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Gozo e Prazer

Essa compra de um “álbum completo” escancara a diferença entre gozo e prazer. Gozo é colecionar, trocar figurinhas, sofrer por não ter as difíceis, negociar com os pais a compra dos pacotes, ficar angustiado pelas faltantes e exultante com os “achados”. O gozo dura horas, dias, semanas, enquanto o prazer é instantâneo, e se desfaz logo após contemplar o álbum completo. O prazer é o fim do gozo.

Aprendi com os drogados que a verdadeira fissura é esperar pela droga, e não o seu uso. Aguardar a chegada, contando os minutos é o que verdadeiramente vicia. Transar também; o que nos fascina é esperar pelo objeto do nosso desejo, o lento despir-se, a lânguida sensação de eternidade de cada minuto que antecede o toque real e definitivo. É na espera que sofremos e gozamos.

Gozo é percorrer o Caminho de Santiago, prazer é chegar lá. “Mas porque não faz de carro em bem menos tempo?”, perguntava o garoto ingênuo diante da ideia de que o objetivo é alcançar a cidade, e não construir seu caminho. “Ora, diria eu, porque o gozo é fazer bolha nos pés, rebentar os músculos da perna, cansar até não conseguir dar sequer um passo a mais. Chegar é apenas um detalhe na trajetória, exatamente aquele que lhe dará fim.”

No parto a mesma coisa. O gozo é curtir (sim!!!) cada contração, construindo um vínculo eterno através de cada onda, saboreando o sacro-ofício de cada uma de suas dores. Parir é prazer, é orgasmo, mas o gozo está na preparação e no exercício da percepção de si mesma no processo de gerar.

A sociedade moderna busca o prazer imediato, um prazer de curto-circuito. Quer um álbum de figurinhas completo, onde o prazer é garantido, mas onde o gozo inexiste. Também quer transar sem conquistar, comer sem plantar, viajar sem sair do lugar, emagrecer sem exercício. Deseja conhecimento sem estudo, beleza sem saúde, saúde sem disciplina e pretende morrer sem ter construído um objetivo nobre, difícil e laborioso para a sua existência, apenas pautada pelo BIP – Busca Insaciável pelo Prazer.

Desde os anos 90 essa música de Marina faz eco em meus ouvidos, e me conduz até hoje…

“E às vezes alta madrugada
Ficam dúvidas com tudo
Quem sabe o fim não seja nada
E a estrada seja tudo”

(O meu Sim – Marina Lima & Antonio Cícero)

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Fogueira

Vou me repetir mas apenas porque nesses momentos é fundamental ser didático e não perder a oportunidade de educar as pessoas sobre os limites da ação médica e a importância de reforçar a luta pelos direitos dos pacientes.

Existe um fenômeno na escola chamado “eleição do courinho”. É evidentemente uma escolha informal, sem votos expressos, mas consensual. Esse personagem na escola é escolhido para receber a maior carga de bullying por parte dos colegas, geralmente por ter algum tipo de defectividade: são eleitos quase sempre os gordos, os baixinhos, os magricelas, os lentos, os de óculos, os desengonçados, etc. Esse sujeito, a exemplo do “comedor de pecados”, vai atrair para si todas as máculas que carregamos, concentrá-las em si mesmo e sofrê-las, como um Cristo a garantir nossa salvação expiando os pecados do mundo.

Este “courinho” (em quem todos batem) produz um efeito apaziguador de nossas fragilidades. Se eu sou gordinho ninguém vai notar, porque não sou tão gordo quanto o “bola”. Se eu sou baixinho não importa pois ainda sou um pouco maior que o “tampinha”. Se sou feio ainda assim não assusto tanto quanto o “rascunho”. Se uso óculos, pelo menos não uso um “fundo de garrafa” como o meu colega “4 olho”.
Se eu faço uma episiotomia sem indicação, pelo menos não mostro para o marido, como alguns por aí. Sim, eu grito, bastante até, mas não digo “pohaaa” como aquele outro. Se assumo o protagonismo e exproprio o parto das pacientes, pelo menos não posto no Instagram. Se “faço os partos” pelo menos tenho menos cesarianas que aquele outro colega. Se desmereço a capacidade da mulher, pelo menos não falo “viadinha” como fiquei sabendo por aí.

Esses personagens são exaltados para carregar as NOSSAS FALHAS, nossos erros, nossa violência estrutural cotidiana, e acima de tudo para esconder o quanto estamos todos envolvidos em um modelo misógino, que desmerece as capacidades inatas das mulheres de gestar e parir com segurança. Criar um culpado serve para desviar o foco da enfermidade crônica da obstetrícia ocidental.

