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Anti-vida e peso

Perdi uma amiga querida há 2 anos por causa do uso de antibióticos. Na época ela estava usando antibióticos profiláticos para um tratamento dentário. Ou seja: sequer havia a necessidade premente para tratar uma doença bacteriana em curso. O principal problema dos antibióticos é que eles não diferenciam bactérias boas (benéficas) das ruins. Ao eliminar os microrganismos que protegem o intestino, geram uma condição chamada disbiose, abrindo espaço para a proliferação descontrolada de bactérias nocivas, como a Clostridioides difficile, que causa inflamações graves. Essa foi a provável causa de sua diarreia, que evoluiu para desidratação severa, insuficiência renal, megacólon tóxico (dilatação grave do intestino) sepse, o choque e a morte. Tudo isso porque usou um antibiótico profilático em um tratamento dentário banal.

Sempre tive um cuidado imenso com antibióticos desde a entrada na escola médica. Pessoalmente, não uso antibióticos há praticamente 40 anos, e já passei por múltiplas amigdalites, neurites, cirurgias e adoecimentos em geral. Por estudar os efeitos dos antibióticos no corpo e a importância da interação entre nosso organismo e as bactérias que conosco convivem, sempre tive muito respeito pelos riscos associados aos medicamento anti-vida (anti-bio). Fiquei mais interessado ainda quando assisti um documentário sobre o microbioma do recém nascido e quando conversei com o professor Lars A. Hanson da Universidade de Gottemburgo em uma conferência nos Estados Unidos. O Prof. Lars A. Hanson é um dos maiores pioneiros mundiais em imunologia clínica, dedicou sua carreira a provar como a amamentação transfere anticorpos e sinalizações cruciais para moldar a microbiota protetora do bebê contra infecções. Ele me descreveu suas pesquisas no campo da microbiologia dos recém-nascidos e a importância das enterobactérias maternas na colonização do intestino dos pequenos. Esse tema me deixou ainda mais encantado pelo significado da flora intestinal e as pesquisas sobre a conexão intestino-cérebro. Lembro muito bem da frase “Uma menina leva nos intestino bactérias herdadas da sua avó”. Não é impressionante isso?

Em 1946, pesquisadores descobriram que adicionar baixas doses de antibióticos à ração de animais de fazenda (como frangos e porcos) acelerava o crescimento e o ganho de peso. Desde então, a indústria usou antibióticos em larga escala como promotores de crescimento. Embora o efeito em animais seja conhecido desde a década de 1940, a confirmação de que os antibióticos afetam o peso em humanos é um achado recente. Estudos modernos ligam o uso precoce ou repetido de antibióticos a alterações na microbiota, o que pode aumentar o risco de obesidade, principalmente em crianças. Ou seja, a epidemia de obesidade no mundo está seguramente ligada ao excesso de antibióticos prescritos, em especial na infância.

Agora “descobrimos” que a solução para a obesidade é a aplicação de uma caneta mágica, cujos resultados em médio e longo prazos ainda não foram descobertos. Ou então já foram, mas como tudo se resume a dividendos e lucros na indústria farmacêutica, estes dados estão bem escondidos, como foi feito recentemente com o Vioxx. Mas será mesmo que esta solução artificial vai exterminar um problema que evidentemente está relacionado com o estilo de vida moderno? Não será a obesidade a consequência esperada para a artificialização da alimentação e, em última análise, da própria vida?

Este texto abaixo que eu colhi na internet é de uma palestra que encontrei e que continha esta parte interessante…

“Sabemos desde a década de 1940, quando começamos a usar antibióticos em larga escala na agropecuária, que os antibióticos fazem as pessoas ganharem peso. Nós os administrávamos — ou melhor, fazíamos uso inadequado deles na criação de animais — para que os animais engordassem mais rapidamente, e fizemos isso durante cerca de cinquenta anos. E houve até mesmo — quando digo “nós”, refiro-me à comunidade médica da época — ensaios clínicos realizados nas décadas de 1950 e 1960 com crianças africanas desnutridas e famintas, às quais eram administrados antibióticos para que ganhassem peso.

O microbioma é uma parte crucial da explicação para a atual pandemia de obesidade. Os microrganismos transformam a dieta ultraprocessada que você consome em um fator que promove a obesidade. E fazem isso, entre outras formas, regulando as vias do GLP-1; elas fazem parte de toda essa história. O que estamos fazendo é prender as pessoas em um ciclo de obesidade porque tratamos mal o microbioma. E então a solução apresentada é um medicamento muito caro, que as mantém presas nesse ciclo. Esse medicamento não cura a obesidade; apenas mantém o paciente em um tratamento extremamente dispendioso que, no fim das contas, provoca ainda mais alterações no microbioma, gera efeitos secundários sobre a interação entre intestino e cérebro e desencadeia uma série de outros problemas. E nós ainda não compreendemos profundamente esse mecanismo. Até 2030, cerca de 30 milhões de pessoas nos Estados Unidos estarão tomando esses medicamentos diariamente. E os governos dizem: “Ótimo, aqui está a solução para a pandemia de obesidade; vamos todos tomar esses remédios.” Isso simplesmente não é verdade.”

