Relevâncias

A partir de uma conversa com Andreia Coelho

Olha… tenho pensado muito nisso, sobre o tema recorrente, em especial para os velhos, da “ilusão da relevância“, ou a ideia de que somos muito mais importantes e imprescindíveis do que realmente somos. Eu percebo hoje – com um pouco de tristeza mas um certo alívio – que somos muito mais insignificantes para a engrenagem da vida do que fantasiamos. Não tenho mais dúvidas que o mundo se recuperaria da minha desaparição em não mais que uma fração de segundo.

Tal como a cauda de um cometa, deixamos em nosso rastro a poeira dos sonhos, fragmentos de ideias, recortes de frases, observações soltas, risadas, comentários tolos, lembranças vagas, histórias e imagens. Um dia, que via de regra chega rápido demais, ninguém mais lembrará de nós, como o velho que morre – mesmo estando morto – na animação “Coco”, da Disney.

Meus netos não conheceram meu avô, e as lembranças dele vão cessar quando eu desaparecer. Assim como eu em breve, suas memórias vão ficar nas páginas de um livro bolorento, guardado em uma gaveta, que talvez será encontrado por escafandristas de um oceano de gases, num milênio distante, quando a lua estiver mais próxima e o sol um gigante vermelho e brilhante.

Por mais que seja duro admitir, ninguém saberá de mim passadas tão somente duas gerações. Tudo que hoje penso, as ideias, as palavras, os amores estarão diluídos na memória da vida como… lágrimas na chuva – com o perdão do diálogo final de Blade Runner.

Então talvez apostar na imortalidade seja mesmo uma profunda perda de tempo. Quem sabe o valor está na colheita das bergamotas, na corrida das crianças, no dormir de conchinha, ao rir de uma comédia pastelão, ou ao chorar por um drama. Quem sabe seja esse o segredo da vida e não o o sonho de imortalidade e de consciência perene.

De qualquer maneira, seja qual for a crença que nos motiva, vale mais a pena curtir o que a vida nos oferece agora de prazer e transcendência do que o sonho dourado de uma relevância infinita.

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