As coisas que esse doutor fazia, aparentemente com mais de uma paciente – tipo comentar sobre a vagina delas, falar palavras impróprias, mostrar a laceração para o marido, assumir o protagonismo do parto, fazer publicidade exagerada do seu trabalho nas redes sociais – não deveriam ser tratadas como uma “caça às bruxas”, tentando colocar a culpa nessas práticas em apenas um sujeito de comportamento “desviante. Estes erros são, em verdade, um catálogo das falhas cotidianas que estão espalhadas por todos os profissionais, os quais estão imersos em um paradigma de atenção inerentemente violento.

Toda caça às bruxas, todo linchamento e todo julgamento inquisitorial carregam essas características: mostram muito mais quem julga do que quem é julgado. Não se trata de desculpar suas atitudes e falhas, mas penas não se permitir desviar do foco: a mudança profunda no modelo de atenção ao parto.

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Partos e lucros

Há mais de 20 anos eu estava atendendo um parto em um grande hospital de classe média da minha cidade quando, no meio do atendimento, a enfermeira chefe me chamou para fora da sala dizendo que uma funcionária do hospital precisava falar comigo. Fui até a porta do Centro Obstétrico onde encontrei uma bela jovem que me aguardava, segurando uma pilha de papéis em suas mãos.

– Olá doutor, eu me chamo fulana e sou do setor de contas. Estamos fechando a contabilidade do mês e estou com dificuldade para fechar estes casos. Creio que foram atendidos pelo senhor.

Destacou do meio da sua pilha de documentos algum em especial e o ofereceu a mim.

– Esse aqui é um deles, porém temos mais uns. Queria que o senhor desse uma olhada na descrição de materiais usados porque preciso mandar para a cobrança do convênio. É urgente.

Olhei rapidamente o papel à minha frente e percebi que a coluna de material estava em realmente em branco. Voltei a atenção para o cabeçalho do documento e vi o nome de uma paciente que havia atendido algumas poucas semanas atrás. Lembrei rapidamente do parto, até porque estava fresco em minha memória.

– Sim, fui eu quem atendeu este parto, mas qual o problema?

– O senhor esqueceu de listar o material usado, doutor. Aqui não consta o soro, nem equipo, as medicações injetáveis, os analgésicos pós parto, o tipo de fio de sutura, o material da episiotomia, o creme para as mamas pós parto e…

Interrompi a fala da menina com um sorriso.

– Mocinha, nada disso foi usado!!! Este foi um parto natural, sem cortes, sem suturas, sem drogas, sem intervenções. Aliás, via de regra, nenhuma dessas intervenções deveria ser usada de rotina. O nome disso é “parto humanizado”.

Ela ficou desconcertada olhando para a folha de papel à sua frente e me mostrou mais dois atendimentos que já havia selecionado. Expliquei a ela que, efetivamente, em todos aqueles casos nenhum tipo de medicação ou equipamento havia sido utilizado.

– Mas como vou fazer para cobrar?

Só então me dei conta que eu estava sendo tratado como um intermediário entre o atendimento de uma paciente e a necessidades financeiras de um hospital. Minha atuação médica precisava gerar lucro para a instituição, e a qualidade do atendimento – por mais que fosse importante – era secundária à necessidade que o hospital tinha de produzir uma entrada de recursos que surgiriam através do meu atendimento.

Esta foi a primeira vez que eu me vi na posição de agente passivo do capitalismo em sua relação com a saúde. Por certo que o fato de me contrapor à ordem obstétrica alienante e objetualizante era o suficiente para gerar desconforto e ressentimento por parte do hospital e dos colegas, mas foi a primeira vez que percebi o quanto meu exemplo era ruim para as finanças das instituições privadas. Nesse tive consciência de que os profissionais que usavam alta tecnologia, equipamentos caros, cirurgias complexas, múltiplos profissionais, muitos dias de internação, uso de UTI eram mais admirados do que alguém que demonstrava um aparente “desprezo” pelo uso ostensivo de tecnologia em seu trabalho.

A partir de então passei a observar a diferença de tratamento oferecida aos médicos daquele e de outros hospitais cuja ação trazia dividendos para a instituição. O quanto eram bajulados, bem tratados, exaltados e elogiados, mesmo que – do ponto de vista estritamente científico e pragmático – suas ações pudessem ser confrontadas quanto à eficácia e valor. Havia algo muito mais significativo na relação do hospital com esses profissionais do que o reconhecimento da sua excelência e de seu trabalho.

