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À Esquerda

Estas são as “acusações” que a direita faz à esquerda: aborto, drogas e soltura de presos…….. mas qual a dúvida de que estas são três pautas que devemos MESMO apoiar?

A descriminalização do aborto é uma pauta de URGÊNCIA para salvar vidas de mulheres (pobres, claro) que recorrem aos abortos clandestinos, arriscando suas vidas. Sabemos como as mulheres ricas têm acesso a clínicas caras e sofisticadas, mas esta é a razão pela qual os abortos na parcela menos favorecida da sociedade são um grave problema de saúde pública.

O garantismo e o desencarceramento da mesma forma, pois prender jovens (negros e pobres, que surpresa) de NADA adianta e não diminuiu em nenhum lugar do mundo as taxas de criminalidade. Prisões são lugares infectos e fábricas de criminalidade. Abolicionismo penal é uma necessidade social e um avanço civilizatório. Abrir as prisões – e só manter lá quem atenta contra vidas – é um passo fundamental para produzir avanço social e justiça.

Por último, o que dizer da descriminalização das drogas??? E não precisa sequer ser comunista como eu para se entusiasmar, basta ser capitalista como os americanos, onde maconha não é crime e se tornou negócio rentável. Essa é uma atitude simples para acabar com a mortandade de jovens nas periferias, e não tem nada a ver com a esquerda, mas com direitos humanos básicos – uma pauta bem liberal.

Liberação das drogas, sim;
Abolicionismo penal, por certo e
Aborto livre pelo SUS…. mas é claro que os moralistas, os anacrônicos e os fascistas não estão prontos para esta conversa.

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Arquivado em Política

Duas vidas

“Ahhh, mas são duas vidas, e cabe proteger ambas. Para evitar basta se cuidar”.

Não é simples assim no mundo concreto. Vai depender do seu conceito de aborto e da época da gravidez em que ele foi realizado. No mais, é por haver vida – mesmo em potencialidade – que sou contra o aborto; prefiro preservá-la sempre. Porém, todas as vidas, e encarando sua manifestação concreta.

Portanto, a REALIDADE é outra, diferente das visões idealistas. No mundo REAL as mulheres vão acabar procurando métodos ilegais – portanto, perigosos – para interromper as gestações e vão correr sérios riscos; muitas delas vão terminar morrendo no auge da sua juventude.

Ser a favor da descriminalização do aborto e permitir que seja incorporado pelo sistema de saúde significa encarar o mundo como ele é, sem visões idealistas e aprendendo com as experiências REAIS de sua aplicação. As mortes evitáveis de mulheres em abortos clandestinos não nos permitem mais perder tempo debatendo aspectos metafísicos da vida e seu valor; é preciso agir com a ideia de “menor dano”, tirando milhares de mulheres do destino terrível da morte por abortos insalubres.

Em todos os países onde o aborto seguro foi instituído pelo sistema público houve diminuição da mortalidade materna e são essas vidas de mães e mulheres que nos cabe proteger, acima de qualquer outra consideração. Isso não invalida a ideia de manter e incentivar a educação de meninos e meninas sobre a anticoncepção e gestação conscientes, mas sim interromper o massacre sobre mulheres pobres que se submetem a métodos cruéis de interrupção da gravidez.

Aceitar a REALIDADE acima de nossas crenças e ideais é um passo importante para produzir uma sociedade de paz, onde as gestações sejam uma benção e não um peso ou uma sentença de morte.

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Arquivado em Ativismo, Medicina

Corporação

Sobre brigas na corporação…

Uma coisa sempre me chamou a atenção no comportamento dos médicos: nunca encontrei neles qualquer superioridade (ou inferioridade) moral ou intelectual quando comparados a qualquer outra profissão, mesmo as mais “humildes”. Médicos são humanamente imperfeitos como qualquer sujeito.

