Horários e Poderes

 

Trabalhei por 30 anos com agenda para marcação de consultas, mas meus atendimentos eram marcados a cada hora cheia. Como sou homeopata e obstetra não acredito que um paciente possa ser atendido com cuidado e atenção para abordar a profunda complexidade e sutileza de suas queixas em menos de 60 minutos. Entretanto, eu sabia como era o funcionamento padrão dos consultórios médicos da minha cidade, em especial aqueles que atendem convênios: uma mistura de hora marcada com “walk in“.

Funcionava assim: os pacientes das 16:30 eram 3 ou 4; aquele que chegasse primeiro seria atendido com menos atraso. Muitas pacientes minhas que consultavam com esses colegas me contavam da surpresa que tinham quando a secretária perguntava “Paciente das 16:30?” e várias pessoas levantavam a mão.

Consultas médicas são muito mais do que aparentam ser. Para entender os mistérios intrincados desse encontro pessoal e único é importante entender que uma consulta com um profissional da medicina significa muitas coisas, desde um perdido de socorro, uma opinião técnica, um encontro místico, uma relação erotizada sobre o próprio corpo ou um simples ato burocrático de um “despachante médico” – para fazer perícia, pedir exames ou conseguir um atestado (frio ou não). Todavia, diante de qualquer dessas possibilidades uma consulta é, acima de tudo, uma relação de poder e subjugação.

Muitos médicos que conheço usavam de técnicas sofisticadas para expressar essa assimetria de poderes. A roupa, os estágios intermediários até chegar ao “Dr Fulano” (o porteiro, a secretária para a burocracia, a enfermeira para os sinais vitais, as vezes estudantes para tomar a história e por fim o “doutor”), os diplomas pendurados, o estetoscópio, o jaleco branquíssimo, a mesa separando os corpos, os livros na parede, a linguagem empolada e difícil, etc. Todos os detalhes servem para garantir e manifestar poder. São potentes armas semióticas de subjugação simbólica.

Entretanto a forma mais corriqueira de expressar a distância entre cuidador e paciente é deixar os pacientes esperando. Muitas vezes vi isso ser feito propositalmente; deixavam o paciente na sala de espera enquanto batiam papo ao telefone pois essa espera de alguns minutos determinava os valores dos tempos subjetivos e as respectivas hierarquias. “Você me espera pois eu tenho o poder do seu tempo em minhas mãos. Eu sou o doutor“.

Lembro que eu costumava almoçar com meu filho próximo (ao lado) do meu consultório e ele, com certa frequência, reclamava dos atrasos causados pelo papo que tínhamos na hora do descanso do meio dia. Dizia ele: “Olha aí pai, 14:05. O paciente já deve ter chegado!!!

Eu respondia um pouco surpreso, mas na defensiva: “Calma, são só 5 minutos!!!

Mas ele terminava a conversa com uma expressão claramente debochada e de reprovação: “Claro, o doutor vai chegar atrasado e deixar os pacientes esperando para mostrar quem é que manda…

Ele tinha razão…. não havia desculpa.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s