Ciência x Religião

 

Tenho vários amigos que me falam, sem esconder o entusiasmo, de uma ou outra descoberta científica que confirma a palavra de Deus, seja na Bíblia ou em alguma outra tradição qualquer. A frase que termina este ímpeto de esperança é fé pode ser resumida em “não há real conflito entre ciência e religião“.

Minha percepção é que há mais do que conflito; estas são duas visões de mundo incompatíveis. Por outro lado ainda considero que elas podem existir dentro do mesmo indivíduo em relativa paz, com a exceção da tênue zona de fronteira que delimita seus espaços.

Ciência e religião são duas formas de compreensão do mundo e as duas são perenes e eternas. A tese de que o crescimento do conhecimento científico traria o desaparecimento das religiões me parece ingênua e normalmente é dita por religiosos, como os “neoateístas”. Basta olhar o risco do fundamentalismo religioso na política mundial (em especial no Brasil) para ver que a vinculação do povo com as religiões e suas cartilhas está longe de desaparecer. Mas engana-se quem acredita que isso pode ser combatido com ateísmo e mesmo evolucionismo.

A ciência trabalha na fronteira do conhecimento e usa a razão e a experiência como ferramentas. Ela é progressista e dinâmica; não respeita limites e avança célere para novas descobertas. É uma medida da ética e da política de seu tempo, e se move pelos ventos do poder econômico e dos interesses. Não é isenta e nem neutra, e fala a língua dos homens do seu tempo.

A religião (melhor seria a religiosidade), por seu turno, ultrapassa a fronteira do que é conhecível e tenta explicar o universo através de visões teleológicas e inteligentes, enxergando no universo uma força de coesão para além do que é possível comprovar com nossas ferramentas rudimentares. A religiosidade trabalha com a gigantesca porção de desconhecido que nos circunda. Sua plasticidade a faz se adaptar a cada nova investida da conhecimento científico e da razão, produzindo uma nova face a cada avanço do conhecimento sobre seu território.

Assim, ciência e religião trabalham com objetos distintos mesmo quando parecem se confundir, como no criacionismo. A força da ciência nesse ponto e o desaparecimento paulatino de resistência às teorias darwinianas deixará a visão do Gênese como mais uma alegoria passível de belas histórias, mas apartada de realidade dos fatos. Quando a razão chega as crenças procuram outro lugar para ocupar e tentar organizar o desconhecido.

Por fim a religião, ao se afastar dos elementos nos quais a ciência já jogou sua luz ficará livre para questionar a imensidão de perguntas sem respostas possiveis até então, como a nossa origem e os sentidos do universo.

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