Estas percepções foram moldando uma visão pessoal absolutamente negativa da relação entre saúde e capitalismo. Eu percebia que a mistura desses conceitos produzia um resultado ruim, e o melhor exemplo possível era a saúde americana, que apesar do alto grau de avanço tecnológico – o melhor que o dinheiro pode comprar – tem os piores resultados entre todas as nações desenvolvidas do mundo – em especial no parto e no nascimento. Também ficou clara a sedução que estas mensagens subliminares operam na atuação dos médicos. Quem não gosta de ser bajulado no local onde exerce sua função? Quem não gosta de ser tratado com distinção pelos colegas e pelo local que acolhe seu trabalho? Quem não acha maravilhoso ser bem remunerado em seu ofício?

Muitos anos depois recebi pelo celular uma mensagem do anestesista que durante quase 30 anos atendeu as minhas cesarianas, sempre da melhor maneira possível. Nunca tive nenhuma queixa sobre a qualidade do seu trabalho, muito menos da rapidez com que chegava ao hospital ou a agilidade com a qual conduzia suas anestesias. A mensagem, resumidamente, dizia:

– Caro amigo. A partir de hoje não atenderei mais partos para você. Nada pessoal, mas você não traz para mim o suficiente retorno financeiro. Através de você ganho por volta de 1500 reais mensais, o que é muito pouco para a atividade que exerço. Sucesso e boa sorte.

Sim, eu havia sido “demitido” porque o chamava poucas vezes para atender cesarianas enquanto meus colegas o chamavam inúmeras vezes mais, e assim eram considerados muito mais valiosos. A validade das cesarianas dos colegas era absolutamente irrelevante para o cálculo que fizera. A luta insana que eu travava contra o abuso de indicações cirúrgicas era do conhecimento dele, mas não fez a menor diferença para avaliar o valor do seu trabalho. Eu me lembro desta cena até hoje, a minha face atônita olhando para a tela brilhante do celular enquanto pensava: “Mas, espere, não vá, quem sabe se eu…”

Durante uma fração de segundos eu – por me sentir desamparado para atender partos sem o suporte de um anestesista – acreditei que poderia haver algo errado com a minha atitude e talvez não devesse ser tão “radical”. Mas, tão logo passou esse fragmento de instante, eu me dei conta que não havia como fazer qualquer tipo de concessão para um modelo falido, que enxerga os ganhos acima da atenção das gestantes, e que coloca a excelência do atendimento à reboque dos ganhos financeiros dos profissionais, das instituições e das indústrias de insumos médicos.

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Revelação

Algumas questões contemporâneas:

Quando o pessoal faz “chá de revelação” a mãe também não sabe o sexo do bebê ou ela já sabe e só finge surpresa? Caso seja surpresa também para ela, como faz isso? Combina com o ecografista para avisar apenas ao confeiteiro?

Minha curiosidade vem do fato de que meus filhos nasceram exatamente na época da introdução das ecografias na prática obstétrica. Não foram realizados estes exames durante as gestações de Zeza, mas também não havia nenhuma curiosidade sobre o sexo dos bebês que justificasse a invasão da intimidade do ventre materno. O sexo era uma descoberta emocionante, mas o que havia era o “parto revelação”. O parto revelava tudo: peso, cara, cabelos e o sexo de nascimento.

Entretanto, esse “modismo”de descobertas precoces seguidas de um espetáculo de revelação enseja uma série de perguntas: por que exatamente no momento histórico onde o sexo biológico é tão desprezado como “determinante de gênero” essa comemoração é mais intensa, espetacularizada e pervasiva? Afinal, aqueles pequenos detalhes têm ou não importância? Qual o significado último dessas cerimônias de “revelação”? O que essa aparente contradição tem a nos “revelar”?

Para além dessas preocupações sobre os sentidos da revelação, muitas vezes estas festas se transformam em espetáculos de grosseria explícita. Há inúmeros exemplos de como a revelação extemporânea do sexo de uma criança pode ser tratada de forma abusiva, fazendo do momento um Fla-Flu grotesco e sem graça. Pior: a criança enquanto sujeito não vale nada, resumida ao valor das apostas sobre qual sexo pertence. Um objeto de brincadeira entre os adultos.

