Olhos emprestados

 

Olhos emprestados

“Não, acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos prá tomares conta, agora conta como hei de partir”.

(Chico Buarque)

A coisa mais mágica – e mais preciosa – que se recebe de um amor é a oportunidade de olhar o mundo pelos seus olhos.

Eu sempre fui um menino de classe média baixa. Nunca tive os brinquedos mais caros, nem meu pai – um funcionário de nível médio de uma estatal – comprava carros novos, nem casa na praia, viagens caras, roupas de grife, etc. Era kichute, camiseta Hering e busāo para todos. Coca-Cola litro no fim de semana.

Aos 17 anos namorava uma menina também da classe operária. Uma jovem garota com 6 irmãos filha de um bancário e uma dona de casa. Classe média, um pouco mais baixa que a minha. Logo depois de começarmos a namorar eu entrei para a faculdade de medicina e ela foi cursar enfermagem.

A faculdade abre nossos horizontes. O mundo se expande de forma avassaladora. O pequeno universo da família e do bairro se torna da cidade e do mundo (urbe et orbi, dizia o omni-bus que eu tomava). Meus colegas de aula tinham sobrenome de ruas da cidade e de instituições financeiras. Entre eles, os novos herdeiros de feudos médicos tradicionais. Chegavam à escola médica de carro próprio aos 18 anos e alguns se recusavam a comer no bandejão da universidade porque não gostavam do “tempero”. Eu era um alienígena em um ambiente feito para eles, não para mim.

Mas tudo poderia ser diferente. Eu poderia ter deixado minha namorada de escola por Jennifer. Filha de um oftalmologista – que dividia seu tempo entre a clínica na Padre Chagas e a criação de gado em Lavras do Sul – e uma juíza do trabalho, ela era o sonho de consumo de qualquer sujeito que almejasse um “upgrade” na escala social. Linda, loira, coqueta, vaidosa e estudiosa. Herdaria a clínica do pai e desde o início da faculdade seu mundo se resumia a um “olho”, cuja anatomia devorara rapidamente dos livros, com suas câmaras, íris, pálpebras e ductos lacrimais. Um futuro róseo e feliz planava altivo por sobre suas sobrancelhas grossas e morenas.

Quis o destino que Jennifer nunca tenha tomado conhecimento da minha existência e que minha namorada de escola tenha me oferecido seus olhos para que eu tomasse conta. Ao invés de ver o mundo através da alta classe fiquei com os olhos verdes de uma proletária.

Acreditem, para mim isso fez toda a diferença. Minha vida se manteve fiel às suas origens sem que as promessas de um mundo charmoso e sofisticado daquela profissão, crivada de privilégios, me deixasse esquecer de onde vim. Tive a oportunidade especial de olhar o mundo que se abriu à minha frente pelos olhos emprestados de uma enfermeira e isso me proporcionou uma brecha de autocrítica extremamente rara no mundo médico. A ela devo tudo que sei, tudo que aprendi e o pouco que pude ensinar.

Se há algo de valioso nas parcerias que fazemos, em especial aquelas cujo amor é o elo essencial, esta é a chance de ver o mundo com os olhos do outro. Agradeço a oportunidade única de ter recebido de uma enfermeira a possibilidade de enxergar os dilemas do nascimento através do seu doce olhar.

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