anos depois e já morando nos Estados Unidos, conheceu na Universidade um grupo de ativistas palestinos e, apesar da desconfiança, aceitou escutá-los. Ao inteirar-se pela primeira vez da narrativa dos “inimigos”, dos “terroristas”, dos “bárbaros árabes” com mais de 30 anos de idade ele viu seu mundo de crenças sionistas desabar.

Sim, eles eram os terroristas, não os palestinos. Pela primeira vez entendeu o Nakba, a expulsão, os massacres, o êxodo e o exílio palestinos. A partir de então escreveu um livro chamado “O Filho do General” e iniciou sua trajetória como palestrante, ativista, defensor dos palestinos, da paz, de uma solução desarmada, pelo BDS e por uma consciência mundial sobre o regime de Apartheid de Israel.Conto essa história porque Miko não é palestino árabe. Nunca sofreu diretamente na pele a dor de ser estrangeiro em sua própria terra. Não teve sua família morta pelo exército de ocupação e nem foi preso por jogar pedras em quem matou seus vizinhos e primos. Porém, Miko foi convencido por amor e não por oposição.

Um palestino “identitário” o veria como um inimigo de sua identidade árabe, por não ter sua língua e sua pele escura. Por ser judeu jamais seria aceito, e suas palavras seriam bloqueadas com o silenciamento do “lugar de fala”. Ora, “como você ousa falar da Palestina seu judeu opressor?”, poderia ser a reação dos que não enxergam nele a identidade Palestina, a única que lhe garantiria direito de falar.

Entretanto, Miko sabe que a Palestina é o seu lar também e por isso mesmo não aceitou jamais ser calado. Ao lado de outros ativistas, árabes e judeus, debate abertamente uma solução para a Palestina. Ousa discordar em alguns temas com o direito que a paixão pela Palestina lhe confere.

Da mesma forma muitos homens brancos sabem que um mundo que oprime mulheres, gays, trans e que despreza negros também é o seu mundo e por esta razão desejam falar de sua inconformidade e lutar contra estas injustiças. Porém, muitos são silenciados por um identitarismo sectário que se move por ressentimentos e preconceitos, que apenas afastam muitos dos possíveis aliados.

Precisamos de um mundo com mais Miko Peled e menos revanchismos estéreis.

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Lugar de Fala

“Local de fala” é o câncer dos movimentos identitários, que produz isolamento, ressentimento, radicalizações e resistência. Hoje em dia já proliferam sites, blogs, vídeos e paginas da Internet que se opõem aos ditames autoritários de algumas propostas originariamente libertárias e humanistas. Falha nossa?

Lutei sempre para que a humanização do nascimento nunca sucumbisse à sedução fácil das “prescrições” e das “rotas seguras”, dos “protocolos” e das “rotinas”, mantendo esse movimento aberto às noções de complexidade, subjetividade, liberdade e autonomia. Humanização do nascimento é um conjunto de ideias que gravitam em torno da ciência, da pluralidade de visões e da autonomia da mulher; não é um culto ou seita, muito menos um “saber sagrado” reservado apenas para iniciados.

Sempre desafiei a ideia de “lugar de fala” na minha ação como ativista e jamais aceitei que me desautorizassem a falar sobre um evento que, se ocorre no corpo das gestantes, atinge a todos nós, homens e mulheres, enquanto ainda formos todos nascidos de um ventre de mulher.

Se o desrespeito com as múltiplas visões sobre o nascimento surgir sem contestação, surfando na onda do radicalismo, prevejo o isolamento e as dissensões. Se, por outro lado, o movimento de humanização acolher (e não “obedecer”) a voz dos homens – pais e profissionais – poderá criar um ambiente de congregação e fluxo saudável de contraditórios e propostas. Sem isso nossas proposições serão eternamente consideradas fechadas e dogmáticas.

Cristalizar um movimento em torno de segregações e dogmas é plantar a árvore de cuja madeira sairá o esquife em que a história vai enterrá-lo.

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Autofagia

Eu li o pedido de desculpas da professora Elika e não li o texto do ano passado que gerou a celeuma. Entretanto, pela minha própria experiência, nem é preciso ler o texto inicial para saber que a violência contra ela é absurda e desmedida. Eu sei exatamente como estes grupos fazem linchamentos virtuais e por isso me solidarizo com Elika e todas as outras bruxas e bruxos queimados nas fogueiras da intolerância. Apenas deixo claro que o sucesso desses movimentos libertários e por justiça social não se dará apenas pelo enfrentamento com os adversários machistas, misóginos, racistas ou LGBTfóbicos, mas também através da dura tarefa de reconhecer e extirpar das entranhas do próprio movimento os fascistas que militam por estas causas.

Ninguém mais tem dúvidas do racismo e do machismo em nossa sociedade. Não é preciso avisar isso em todo texto como se fosse uma novidade. Não é mais esse o problema, e sim como combater de forma pedagógica e eficiente. O que eu penso é que o combate à estas duas feridas sociais não pode ser com a DESTRUIÇÃO de reputações, patrolando suas biografias e jogando toda uma militância do bem no lixo pela simples escolha errada de palavras. Esta é uma estratégia suicida. Alguém acha que os movimentos feministas, de esquerda ou anti racistas se beneficiaram com a “aposentadoria” da Elika no Facebook? Tenho certeza que nas fileiras adversárias é possível escutar o sorriso dos bolsonetes com a autofagia dos setores progressistas.