Fica claro que no mundo atual os eventos precisam ser espetacularizados, e parece que ser reservado significa abdicar do protagonismo. Hoje mesmo vi alguém reivindicando o direito das mulheres em fazer “topless”. Eu acho que esse direito deve ser garantido, mas deixar de cobrir o corpo tem muitos outros significados para além de evitar o calor e proteger-se do fio. O principal deles é a perda insidiosa da intimidade. O corpo deixa de ser algo privado e se torna público.

Assim, tudo o que é seu é exposto, passa a ser de todos, e a noção de pudor ou intimidade se desfaz como um anacronismo sem sentido. Tudo, inclusive sua sexualidade mais pessoal, precisa ser exposto, aberto e iluminado pelos holofotes das redes sociais. O que vejo acontecer, como era de esperar, é um questionamento cada vez mais intenso sobre esse modelo de auto exaltação. Eu, pessoalmente, acho muito bom que haja esta revisão.

Minha inquietude se mantém, e minha pergunta é honesta: Por que logo agora a descoberta do sexo passa a ser valorizada e espetacularizada, exatamente quando aquilo que por milênios definiu nosso sexo está caindo por terra, em nome de uma identidade de gênero muito mais fluida – mais da palavra e menos do corpo?

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Cesarianas “humanizadas”

A respeito de uma cena de cesariana realizada de forma delicada – com nascimento empelicado – e o debate que se seguiu, onde alguns participantes afirmavam que se tratava de uma “cesariana humanizada”, uma discussão que acompanho há mais de 20 anos.

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“Uma cesariana pode ser delicada, humana e respeitosa, mas jamais “humanizada”.

Vejamos porque não aceito essa definição para estas cirurgias. Faço, já há muitos anos, esta diferença porque o conceito que utilizamos é de que a humanização do nascimento se apoia em três elementos constitutivos:

  1. a atenção baseada em evidências
  2. o enfoque interdisciplinar
  3. o protagonismo do evento garantido à mulher

Não é difícil de entender que em uma cesariana o protagonista do evento é o médico e suas habilidades cirúrgicas. Portanto, uma cesariana – mesmo escolhida pela mulher ou com indicações médicas claras – não pode ser “humanizada” por não possuir um dos elementos basilares da humanização: o protagonismo garantido à gestante. Na cesariana, como em qualquer cirurgia, o paciente será sempre objeto da arte médica e não sujeito do processo.

Não se trata de um julgamento de mérito, mas uma questão semântica, de conceito. Como eu defino a humanização como sendo uma estrutura suportada por três pontas (protagonismo, Saúde Baseada em Evidencias e a interdisciplina) eu não posso considerar uma cesariana como humanizada – mesmo quando ela for útil, delicada, humana, bem indicada e até salvadora – pela falta de um dos elementos estruturantes.

Além disso, sabemos que existe uma questão semiótica neste rótulo reivindicado pelos propagadores das “cesarianas humanizadas”. Essa demanda serve para criar confusão entre uma cesariana – que é uma intervenção cruenta e artificial – e os mecanismos fisiológicos e naturais do corpo, chamando ambos os procedimentos de “humanizados”. Assim, para muitos fica a mensagem de que “tanto faz a via de nascimento se ambas as formas de nascer forem humanizadas“, certo?

Não, cesariana é cirurgia, parto é parto, assim como fórmula láctea é uma coisa e leite materno é outra. A superioridade em termos de riscos diminuídos e promoção da saúde do leite materno e do parto normal sobre suas variantes artificiais sequer precisa ser discutida.

Todo nascimento tem sua beleza. Mesmo a cesariana, que é uma cirurgia de grande porte, pode ser realizada com delicadeza e respeito, fazendo do nascimento pela via cirúrgica um evento igualmente belo e significativo. Não se trata de desmerecer esta cirurgia e muito menos quem porventura precisou se submeter a ela, mas é um cuidado para resguardar o conceito de humanização para os processos naturais e fisiológicos, onde a própria mulher mantém o controle dos tempos, das presenças, das posições e dos ambientes.”

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Parto da Vaca

Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…

Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.

Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….

Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.

Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.

Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.

E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.

