Revelação

Algumas questões contemporâneas:

Quando o pessoal faz “chá de revelação” a mãe também não sabe o sexo do bebê ou ela já sabe e só finge surpresa? Caso seja surpresa também para ela, como faz isso? Combina com o ecografista para avisar apenas ao confeiteiro?

Minha curiosidade vem do fato de que meus filhos nasceram exatamente na época da introdução das ecografias na prática obstétrica. Não foram realizados estes exames durante as gestações de Zeza, mas também não havia nenhuma curiosidade sobre o sexo dos bebês que justificasse a invasão da intimidade do ventre materno. O sexo era uma descoberta emocionante, mas o que havia era o “parto revelação”. O parto revelava tudo: peso, cara, cabelos e o sexo de nascimento.

Entretanto, esse “modismo”de descobertas precoces seguidas de um espetáculo de revelação enseja uma série de perguntas: por que exatamente no momento histórico onde o sexo biológico é tão desprezado como “determinante de gênero” essa comemoração é mais intensa, espetacularizada e pervasiva? Afinal, aqueles pequenos detalhes têm ou não importância? Qual o significado último dessas cerimônias de “revelação”? O que essa aparente contradição tem a nos “revelar”?

Para além dessas preocupações sobre os sentidos da revelação, muitas vezes estas festas se transformam em espetáculos de grosseria explícita. Há inúmeros exemplos de como a revelação extemporânea do sexo de uma criança pode ser tratada de forma abusiva, fazendo do momento um Fla-Flu grotesco e sem graça. Pior: a criança enquanto sujeito não vale nada, resumida ao valor das apostas sobre qual sexo pertence. Um objeto de brincadeira entre os adultos.

Fica claro que no mundo atual os eventos precisam ser espetacularizados, e parece que ser reservado significa abdicar do protagonismo. Hoje mesmo vi alguém reivindicando o direito das mulheres em fazer “topless”. Eu acho que esse direito deve ser garantido, mas deixar de cobrir o corpo tem muitos outros significados para além de evitar o calor e proteger-se do fio. O principal deles é a perda insidiosa da intimidade. O corpo deixa de ser algo privado e se torna público.

Assim, tudo o que é seu é exposto, passa a ser de todos, e a noção de pudor ou intimidade se desfaz como um anacronismo sem sentido. Tudo, inclusive sua sexualidade mais pessoal, precisa ser exposto, aberto e iluminado pelos holofotes das redes sociais. O que vejo acontecer, como era de esperar, é um questionamento cada vez mais intenso sobre esse modelo de auto exaltação. Eu, pessoalmente, acho muito bom que haja esta revisão.

Minha inquietude se mantém, e minha pergunta é honesta: Por que logo agora a descoberta do sexo passa a ser valorizada e espetacularizada, exatamente quando aquilo que por milênios definiu nosso sexo está caindo por terra, em nome de uma identidade de gênero muito mais fluida – mais da palavra e menos do corpo?

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