Corpos Expostos

 

Estava conversando com uma amiga ativista da atenção ao parto que está escrevendo sua tese sobre a perseguição aos humanistas quando ela me pediu umas fotos (que aparecem sempre em minhas aulas para os cursos de doula) e que são paradigmáticas para o entendimento da forma como as mulheres são atendidas pelo sistema obstétrico contemporâneo. Essas são fotos que falam muito da maneira específica como funciona a exposição das mulheres e seus corpos na atenção ao parto.

A primeira delas mostra uma mulher completamente coberta por campos estéreis, com exceção dos seus genitais. Esta imagem envia uma clara mensagem da “essencialização feminina”, ou seja, a perda de toda a sua subjetividade e individualidade, sendo reduzida a um contêiner fetal, cuja passagem – e apenas ela – observamos e permitimos que apareça. Faz parte da ideia de reduzir a mulher a um objeto, escondendo a sua totalidade e mostrando apenas uma parte, aquela que nos interessa. A publicidade sabe muito bem como isso se processa, ao mostrar as mulheres como mãos, coxas, lábios, nádegas ou seios; a mulher enquanto sujeito nunca aparece, apenas uma parte sua, onde se encontra o que desejamos vender. Por outro lado, esconder a mulher é uma das formas de PROTEGER os profissionais a partir de des-humanização da sua paciente, tornando-a mais facilmente percebida como um objeto sobre o qual aplicarão sua arte. Com isso a dor, a angústia, o sofrimento e a inevitável empatia que surgirá na interação com um paciente que possuiu alma se distanciam do profissional que, assim liberado, pode agir movido pela razão e sem a interferência das emoções identificatórias.

A segunda imagem é ainda mais interessante. Norbert Elias em “O Processo Civilizatório” descreve a curiosa imagem do banho das cortesãs europeias ladeadas por servos, tanto mulheres quanto homens escravos. É de se perguntar como seria possível que, diante do puritanismo da sociedade de alguns séculos em relação ao corpo, uma nobre mulher ficasse nua diante de seus servos homens. A resposta é dura e cruel: exatamente pela des-humanização desses personagens eles perdiam a condição de sujeitos em paridade com as pessoas a quem serviam. Tinham não mais do que o status de animais, como objetos sub-humanos, pelo quais não faria sentido sentir-se constrangida. Não eram mais do que parte da mobília presente na cena.

O mesmo ocorre com uma mulher que perde sua cidadania e suas características subjetivas, onde o pudor, a privacidade, e as vergonhas de sua nudez carecem de sentido. Os profissionais perdem a capacidade de vê-las como mulheres, inteiras, femininas e possuidoras de corpos animados, erotizados. Tornam-se objetos a quem não faz sentido garantir intimidade. Diante de qualquer reação da paciente, constrangida em sua nudez, a resposta é sempre a mesma: “Não se preocupe, estamos acostumados. Somos todos profissionais”, o que pode ser traduzido por: “Não enxergamos você como uma mulher; perdemos essa capacidade ao chegarmos aqui”

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos, violência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s