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Impactos

“The Doctor”,1891; Samuel Luke Fields (1844-1927), Óleo sobre tela, Galeria Tate (Londres)

Vejo com frequência pessoas exaltando os progressos da medicina e se espantando ao pensar como a humanidade foi capaz de sobreviver sem eles. Citam os antibióticos, as ultrassonografias, as cirurgias e a vacinação em massa, dando a entender que só sobrevivemos por causa desses tantos avanços tecnológicos. Entretanto, a própria ciência reconhece que o impacto (não confundir com a eficiência) dessas novidades (todas elas surgidas a pouco mais de um século) na atenção à saúde foi diminuto. O aparecimento dos antibióticos, das vacinas e dos diagnósticos por imagem não produziu resultados significativos para a saúde global. Em verdade, o impacto real nunca ocorre por meio da ciência médica, mas da engenharia e da política: muito mais significativos para a saúde foram o saneamento básico, o transporte público, as janelas nas paredes, ventilação nas casas, roupa limpa, trabalho digno, limpeza urbana, higiene pessoal, serviço social, ar respirável, comida saudável e água limpa. A medicina, sem dúvida alguma, salva muitas vidas, e controla doenças que, antigamente, seriam inexoravelmente fatais. Todavia, seu impacto na saúde global humana é tímido.

A tuberculose e a Revolução Industrial tiveram uma relação complexa e profunda. A industrialização, que trouxe em seu bojo a urbanização e aglomeração de trabalhadores em ambientes insalubres e superlotados, contribuiu para a proliferação da doença, que se tornou um dos maiores problemas de saúde pública da época, conhecida como “peste branca”. Esta doença é um exemplo clássico: grande flagelo europeu dos séculos XVIII e XIX, ela teve uma queda brusca na sua mortalidade a partir da aplicação das leis trabalhistas que limitavam as horas trabalhadas, em especial nos porões de navios e no porto de Londres. Quando a estreptomicina começou a ser implementada, o número de pacientes graves já havia diminuído em mais de 90%. Segundo o pesquisador Frost, “nada teve mais influência sobre o declínio da tuberculose que a progressiva melhoria na ordem social” e que “um dos aspectos mais essenciais no efetivo controle da doença é a melhoria do padrão de vida dos estratos econômicos mais baixos”. Ou seja: o real impacto veio por meio da regulamentação rígida das relações de trabalho, a alimentação adequada e sobre a insalubridade da vida dos operários. Os antibióticos vieram muito depois, mas ganharam fama porque, com isso, seria possível vender remédios e fazer girar a roda da fortuna do capitalismo. E, percebam: não afirmo que os antibióticos sejam “inúteis” (apesar de serem perigosos); pelo contrário, salvam vidas e são indispensáveis no tratamento de pacientes gravemente enfermos. Entretanto, sua ação é multiplicada pela propaganda; o real efeito positivo para a saúde das populações vem das transformações sociais que ocorrem em função das lutas sociais.

Outra constatação: de todas as descobertas da área médica do século XX, a mais impactante foi a descoberta do aumento de absorção de água pelo túbulo distal do intestino quando, em uma solução salina, se acrescenta uma pequena quantidade de glicose. Para quem é atento, estou apenas descrevendo algo banal: o soro caseiro. Entretanto, essa descoberta foi brutalmente impactante, capaz de salvar milhões de crianças em África, vítimas de disenteria e outras doenças causadas pela água contaminada ou não tratada. Ou seja, o uso deste tratamento causou até um resultado demográfico, aumentando a expectativa de vida, e foi superior a qualquer novidade da medicina surgida na mesma época.