Pois vou mais adiante: nós brancos precisamos ser educados para a nova realidade. Sou da época em que era lícito contar piada de negros, claramente racistas, e fui amorosamente educado pelos meus amigos de que isso não tem graça. Quem quer imprimir uma nova realidade precisa entender e ter paciência para a adaptação. Isso não diminui nossa culpa, mas coloca todos os personagens sociais como responsáveis pela mudança.

Tanta gente acha errado espancar crianças quando elas agem errado, mas acham natural triturar publicamente a honra de quem cometeu erros. Lembre que o racismo – assim como o machismo – é tão naturalizado em nossa sociedade que muitas vezes agimos com estes preconceitos sem sequer percebermos. Erramos muitas vezes sem saber, como Elika errou com suas palavras…

Da mesma forma como as crianças erram também…

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Extremismos de Esquerda

Esse para mim é o pior problema: o surgimento de um pelotão de fascistas de esquerda, prontos para atacar com igual ou maior ferocidade do que os seus adversários da direita. Muito triste ver os progressistas se tornando tão nocivos quanto aqueles a quem criticam. Quando vejo jovens militantes de esquerda agredindo ou tentando calar bolsonetes eu sempre penso que um visitante estrangeiro, ao ver tal cena, teria imensas dificuldades em saber qual grupo representa melhor os fascistas.

Ina May Gaskin, ativista americana pelo parto humanizado, foi apenas mais uma vítima desses “pelotões de renegados” capazes de exercer tanta violência quanta aquela a que foram submetidos durante sua vida. É nesses momento que aparece mais luminosa ainda a fala de Paulo Freire:

“Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar opressor”.

Paulo Freire

As meninas que atacaram Ina não são da esquerda como a conhecemos no Brasil, mas são lutadoras por equidade racial, um pensamento e uma luta normalmente ligados à esquerda. Entretanto suas armas se tornam iguais às usadas pelos piores fascistas: a destruição da imagem pública de alguém cujas diferenças são infinitamente menores que as semelhanças no discurso e na prática. Isso precisa ser denunciado pelo bem da própria luta contra o racismo. Produzir mais racismo e mais perseguições não poderá trazer nenhum benefício aos negros e nem acabar com a opressão que sofrem. Não se constrói uma sociedade igualitária com violência. O que faltou a estas ativistas é a compreensão de que nós brancos precisamos ser educados para um novo mundo e não destruídos por sermos da cor “moralmente errada“. A insensatez dos ataques demonstra a incapacidade de suplantar o ciclo vicioso de violência. O que elas fizeram com Ina May foi usar a chibata midiática e humilhá-la publicamente, um sofrimento semelhante ao que historicamente tiveram. Que alternativa de mundo elas tem a oferecer se tudo que mostram é rancor e vingança?   O que digo serve para qualquer grupo, seja branco, preto, mulher, homem ou gay: o ódio jamais será ferramenta de transformação positiva. Não se trata de “colocar o negro no seu lugar“, mas colocar a todos nós em um modelo de fraternidade. A única coisa que este tipo de ação agressiva resulta é em atitudes defensivas. Acabamos pensando “ok, então é isso mesmo: seremos nós contra vocês.” Todo o simpatizante da causa negra (ou gay, feminista e indígena) acaba se afastando porque será sempre visto como “o inimigo a ser aniquilado“. Que tolice brutal!!!

Não vou dizer (não ousaria) como as feministas ou as negras ativistas americanas devem agir, mas a forma como agem vai resultar em me considerar aliado ou adversário. No momento, apesar de ser um ferrenho antirracista, me considero mais adversário desse movimento americano do que amigo. Até porque sei que, basta uma vírgula mal colocada, ou diferente da agenda destes grupos para ser literalmente linchado, destruído e jogado ao inferno. Infelizmente é um fato inquestionável de que os ex-aliados são sempre tratados com mais crueldade do que os inimigos declarados. Todavia, apesar das críticas à violência desses grupos, isso em hipótese alguma invalida a justiça da luta contra o racismo, porém nos alerta para que as armas usadas nesta luta não podem ser as mesmas do opressor. No eterno embate das ideias e dos projetos somos pedagogos de nossas propostas e nosso comportamento será sempre um reflexo do que verdadeiramente somos, por mais belas e sublimes que sejam estas propostas.

Minha mãe sempre dizia: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Acatar e absorver como prática a crueldade de nossos adversários apenas nos torna uma cópia mal feita daqueles a quem tanto combatemos.

Menos o surgimento de monstros como Bolsonaro e mais o apoio que recebe de uma imensa parcela idiotizada da população (10%!!!!) se relacionam com a imagem que é vendida à população por estes extremistas que se chamam esquerda, mas cuja postura e atitudes estão mais próximas do fascismo do que das históricas bandeiras de solidariedade e democracia que a esquerda carrega. Quando fui vitima de insultos e boicotes há alguns anos eu estava sozinho nessa luta. Era fácil agredir uma pessoa que pedia moderação e menos violência por parte de grupos historicamente oprimidos. Não acredito no ódio como solução, muito menos a vingança. Esta queixa agora explodiu ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no Brasil, com Ina May e Elinka. Estamos cansados de radicalismos e não precisamos mais aguentar fascistas de esquerda que infestam partidos e universidades subvertendo a visão solidária e democrática do socialismo.   Não se trata de calar a voz de nenhum grupo; pelo contrário, é fazer a nossa voz ser respeitada por quem não admite contraditório ou crítica.

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