Conversa de Senhoras

 

Jantando na praça de alimentação do shopping e ouvindo duas senhoras (coroas como eu) tagarelando sobre… política.

Veja bem, amiga. Agora essas bandidas podem ter prisão domiciliar se tiverem filhos pequenos só porque a vagabunda aquela do Rio teve esse benefício. É uma vergonha. Esses políticos são todos facínoras e larápios. Ainda bem que botaram o exército na rua. Tem que pegar esses ladrão tudo e…

Depois disso descreveu para a amiga todas as atrocidades e maldades que um governo totalitário e cruel é capaz de fazer com seus cidadãos, numa fala ao estilo Bolso*, sem meias palavras, e que o deixaria orgulhoso.

Quando escuto estas manifestações eu me convenço de que o amor pela democracia ainda é um luxo na sociedade contemporânea. Mesmo com as prováveis atrocidades relacionadas aos direitos humanos que estão por vir mais de 80% da população apoiou a intervenção midiática, inócua e ineficaz no Rio de Janeiro. As vozes dissonantes clamando por moderação, liberdade, democracia e direitos humanos se perdem no burburinho de gritos e ranger de dentes de uma população hipnotizada pela mídia. As soluções imediatistas e populistas seduzem as mentes mais frágeis.

Eu me posiciono no contrafluxo desse clamor, mesmo reconhecendo ser uma voz solitária, perdido numa multidão a pedir cabeças em bandejas. Não precisamos de prisões cruéis e arbitrárias. Não acredito que milicos despreparados e arrogantes sejam a solução, muito menos que ela venha de juízes vaidosos e justiceiros ou promotores punitivistas. Também não carecemos de um herói que nos salvará da eterna danação de viver em um país que teima em se manter deitado eternamente em berço esplêndido.

Nossa carência é de outra ordem. Precisamos uma intervenção civilizatória profunda, que expurgue o arbítrio do imaginário social. Um choque de democracia e civilização que retire de nossos corações a ideia de que a violência seja capaz de combater a violência.

Precisamos exterminar a dureza pétrea de corações que não entendem a dor de um filho cuja mãe – que ainda o amamenta – está presa apenas por carregar um cigarro de maconha. Nossa intervenção deveria ser o oposto do que testemunhamos hoje; não a ablação da democracia e da cidadania, mas sua garantia e o reforço de seus princípios.

Terminei de jantar e pedi às Deusas da Vida que não me permitam envelhecer corroído por mágoas, rancores e ressentimentos. Que o ódio não seja jamais o norte a guiar meu caminho.

E que assim seja.

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Arquivado em Pensamentos, Política

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