Em resumo, a tecnologia de medicamentos e equipamentos aplicada à medicina tem valor e preserva vidas, mas sua ação é muito menor do que as medidas sociais, políticas e estruturais que, neste caso, podem fazer revoluções significativas na sobrevida, no bem-estar, na longevidade e na saúde das populações. É essencial ter boas noções de epidemiologia ao tentar avaliar o real impacto da Medicina na saúde. Talvez um bom começo seja lendo Ivan Illich e “A Expropriação da Saúde – Nêmesis da Medicina”. Como pode ser visto na “Encyclopaedia Britannica“, “As visões de Illich sobre a classe médica, expostas em Medical Nemesis: The Expropriation of Health (1975), eram igualmente radicais. Ele contestava a noção de que a medicina moderna havia levado a uma redução geral do sofrimento humano e afirmava que a humanidade era, de fato, afligida por um número cada vez maior de doenças causadas por intervenções médicas. Além disso, argumentava que a medicina moderna, ao parecer oferecer curas para quase todas as condições — incluindo muitas que não haviam sido consideradas patológicas pelas gerações anteriores —, criava uma falsa esperança de que todo sofrimento pudesse ser evitado. O efeito, concluiu ele, era minar os recursos individuais e comunitários dos humanos para lidar com as inevitáveis ​​dificuldades da vida, transformando-os, assim, em consumidores passivos de serviços médicos.”

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Marcas no corpo

– Adeus mãe, melhor dizendo, até breve.

Suas mãos pálidas cruzavam o peito deixando à mostra os ossos proeminentes. Os olhos fundos e as bochechas encovadas registravam a solidão de seus últimos tempos. Solitária em seu mundo de lembranças e visões pouco absorvia do mundo que a rodeava. A memória, como chama fina no candeeiro, esmaeceu-se lentamente, como o frio que nos invade na chegada do inverno. Lembrei, por alguns momentos enquanto olhava seu rosto pela última vez, das histórias de “Juca e Bolão” que contava para nos seduzir a secar a louça com ela, da letra linda, dos cadernos que corrigia, do meu imenso prazer em fazê-la explodir em gargalhadas. Suas histórias de tombos fantásticos, que adorava contar pela metade, pois as crises de riso a impediam. Sua comida cujo cheiro reconhecia a uma quadra de distância ao chegar da escola. Arroz, feijão, guisado, farinha de mandioca. Suas sonecas na tarde e a porta trancada do quarto. Olhei mais uma vez a cicatriz que trazia no antebraço, que vinha do punho até quase o cotovelo, lembrando a história que se escondia por detrás, e que me foi contada há tanto tempo que sequer consigo recordar a época exata.

Foi uma brincadeira infantil que quase produziu uma tragédia. Escondida debaixo de um sofá, num inocente jogo de esconde-esconde, foi finalmente encontrada pelos amigos. Quando foi resgatada de lá o braço ficou preso, trincou e quebrou. Não tinha mais do que 5 anos na época. Ainda assustada, ela é levada ao hospital e faz um tratamento padrão para a época, meados dos anos 30. Alguns dias depois acorda com febre e uma mancha vermelha e feia no local da fratura. Seus pais a levam para o hospital e recebem o diagnóstico, dos poucos que a minha mãe sabia dizer: osteomielite.

Estávamos há décadas de comercializar antibióticos. O médico inglês Alexander Fleming desenvolveu pesquisas sobre estafilococos e acabou por descobrir a Penicilina em 1928, dois anos antes do seu nascimento. Esta descoberta, assim como tantas outras na ciência, deu-se em condições muito curiosas, graças a uma sequência de eventos imprevistos. Mas quando minha mãe chegou ao hospital nada disso estava à disposição dos médicos.

– Será preciso amputar o braço de sua filha, disse o médico, sem devaneios, ao meu avô, “Seu Olinto”.

Meu avô ficou absolutamente arrasado, mas aceitou o que o destino havia lhe reservado. Saiu da sala do médico e foi até a cafeteria do hospital Moinhos de Vento para fumar um cigarro e tomar um café. Lá encontrou um amigo para quem compartilhou a história, e puderam juntos lamentar o ocorrido. Quando estava indo embora, sentiu um toque no ombro e se virou. Lá estava um jovem rapaz, com seu chapéu nas mãos.

– Eu escutei a história que você contou ao seu amigo. Desculpe pela intromissão. Sou o Dr. Heinrich* e acabo de voltar de um ano de estudos na Alemanha. Eu vi que meus colegas preconizaram a amputação do braço da sua filha, mas nós desenvolvemos um tratamento para estas condições que talvez permita curar a infecção sem precisar agir de forma tão radical.

Meu avô a tudo escutava com paciência, que aos poucos se transformou em esperança. Se era possível uma cura sem extirpar um dos seus braços, por que não tentar? Pediu ao médico que tomasse conta do caso e assim foi feito.

Minha mãe contava que o tratamento se baseava em abrir a extensão da pele até o osso e fazer “raspagens” e lavagens, até que ele curasse de dentro para fora. Quando minha mãe descrevia essas peripécias e essa aventura eu tremia, tanto de excitação quando de medo ao ouvi-la descrevendo as raspagens dolorosas e sacrificiais mas, acima de tudo, corajosas. Ao fim do tratamento estava curada, apenas com a vistosa cicatriz a lembrá-la para sempre do que passou.