Isso me marcou desde o tempo de faculdade quando vi famosos professores da minha área fazendo fofocas mordazes para grupinhos de residentes atacando seus colegas de cátedra. Eu pensava: “mas… a vida na Academia é assim mesmo, como um recreio de escola?

Sim, sem tirar nem por. Esses personagens podem ser tão violentos e agressivos nas críticas quanto os piores políticos do baixo clero. Não havia nenhuma sofisticação neste grupo, o que foi um choque de realidade que agradeço por me alertar para a natureza humana.

Entretanto, apesar de achar natural que haja lados e perspectivas distintas a defender, eu acho curioso esse ataque à legalização do aborto por parte de setores da corporação. Sério que existem facções na AMB, no CFM e até na FEBRASGO contrárias à legalização do aborto? Agora a moda é atacar candidatos por serem favoráveis ao aborto seguro, “lenientes” com a “invasão” das doulas e por reconhecerem a existência de violência obstétrica. Mesmo?

Pois vejamos; ser contra as doulas é uma bobagem. Elas já ganharam o jogo, estão presentes em todo os lugares. Legislações municipais e estaduais se multiplicam. Lutar contra elas é perda de tempo, e a atitude correta é essa mesma: adaptar-se a essa nova realidade, firmar parcerias, regulamentar e assimilar. As doulas representam um avanço com embasamento científico e aceitação popular, uma viagem que não tem volta.

Quanto à violência obstétrica, o mesmo. Fingir que não existe é estupidez. Uma atitude sábia é reconhecer e, pelo menos, se comprometer em combatê-la. Negar é suicídio, tolice, burrice.

Ser a favor da descriminalização e posterior legalização do aborto não é uma questão moral, mas de saúde pública. Ponto. Os médicos deveriam estar na linha de frente da defesa desse DIREITO.

É triste ver como as organizações médicas frequentemente andam a reboque da história. Há alguns anos apoiaram descaradamente a candidatura de Aécio. Depois disso foram parceiros no golpe de 2016 e ainda agora associam-se ao bolsonarismo, assumem posturas anacrônicas como o combate à liberalização do aborto, a exaltação da Cloroquina, o desmonte do SUS e o apoio à um genocida na presidência.

Não acredito que a saúde do Brasil pode se fortalecer sem a presença de médicos comprometidos com o oposto destas posturas, que alguns integrantes de relevância nas suas entidades abraçam. Por enquanto a medicina brasileira está tristemente parecida com o pior de sua política.

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Arquivado em Medicina

Os limites da razão

Para os lacradores

Apesar de saudar o contraditório e as racionalidades explicitadas sobre a importância da liberação do aborto é fácil perceber que o aborto não será descriminalizado por uma súbita “lacração” de uma ativista. Não será através de um discurso, uma ideia, uma metáfora ou uma sacada genial. Não é assim que funciona em um mundo imerso no oceano das emoções e que mantém apenas o nariz de fora para, eventualmente, respirar o ar da razão.

Não foi preciso nenhum discurso que a homossexualidade foi descriminalizada – nos livros, ao menos – e nem por uma postagem brilhante, citando Freud ou Butler. Não foi por uma palestra maravilhosa na Academia que os livros pararam de exaltar a fórmula láctea. As ideias pavimentam o chão, mas são imóveis. Nossos pés é que produzem transformação e mudança.

Se a razão tivesse esse poder Lula estaria livre e a humanização do nascimento seria a regra em todos os hospitais. Não haveria violência de gênero e ninguém abusaria de drogas. Mas não somos governados pelo entendimento; somos presas de nossas emoções.

A solução passa necessariamente pela mobilização popular. É o que se fala de Lula, do aborto, da democracia e o que se tem como experiência sobre câmbios sociais profundos.

Nosso problema é de culinária: falta ainda “massa crítica“. Olhem para baixo, para o Chile e a Argentina, e entendam que essa é a única forma de avançar na questão do aborto.

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Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinaridade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

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