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Domínios

Mais de uma vez escrevi sobre a questão dos “domínios” nos âmbitos familiares, que sempre me pareceram tão importante quanto o desejo real de participação. Mas num universo onde os homens são sempre culpados, como questionar este ponto importante? O caminho mais fácil é sempre o maniqueísmo…

A perspectiva contemporânea que aborda de forma mais equilibrada os espaços de conflito nas tarefas do lar é um sopro de frescor na aridez dos embates acusatórios. Ainda hoje reconheço como padrão a prática de acusar os homens de não participarem das tarefas domésticas e da educação dos filhos. Apesar de ser uma queixa verdadeira, ela deixa de apresentar outras facetas da realidade que são, via de regra, negligenciadas.

Uma das questões pouco abordadas é o que chamo de “domínios”. Eles se referem aos espaços de controle e saber reconhecidos, confinados a um gênero. É esse tipo de controle que faz muitos homens levantarem para ver um barulho estranho na porta dos fundos, abrirem o capô do carro para ver o defeito ou pegarem a chave do carro quando a família vai sair. O mesmo que faz as mulheres decidirem de forma autocrática a comida, as roupas e o tipo de educação dos filhos. São domínios culturalmente construídos dentro do patriarcado, mas que apenas enxergamos quando somos vítimas, não quando estamis na posição de opressores.

Muitos homens – e mulheres – se adaptam a essas construções milenares – por comodismo ou cansaço – mas muitos começam a questionar tais posições. Por que não posso (homem) arrumar – ou escolher – a roupa do meu filho? Por que não posso (mulher) dirigir o carro quando a família sai? Por que não posso (homem) decidir a comida que todos vamos comer? Por que não posso (mulher) trocar o pneu do carro ou fazer tarefas mais pesadas da casa?

Para haver equilíbrio é necessário que todos aceitem as mudanças e concordem com as inevitáveis concessões. Homens precisam ter o direito de participar dessas decisões sem o martírio das críticas e sem o peso do escárnio de suas companheiras que se sentem invadidas em seus domínios. As mulheres também precisam ter o direito de “invadir” as funções historicamente assumidas por homens sem sofrer com o deboche e o desprezo que estes oferecem como resposta ao que sentem como a tomada de um lugar cativo que lhes era destinado.

Os domínios antigos estão paulatinamente ruindo. Creio que o desmanche os limites pode ser celebrado como uma nova era de colaboração. Todavia, para que isso ocorra é preciso que a desconstrução de modelos ancestrais seja um exercício constante para os homens e também para as mulheres.

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Horários e Poderes

Trabalhei por 30 anos com agenda para marcação de consultas, mas meus atendimentos eram marcados a cada hora cheia. Como sou homeopata e obstetra não acredito que um paciente possa ser atendido com cuidado e atenção para abordar a profunda complexidade e sutileza de suas queixas em menos de 60 minutos. Entretanto, eu sabia como era o funcionamento padrão dos consultórios médicos da minha cidade, em especial aqueles que atendem convênios: uma mistura de hora marcada com “walk in“.

Funcionava assim: os pacientes das 16:30 eram 3 ou 4; aquele que chegasse primeiro seria atendido com menos atraso. Muitas pacientes minhas que consultavam com esses colegas me contavam da surpresa que tinham quando a secretária perguntava “Paciente das 16:30?” e várias pessoas levantavam a mão.

Consultas médicas são muito mais do que aparentam ser. Para entender os mistérios intrincados desse encontro pessoal e único é importante entender que uma consulta com um profissional da medicina significa muitas coisas, desde um perdido de socorro, uma opinião técnica, um encontro místico, uma relação erotizada sobre o próprio corpo ou um simples ato burocrático de um “despachante médico” – para fazer perícia, pedir exames ou conseguir um atestado (frio ou não). Todavia, diante de qualquer dessas possibilidades uma consulta é, acima de tudo, uma relação de poder e subjugação.

Muitos médicos que conheço usavam de técnicas sofisticadas para expressar essa assimetria de poderes. A roupa, os estágios intermediários até chegar ao “Dr Fulano” (o porteiro, a secretária para a burocracia, a enfermeira para os sinais vitais, as vezes estudantes para tomar a história e por fim o “doutor”), os diplomas pendurados, o estetoscópio, o jaleco branquíssimo, a mesa separando os corpos, os livros na parede, a linguagem empolada e difícil, etc. Todos os detalhes servem para garantir e manifestar poder. São potentes armas semióticas de subjugação simbólica.