Hoje eu creio que muito do que eu fiz da minha vida está inscrito nessa história. Para o bem e para o mal a minha trajetória está marcada por esta narrativa.

Estava ali a sua cicatriz, marca de sua força e resiliência, que a acompanhou até o fim da vida. A longa marca que lhe riscava o braço permaneceu com ela até depois da memória ter se recolhido para o último sono.

– Até breve, disse eu, mais uma vez.

* um nome inventado. Minha mãe contava que era um médico da comunidade alemã de Porto Alegre, onde todos se conheciam pelos sobrenomes e pelas origens.

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Antibiose

Desde a revolução pasteuriana do final do século XIX que somos fixados na “antibiose”, ou seja, na ideia de que bactérias, vírus, protozoários, fungos, chlamydias, etc. são nossos “inimigos mortais” e que, para assegurarmos nosso lugar no planeta, é necessário destruí-los, aniquilá-los, esterilizando tudo ao redor pois assim – limpos e desinfetados – estaremos mais seguros.

Durante anos este foi o “paradigm drift” que nos falava Thomas Kuhn. Uma ideia tão poderosa, e tão perfeita, que assumia merecidamente a posição de paradigma hegemônico, reinando por sobre as outras formas de encarar a realidade científica. Tão poderosa essa ideia que acabou impondo tentáculos por toda a sociedade, desde as concepções de saúde e doença, higiene, limpeza, segurança biológica e terapêutica, impulsionando a nascente indústria farmacêutica para a criação de antibióticos após a segunda guerra mundial.

Entretanto, como previa o mestre Kuhn, qualquer paradigma fatalmente encontra sua crise, e não seria diferente com a antibiose. Após um reinado de um século, desde as experimentações iniciais de Koch e Pasteur, a ideia dos “micróbios inimigos” começa a mostrar suas fragilidades. A ação – devastadora em muitos casos – sobre a flora bacteriana normal do corpo humano passou a ser investigada e pesquisada. O efeito imunossupressor dos antibióticos mostrou uma imagem um pouco diferente dos “salvadores” de outrora. O resistência bacteriana causada, em especial, pelo abuso de antibióticos e pela assepsia dos hospitais nos coloca diante de “super bugs” – bactérias resistentes a tudo, o terror das UTIs. A ação antibacteriana desses quimioterápico agora mostra seu preço, e o mundo inteiro fica em alerta.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, cresce a consciência de que a humanidade não deixa de ser uma parte da natureza e não a culminância dos esforços divinos pela perfeição, como arrogantemente nos comportamos. Darwin deixou claro que somos parte do todo biológico da Terra e temos o mesmo direito à vida quanto qualquer outra espécie – incluindo aí as minúsculas bactérias e vírus. Apenas um especifismo místico pode nos considerar “superiores” e mais merecedores de bênçãos do que o resto dos seres vivos com os quais convivemos.

Novas pesquisas ainda vão mais longe. Temos uma quantidade gigantesca de bactérias que coabitam nosso espaço corporal, de mesma massa que as próprias células do nosso corpo. Somos, em verdade, um “condomínio de vidas”, em que nosso lugar é de zeladoria, resguardando, nutrindo e sendo nutridos por estes micróbios que nos acompanham. No parto, como pode ser visto no documentário “Microbirth”, a boa qualidade das bactérias(!!!) a nos contaminar (enterobactérias maternas) imediatamente após o nascimento será fundamental para nossa vida e nossa saúde.

Segundo a visão da medicina darwinista, chegou a hora de encarar nossa relação com os outros seres de forma mais razoável e respeitosa. A era da “antibiose” encontra seu ocaso, enquanto surge o alvorecer da “probiose” que, ao contrário de se contrapor aos outros seres vivos da Terra – aqui incluídas tanto as baleias jubarte quanto as bactérias minúsculas do nosso sistema intestinal – propõe um respeito ao direito de que todos têm de conviver com harmonia em Gaia.

Evidentemente que não se trata de jogar os antibióticos no lixo e condenar infectados à morte, mas questionar até onde este modelo pode nos levar. Estamos diante de um “paradigm shift” pela evidente falência do modelo anterior de solucionar os problemas em grande escala.

A crise do Corona vírus talvez traga em seu bojo algumas lições muito importantes. O respeito à todas as formas de vida talvez seja uma delas, e a própria crise talvez seja um sintoma claro da reiterada agressão que nosso planeta vem sofrendo de todas as formas.

Sejamos conscientes da nossa responsabilidade nesse episódio global.

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