O Caminho como Metáfora

 

Em 2003 fui apresentar uma aula onde procurava mostrar graficamente como o modelo tecnocrático e intervencionista da obstetrícia contemporânea era algo extremamente recente na história da nossa espécie. Minha primeira ideia foi mostrar um relógio e explicar que este modelo, que ora usamos, representava apenas os últimos 15 segundos de um dia inteiro de aprendizado para lidar com os desafios da parturição. Os 40 anos de tecnocracia mais agudizada ficavam minúsculos diante dos 200 mil anos de adaptação apenas desta espécie, sem falar na carga de ensinamentos que recebemos dos 7 milhões de anos de história de bipedalidade.

Um tempo depois pensei uma imagem mais próxima de nós – uma estrada. Em verdade próxima de mim e da minha fantasia adolescente. Coloquei o gif de um caminhante sobre o mapa do norte da Espanha, com o traçado que liga Saint Jean Pied de Post (na França) até Santiago de Compostela, já na Galícia. Abaixo os dizeres: “Caminho de Santiago = 800 km“. A ideia era mostrar que se a forma como atendemos o parto fosse em um tempo igual ao Caminho de Santiago, o modo tecnocrático, intervencionista, medicamente controlado, cientificista, insensível, frio e afastado das evidências científicas representaria apenas os últimos… 80 metros.

Espero que tenham entendido como as modificações recentes no parto, em especial a hospitalização, produziram efeitos muito importantes e graves na forma como entendemos e sentimos esta parte tão importante da sexualidade humana.

Agora eu me sinto no fim dos pródromos de um grande trabalho de parto, que durou 37 anos. Desde a minha viagem de 108 km de Porto Alegre até o litoral, quanto não contava mais do que 20 anos de idade, que sonho em percorrer a rota mística de Santiago. Ela esteve presente em meus sonhos, nos livros que li, nos filmes e documentários que assisti e nos inúmeros e infindáveis devaneios sobre o que me aguardaria na travessia.

As contrações agora se intensificaram e começo a sentir uma certa regularidade. Não sinto mais tantas dores, as bolhas serenaram, a sola engrossou, ou músculos pararam de se embebedar com o ácido lático de todos os dias. Apesar das dores os passos estão mais confiantes. A cada albergue que chegamos cresce nossa confiança; são como nas pausas silenciosas depois de cada contração. Os olhares de apoio das minhas companheiras de caminho são como as massagens de divinas doulas sobre um corpo cheio de cicatrizes e uma alma ainda rasgada de indignação. São elas que me estimulam, e quando dizem, jocosamente, “é logo ali”, sinto o mesmo frescor das palavras que por tantas vezes eu mesmo disse a quem sofria a dor do desconhecido.

Na minha jornada – o caminho é sempre solitário – levo no alforje a metáfora do nascimento. Se existe sentido na dor, na lágrima, no nariz que corre, no músculo retorcido e nos pés que sangram também terá valido a pena lutar para que o nascimento seja um evento de luz, com autonomia, liberdade, segurança e comunhão de almas.

Sigamos!!!
Ultréia!! Suséia!!!

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