Parto da Vaca

Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…

Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.

Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….

Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.

Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.

Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.

E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.

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