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Icebergs

Esse assunto se situa no ponto de choque entre dois gigantescos icebergs: tutela e autonomia. A mulher durante a gestação percebe estas duas massas gigantescas se aproximando de forma ameaçante e precisa decidir onde se situar. Ela pode se agarrar a um dos icebergs, mas será inexoravelmente cobrada por ter feito esta opção.

Cada um de nós estabelece um limite na batalha entre a alienação do seu corpo ao profissional e a plena autonomia, de acordo com suas histórias, vivências, estudos e sua topografia na hierarquia de poderes. Entretanto, para esta que sofre no corpo o drama da escolha esta é uma decisão muito mais complexa.

Não sei se acho justo, adequado, válido ou correto quando vejo uma mulher sem pré Natal chegar ao terceiro trimestre, mas as poucas que vi na minha vida traziam no olhar uma pergunta que eu não sabia responder.

Sabe… como olhar para um ato de extrema coragem, mas que, apesar de não concordamos, nos faz questionar nossos valores e nossas certezas.

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Eduardo e Mônica

Afinal, quem queria impressionar quem? O jovem garoto simpático ou a menina intelectual? A questão colocada por algumas pessoas é: por que ela, tão inteligente e profunda, se interessaria pelo Eduardinho – que ainda jogava botão com o avô e vivia no esquema escola-cinema-clube-televisão?

Ora, porque é assim que funciona a vida. Cultura e erudição não são as únicas moedas de troca no jogo da sedução. Ela podia gostar desses autores e artistas e ser uma menina insegura e carente. Quantas meninas cultas se apaixonam por caras cuja maior virtude é cuidar do seu próprio gato? Aliás, até eu me apaixonaria por um cara que joga botão com seu avô.
Ou será que ninguém aqui conheceu em sua vida um rapaz limitado em seus conhecimentos e estudos mas que transborda autoconfiança e charme? E quantas mulheres brilhantes acabam se envolvendo com canalhas, broncos ignorantes e superficiais tão somente porque lhes falta amor próprio?

De outra forma, quantos homens igualmente capazes, competentes e com profundidade se envolvem com mulheres egoístas e interesseiras que possuem como patrimônio apenas curvas, bunda e sexo exuberante?

A discussão sobre quem estava tentando impressionar é como o debate Capitu – traiu ou não? Creio que qualquer das opções é válida, só o que não se pode é esterilizar o desejo tornando-o objetivo e racional. Dizer que era Eduardo, ou Mônica, diz mais de quem fala do que da realidade desse romance.

Como diria Freud, se você explica o amor é porque não é. Se você sabe – conscientemente – porque ama alguém é porque há razões para esse afeto, então não pode ser amor, um afeto irracional. O desejo não pode ser tratado de forma racional, pois que ele habita em estratos muito profundos e primitivos de nossa estrutura psíquica.

Essa escolha não é racional. Em verdade, na escolha de um novo amor, nada mais justo que sejam repetidos nossos objetos de desejo, já que a forma que os constrói é a mesma. Sim, o amor da sua vida pode ser um profundo canalha, porque estas escolhas dormem nos porões obscuros e úmidos do nosso inconsciente.

Parem de tentar simplificar o desejo humano, que é algo complexo e misterioso.

Existem argumentos bem interessantes para todos os lados. A premissa inicial é de que os caminhos do desejo não podem ser racionalizados, como o fez a menina com círculo vermelho que está na imagem acima. Ora, uma moça intelectualizada, ou erudita, pode muito bem pendurar seu fantasma num adolescente que estava recém saindo aos trancos e barrancos da infância. Eu mesmo tenho uma amiga linda, maravilhosa, culta, inteligente que namorava um sujeito que trabalhava como agricultor, a quem ela chamava de “homem das cavernas”, um neanderthal. Mas, como poderia ser possível alguém criticar essa fantasia e esse desejo que era estranho apenas na superfície?

E é claro que podemos, sim, imaginar na letra do Renato múltiplas interpretações que, como eu já disse, falam muito mais de nós mesmos do que da letra, de Renato ou da vida. Uma letra, como qualquer obra artística, é fruto de seu tempo e dos valores de então, e cabe a nós função antropofágica de “comer Renato, digerir sua letra e expelir nossa interpretação”, junto com nossos próprios sucos gástricos.

