Chacinas

 

Todas esses meninos mortos tinham pai e mãe. Um dia, mesmo que tenha sido apenas o primeiro dia em que aqui chegaram, eles foram amados, foram queridos e sobre eles também alguém sonhou. Foram molequinhos pretinhos que jogavam bola na calçada com largos sorrisos brancos e contagiantes. Quando a gente fazia cócegas eles se dobravam de rir. Muitos foram amamentados por suas mães e foram cuidados por seus irmãos e irmãs. Todos eles choraram de medo e algumas vezes de alegria. Ficaram assustados no primeiro dia de aula e quando descobriram sua sexualidade. Olhavam para a vida, essa chama curta a arder em seus peitos, com pânico e excitação.

Todos eles um dia sonharam com o futuro, um carro, uma viagem ou uma promessa de futuro menos duro para suas mães. Todos eles sorriram diante de um gracejo e se emocionaram diante de uma música. Nenhum deles deixou de sentir dor ou frio, calor e alegria. Eles eram em tudo iguais a nós, mas insistimos em olhar para a cor de sua pele, a magreza de seus corpos em contraste com a arma negra na cintura e acreditamos que são feitos de outra matéria, de outra carne, de outra essência.

O que nos intriga e angustia é a semelhança conosco, e não as diferenças.

Desumanizar o corpo morto de meninos na luta miserável de uma sociedade desigual não os torna menos humanos do que nós, mas nos torna mais monstruosos do que imaginamos ser.

Não há nada a comemorar, não há nada a exaltar. Isso é apenas um fracasso, a miséria humana em ação. A desgraça civilizatória e o êxtase do Apartheid social.

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