Entretanto a forma mais corriqueira de expressar a distância entre cuidador e paciente é deixar os pacientes esperando. Muitas vezes vi isso ser feito propositalmente; deixavam o paciente na sala de espera enquanto batiam papo ao telefone pois essa espera de alguns minutos determinava os valores dos tempos subjetivos e as respectivas hierarquias. “Você me espera pois eu tenho o poder do seu tempo em minhas mãos. Eu sou o doutor“.

Lembro que eu costumava almoçar com meu filho próximo (ao lado) do meu consultório e ele, com certa frequência, reclamava dos atrasos causados pelo papo que tínhamos na hora do descanso do meio dia. Dizia ele: “Olha aí pai, 14:05. O paciente já deve ter chegado!!!

Eu respondia um pouco surpreso, mas na defensiva: “Calma, são só 5 minutos!!!

Mas ele terminava a conversa com uma expressão claramente debochada e de reprovação: “Claro, o doutor vai chegar atrasado e deixar os pacientes esperando para mostrar quem é que manda…

Ele tinha razão…. não havia desculpa.

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Personagens de si mesmos

Lembrei hoje de um fato entre tantos de posturas preconceituosas e sexistas de professores de medicina. Este fato ocorreu há 38 anos durante um curso de verão na enfermaria de Medicina Interna. O professor por certo já é falecido. Estávamos em um “round” debatendo casos da enfermaria quando o professor anunciou que precisaria se afastar por uma hora para acompanhar as entrevistas de seleção para os novos residentes do serviço.

Continuamos nas prescrições e questionamentos aos residentes (eu estava no 3o ano de medicina) até que o professor voltou da sua tarefa e perguntamos a ele como haviam sido as entrevistas.   “Medianas“, respondeu com ar de enfado. “Nenhum candidato se sobressaiu. Todos ganharam notas médias, nada de mais“.   Nesse momento ele parou por uns instantes sua fala e resolveu nos dar uma informação extra.   “Só um deles recebeu de mim a nota zero“.  

Para os estudantes presentes essa poderia ser uma informação valiosa. Ficamos todos tentando imaginar o que levaria um professor a zerar a nota de um candidato na entrevista para uma vaga de residente em Medicina Interna. Talvez sabendo do erro cometido poderíamos evitá-lo quando nossa vez chegasse.  

Não me contive e perguntei ao professor a causa da nota baixa, sem me dar conta que a observação havia sido feita com o único propósito de firmar uma posição e expor um princípio.  

Ele desmunhecou“, disse ele, imitando o gesto afeminado com as mãos grossas, arrancando sorrisos acanhados dos estudantes e residentes presentes na sala. Eu não ri, e ele tomou minha seriedade como uma censura.  

Eu não permitiria que um degenerado fosse residente nesse serviço, disse ele visivelmente contrariado, me fuzilando com seus olhos azuis. Tu gostarias que um sujeito como esse atendesse teu pai, tua mãe ou um irmão teu?”  

Não consegui responder, e minha apatia dói até hoje. Eu era um menino de 20 anos enfrentando, com o olhar parado e uma expressão atônita, um professor rico e famoso com idade para ser meu pai. Meu silêncio até hoje me incomoda, tantas vezes revi a cena e ensaiei respostas para o homem à minha frente. Mas naquele dia meu silêncio e meu medo me venceram. Não consegui dizer do meu horror de imaginar um jovem médico sendo barrado no seu sonho apenas por sua orientação sexual.  

No ano seguinte um querido amigo homossexual foi selecionado para residência em pediatria naquele mesmo hospital e fiquei imaginando que sua entrada só ocorreu porque, durante a entrevista, teve que encenar, da forma mais cínica possível, um personagem que não despertasse desconfiança nos professores à sua frente.

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Motocicletas

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Sobre as motocicletas…  

Vamos esclarecer alguns pontos fundamentais: Qual relação com motocicletas NÃO é sexualizada? Em outras palavras: como colocar no meio das pernas um monstrengo metálico rígido e gigantesco e não sentir aquilo como sendo uma poderosa prótese fálica? Por que “quanto maior, melhor”? Por que tanto empenho em comprar um veículo responsável por grande parte das mortes no trânsito? Por que uma relação tão insensata entre custo e benefício?  