Temos todos o direito de fazer uma interpretação “não problematizadora”, mas acho interessante que a gente queira problematizar ao limite esse encontro entre dois jovens em uma festa nos anos 80. Afinal, o que é “problematizar” senão retirar da superfície tudo aquilo que seduz o olhar mais falseia o conteúdo?

Acho muito interessante todas as perspectivas nesse caso assim como em Capitu. Parece que todos tem a resposta definitiva, a mais certeira percepção. E até nos convencemos, mas esta certeza dura até que alguém traga outra série de argumentos igualmente bons e convincentes. Por isso é que esses truques da literatura (no caso de Machado de Assis proposital, no de Renato creio que foi totalmente inconsciente) a engrandecem e produzem aquilo que existe de mais sagrado para um escritor: fazer seu leitor pensar junto, provocá-lo e colocá-lo contra a parede para, só então, revelar-se.

É incrível o quanto se coloca de paixão nestes argumentos… e também muito divertido ver o quanto uma estrofe pode gerar tanta profundidade.

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Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

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Cesarianas e classe social

Durante os anos 90 eu atendi um parto, num hospital de periferia, que eu nunca esqueci pelos seus significados sobre o dilema das cesarianas. Os pacientes deste hospital eram egressos de uma vila popular muito pobre do cinturão que cerca Porto Alegre. No entanto, este parto em especial, era de uma família levemente mais abonada. Não traziam nas roupas ou nas palavras os estigmas da pobreza que eu estava acostumado a ver em quase todas as outras famílias que procuravam o centro obstétrico. O pai do bebê a nascer estava presente e a gestante tinha um pouco mais de idade do que a adolescência habitual.

Depois de admitida em trabalho de parto inicial o esposo me chamou para falar. Perguntou, de forma respeitosa e com palavras bem escolhidas, como estava sua esposa e o que deveria esperar para as próximas horas. Eu lhe respondi que estava tudo bem e que o parto só deveria ocorrer em várias horas. Ele aquiesceu com a cabeça e me cumprimentou, avisando que iria embora e voltaria mais tarde. Voltei para minha sala, mas antes que eu pudesse fechar a porta ele bateu no meu ombro e disse:

– Desculpe, doutor. Esqueci de dizer que, se precisar fazer uma cesariana, dinheiro não será o problema. Somos pobres, mas temos condições de arranjar o que o senhor cobrar.

Expliquei a ele que aquele era um hospital público, e que nenhum tipo de pagamento era necessário, muito menos permitido, mas que ele tivesse confiança que tudo faríamos de melhor para sua esposa e seu bebê. Porém, aquele homem assustado havia me mostrado que o parto normal de sua esposa significava não uma opção pela segurança e pelas boas práticas – o que verdadeiramente é – mas a submissão a um modelo imposto pela sua condição de pobre. As cesarianas ocupavam em seu imaginário “aquilo que se pode escolher quando se é de outra classe“.

A raiz da epidemia de cesarianas no Brasil está na divisão de classes. As pessoas não fazem escolhas racionais nesse campo. Muitos casais compram um convênio médico logo após casarem apenas para serem atendidos de forma “diferenciada” no parto. Cesarianas servem como símbolos de status que a classe média utiliza para se afastar do que significa ser pobre, “a quem não cabe escolha“. Para mudar esta tragédia no Brasil é fundamental mudar a imagem que todos temos da cesariana e do parto normal, desvinculando a escolha cirúrgica de uma opção pela segurança e como emblema de ascensão social.

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Psicanálise

“A psicanálise nos mostra, em essência, a fragilidade de nossas escolhas. Somos governados por um núcleo de medos coberto por uma camada de crenças irracionais sobre as quais se assenta uma fina camada de racionalidade, quase insignificante, mas que nos oferece a ilusão de termos suplantado nossos atávicos temores. Freud nos revelou não apenas os conteúdos sexuais da vida infantil mas, além disso, a estrutura infantil da nossa sexualidade madura.”

Pierre Garbois “Le jeune avenir” Ed. Roquefort, pág. 135

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