Só o sexo explica. A mesma explicação que eu imagino para espartilhos e saltos altos.  

“Vital e sua moto”. Por quê? Ora, por ser “vital” ter uma moto para conseguir “sucesso reprodutivo”.  

Mas a minha tese é de que pela dinâmica adaptativa das espécies, possuir uma motocicleta tem um altíssimo fator positivo para conseguir se dar bem no sexo. Isto é: funciona, mesmo que incomode algumas vizinhas. O dia que não funcionar mais, desaparece.  

Aliás… eu acho engraçado mulheres usando próteses fálicas como motocicletas e guitarras. Veja bem, nada contra elas usarem pelos seus óbvios aspectos operacionais – deslocamento urbano ou música – mas pelas suas características simbólicas, ao meu ver, inquestionáveis. Percebam o jeito com que um “easy rider” trata sua moto mas olhem para as guitarras com a mesma atenção e perceberão a lascívia masturbatória que os guitarristas demonstram, em especial nas músicas juvenis como o rock.

As motos, em especial, se prestam para jovens (em busca de) e fulanos carecas de meia idade (na raspa do tacho da virilidade).  

Faz sentido?

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A Trágica História de Mastuf e Marisca

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Mastuf, o pastor manco, tropicava pelas colinas e sonhava cortejar a bela Marisca, dona de olhos azuis tão cristalinos que mal nos dávamos pela sua face corada e brilhante, coberto pela franja resplandecente a lhe descer pela testa. Marisca trabalhava no Salão “Harod” no vilarejo de Kungrat. Todos os dias tirava leite de camelo para fazer o queijo que alimentava seus irmãos, limpava o estábulo, arrumava a mesa para o café – onde comiam o Tigrith, pão feito de cevada e azeitonas, e depois caminhava dois quilômetros até o centro da cidade, onde ganhava uns poucos trocados como esteticista. Era linda e meiga, mas muito infeliz, pois lhe faltavam duas coisas: um prendedor de cabelos de cor verde que havia perdido quando foi tirar água do poço e um grande amor em sua vida. Sempre fora cortejada, e por por muitos homens, mas jamais havia se decidido, pois eles apenas se interessavam pelo seu corpo e seu cheiro (as azeitonas do pão Tigrith lhe deixavam com um aroma inconfundível). Isso era pouco.

– Quero que me amem pelo que “sou”, dizia ela, mas poucos conseguiam entender o que uma menina podia querer além de um marido forte e trabalhador.

Mastuf podia ser este homem, pelo menos em suas infindáveis fantasias. Ele sim via nela mais do que um belo par de ancas e uma franja sedutora. Ela era carinhosa com as crianças, em especial seus irmãos menores. Era gentil com os mais velhos e muito esperta. Dificilmente errava quando fazia um penteado ou aparava as unhas de uma cliente. Era hábil com o arado e boa cozinheira. Como não se apaixonar por uma mulher tão cheia de virtudes, belezas e atrativos?

O aldeão um dia resolveu que seria o momento adequado para cortejá-la. Passando próximo ao salão em que ela trabalhava adentrou o pequeno espaço para ver se conseguia vê-la. Não sabia o que dizer, muito menos como iniciar uma conversa com alguém que jamais havia conversado diretamente. Mesmo que ela fosse uma personagem frequente de seus sonhos, um encontro até então era algo impossível. Entrou no modesto salão e girou o olhar pelo ambiente. Umas poucas mesas vazias e um espelho grande na parede eram toda a mobília do lugar. Antes que pudesse falar ou dizer qualquer coisa uma bela jovem se aproximou e, segurando-o pelo braço, perguntou se desejava cortar o cabelo ou arrumar as unhas.

Mastuf congelou. Era ela, a moça bela da aldeia, a quem seus olhos perseguiam sem descanso. Ainda em pânico, e lembrando sua aparência rude e simples, deu a única resposta que lhe parecia sensata:

– Vim fazer as unhas, disse ele com voz trêmula.

Assim, ajeitou-se na modesta cadeira e viu a bela jovem sentar-se à sua frente, segurando delicadamente sua mão calejada de pastor. Provavelmente em toda a sua vida sofrida ele jamais havia sentido tamanha emoção. Imediatamente foi invadido por uma sensação profunda de contentamento e plenitude, sem comparação com qualquer outra em sua vida. Nos poucos minutos em que sua mão esteve sob a guarda das mãos de Marisca o mundo pareceu interromper seu curso e estancar seu giro celeste.

– Vamos começar pelas unhas do polegar, que é o mais forte e o que tem a unha mais suja e grossa, disse ela com um sorriso envergonhado. Retirando delicadamente camadas de sujeira sob a unha, esta foi paulatinamente tornando-se mais clara, límpida e translúcida. As cutículas grosseiras e espetadas foram aos poucos sendo desbastadas, e a poeira que cobria o leito ungueal aos poucos foi saindo. Uma lixa terminaria o serviço, deixando uniformes as irregularidades da unha.

Mastuf fechou os olhos e sua mente vagou para o infinito cósmico, o lar celestial das ninfas. A luz que emanava dos olhos de Marisca perfurava suas pálpebras que, mesmo fechadas, não impediam que este brilho ofuscante impregnasse suas retinas. As ninfas dançavam alegremente ao som de milhares de harpas, embaladas pelos cânticos angelicais da Falange de Herwitt, a deusa dos amores virginais.

Não foi possível a Marisca passar para o próximo dedo, pois foi neste instante que o céu das ninfas se fechou com um trovão avassalador. Subitamente desperto de seu sono, Mastuf pôde observar Korgut, o Alcaide, entrando ruidosamente na pequena sala do Harod. Seu corpo volumoso e seu chapéu pontiagudo assustavam a qualquer um que ousasse cruzar o olhar com ele. Todos sabiam das suas investidas em direção à Marisca, mas ela jamais acolhera nenhuma de suas tentativas. “Ele cheira a alcachofra molhada“, dizia ela aos seus irmãos mais velhos, que apenas davam de ombros e lamentavam que ela refutasse um bom partido.

Certamente que Korgut estava a procura dela, mas não gostou nada de vê-la sozinha na sala atendendo o jovem aldeão. Enfurecido de ciúme apontou-lhe o indicador, acusando-a de vadia, irresponsável, fácil e de “oferecer sorrisos a estranhos como quem vende arenque no mercado“. Marisca só fazia chorar diante do furacão violento de acusações maldosas e injustas. Mastuf, surpreso, nada podia fazer a não ser se afastar.

Depois de uma saraivada de ofensas cuspidas por Korgut em direção à pobre moça, o Alcaide levantou a mão ao ar, para desferir a derradeira ofensa sobre o corpo esquálido da pequena Marisca. Entretanto, para sua surpresa, seu gesto congelou no ar, e seu punho fechado paralisou-se sobre sua cabeça.

Mastuf segurava o pano de sua camisa de seda. Tremendo de medo pela represália, o pobre rapaz ainda assim juntou a coragem suficiente para impedir a pancada do monstro enfurecido pelo ciúme. Korgut, virando-se para o lado, respondeu, atônito, a ousadia do pequeno Mastuf.

– Como ousa me impedir, moleque? Como ousa colocar seu braço sujo de pastor em minha camisa de seda? Quem você pensa ser? Nada mais é do que um mísero cuidador de ovelhas, catador de bolotas, analfabeto e estúpido. Como pensa me interromper? Acaso trouxe seus irmãos e primos? Tem uma armadura a proteger seu peito contra os golpes que vou desferir? Como acha que vai impedir que eu faça a justiça contra uma mulher que me iludiu com seu sorriso meigo e sua face cândida?

Mastuf prendia-se ao braço de Korgut como quem se agarra a um bote salva-vidas. Não ousava largar, pois o punho livre poderia terminar o que havia começado. Temia por si, mas muito mais por Marisca a quem, apesar de amar com toda sua alma, jamais havia confessado seus sentimentos.

Korgut não esperou que Mastuf livrasse seu braço direito, e com um golpe de esquerda jogou-o para longe. O corpo esquálido cruzou a sala e foi chocar-se contra a parede à frente, fazendo estilhaçar o espelho em milhões de imagens de horror e pânico a refletir seu rosto. A dor era menor do que o medo da próxima investida. O sangue escorria pela boca, cujo lábio rasgado permitia o curso livre de um córrego de sangue. Os ouvidos zuniam pela potência do soco, que fizera balançar toda a arquitetura de seu crânio. Levantando-se sofregamente segurou-se na cadeira rústica que até então estivera sentado e derrubou a mesa de utensílios usada por Marisca para corrigir os defeitos de seus dedos toscos. Ainda tentando se erguer viu o corpanzil de Korgut aproximar-se para mais um ataque.

Desta vez a potência do choque foi sentida diretamente na boca do estômago. O pobre aldeão teve a sensação de sentir as vísceras saltarem pela boca afora. O sangue inundava seu rosto e sua boca, pintando de rubro a cena de violência brutal. Korgut tinha os olhos inflamados, saltados para fora de suas órbitas e totalmente cegos de ódio e ciúme. Seus ouvidos também eram surdos para os gritos de Marisca, que implorava piedade, que não atacasse o pobre rapaz e que tivesse compaixão pela sua alma, a meio passo entre este mundo e Astárides, o céu das ninfas que há poucos minutos enchera de alegria o agora moribundo.

Caído ao solo com o estômago esmagado e o rosto desfigurado nada mais restava a Mastuf do que esperar o derradeiro golpe. Que viesse com presteza, sem dó, para que a passagem fosse rápida, o mais indolor possível. Preferia assim, mesmo que soubesse a dureza de partir sem a despedida de suas ovelhas amadas, mas, acima de tudo, sem ter a oportunidade de declarar a Marisca todo o seu amor e seu desejo.

O monstro gigante ficava cada vez maior a cada passo que dava ao se aproximar de seu corpo caído. Os objetos da manicure espalharam-se pelo chão da sala fazendo uma aterradora algazarra. Um pequeno pote de barro, uma jarra d’água vazia, sangue, cabelos, minúsculas unhas cortadas, lágrimas, afastadores de cutícula e uma tesoura. O cenário à frente de Mastuf parecia ser a derradeira imagem que ele veria nesta curta e sofrida vida. Fechou os olhos e esperou o golpe final.

Um grito surdo e longo, aterrador e dramático, cruzou a sala. Marisca cala suas súplicas e um vazio eterno de alguns segundos encheu a sala da manicure de silêncio. O Alcaide abre os olhos pela última vez e cai ao chão fulminado. Estatelado ao solo, quase sem vida, ainda olha para o peito e encontra, cravado em seu coração, a tesoura de Marisca.

No limiar de suas forças Mastuf rastejou até a pequena tesoura cortadora de unhas que jazia próximo de seus pés. Tão preocupado estava Korgut de aplicar o golpe mortal derradeiro que sequer se importou com o rápido movimento de seu oponente. O golpe foi sutil, rápido, preciso e fatal. A pequena tesoura de ponta aguda penetrou o peito do homenzarrão entre as costelas, atingindo a câmara inferior esquerda de seu coração frio.

Marisca voltou a chorar e atirou-se sobre o corpo de Mastuf, que jazia inerme. Com o pouco de força que tinha em seus braços a moça ergueu o corpo ferido de Mastuf e colocou-o sentado contra a parede. O sangue estava por toda a parte, seus dentes eram pura vermelhidão, e sua face era pálida como Zillut, a águia branca da neve. Sua respiração era ofegante e seu olhar pesado. Suas mãos trêmulas seguraram as de Marisca sem força e sem cor.

– Perdão Marisca…

– Porque me pedes perdão, Mastuf, se acaba de me salvar a vida?

A voz desaparecia como os últimos raios de sol ao entardecer, mas ainda conseguiu completar sua derradeira frase.

– Perdão por nunca dizer que te amei desde que te vi pela primeira vez. Perdão por deixar o tempo passar e só te dizer quando nada mais importava. Desculpe por nunca ter te oferecido o amor que merecias. Perdão, perdão…

Marisca chorava a dor de uma perda irreparável. O amor que sempre sonhou, construído na nobreza e na bravura, se esvaía por entre seus dedos. O rosto de Mastuf ficava cada vez mais frio, sua voz mais baixa. Ele estava partindo.

Marisca aproximou seu rosto mais uma vez para poder olhar o corpo caído quase sem vida de seu salvador. Se existe nobreza e virtude em uma morte aquela seria a escolhida pelos mais puros e fiéis servidores do Criador. Soltou o corpo de Mastuf e com suas mãos suaves e limpas fechou-lhe os olhos vítreos.

O peão simplório fechou os olhos, enquanto sua cabeça se aconchegava no colo da amada. Expirou pela última vez e dormiu o sono eterno dos justos.

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