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Liberdade, liberdade

Recordo que há alguns anos escrevi um artigo que falava criticamente do racismo que sobrevive no nosso meio e das suas conexões com a escravidão no Brasil. Para ilustrar o texto coloquei uma imagem da internet com um torso negro masculino envolto em uma grossa corrente. Recebi alguns elogios pela iniciativa (um obstetra falando de racismo institucional não é muito comum), mas no dia seguinte um famoso grupo identitário virtual me escreveu dizendo terem gostado do texto, mas que não aprovavam a imagem. Disseram que era hora de desvincular os negros da escravidão. Respondi explicando que o texto falava explicitamente da escravidão e suas repercussões, quase um século e meio após sua abolição, mas elas ficaram irredutíveis em sua proposta.

Eu troquei a imagem por outra (achei que não valia a pena a animosidade por um detalhe). Coloquei uma barriga grávida e negra, mas percebi o risco que havia nessa proposta de censura (que se limitou a um pedido). E se eu tivesse me negado? E se eu insistisse na imagem? Que tipo de represália eu poderia sofrer?

Quando escrevi meu capítulo no livro “Birth Models that Work“, da antropóloga Robbie Davis-Floyd, recebi um “sinal de luz” da revisora que achava que meu texto “essencializava” a mulher ao exaltar suas capacidades de gestar e parir, e isso podia incomodar algumas feministas. Desta vez bati pé e tive uma áspera discussão ao telefone que terminou com “então pode retirar o capítulo do livro“. Não foi necessário e minha contribuição nunca fui criticada por ter essa característica.

Liberdade de expressão é uma falta que eu vejo de maneira muito clara no discurso das esquerdas. As estúpidas expulsões de bolsominions de manifestações, ou mesmo negando-lhes o direito de falar, mostram a face autoritária que ainda sobrevive nesse meio. Cabe a nós, do campo progressista, eliminar qualquer forma de autoritarismo e censura, e para isso precisamos pagar o preço que se fizer necessário.

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Para um pai que nasce

paternidade

A paternidade é um mergulho no abismo profundo das perguntas deixadas sem resposta. O fazer-se pai é reconstruir-se a partir das próprias fragilidades; é reencontrar-se na criança que acalentamos, buscando nela a solução para as dúvidas que deixamos para trás.

Para além das respostas que perseguimos, tornar-se pai permite a um homem a dádiva do perdão, pois lhe possibilita perdoar o próprio pai nas inexoráveis falhas que a condição humana lhe impôs. Sem a paternidade, e o necessário sofrimento que ela nos obriga percorrer, perdemos esta grande oportunidade, ficando à mercê de vivências outras, fora do escopo de nossa própria experiência de vida.

Por sua força e relevância, não há como negar que poucas experiências humanas podem ser mais criativas e potencialmente transformadoras. Depois de 34 anos assistindo partos e nascimentos é impossível não se admirar com o impacto que este evento provoca nos pais que, junto com seus filhos, nascem durante a explosão de emoções que circundam o parto.

Ao mesmo tempo em que produziu notáveis melhorias na sobrevida de mães e bebês, em especial na assistência aos casos de risco, o paradigma tecnocrático de assistência ao nascimento – por sua ênfase na técnica e na intervenção em detrimento do apoio e do cuidado – objetualiza e coisifica as gestantes, encarando-as como bombas-relógio prestes a explodir, tornando-se assim uma das maiores ameaças contemporâneas ao parto normal. O Brasil tornou-se um exemplo internacional de má prática  obstétrica, onde o abuso e o exagero na prática de cesarianas – além de inúmeras outras violências obstétricas – mostram o risco de mantermos a hegemonia deste modelo de assistência. É imperativo que se faça uma crítica severa ao paradigma médico de atenção ao parto normal para não perdermos por completo a conexão com um evento tão importante na construção da condição humana.

“Somos o que somos porque nascemos de maneira bizarra e incomum”. O nascimento humano, único em sua forma e consequências, determina as características especiais que nos distinguem. Da altricialidade de nossos rebentos – a extremada desproteção dos recém nascidos – originada por sua prematuridade neuronal, surge a “estranha anomalia da ordem cósmica, fissura na tessitura biológica e ato falho da obra divina: o amor“. Segundo Freud “se amor existe ele é o sentimento que une uma mãe ao seu bebê, fonte de onde todos os outros amores serão derivados”.

Existe ainda uma outra maneira de exercitar a paternidade de forma desafiadora e criativa: tornar-se pai de uma menina. Dos meninos pensamos tudo saber, tudo entender; afinal eles cursam o  caminho que nossos pés já andaram e nossos olhos já viram; as pedras sobre as quais tropeçam seus delicados pezinhos também estavam lá quando as trilhamos há poucas décadas. Deles queremos que se pareçam conosco, que sigam nossos passos, que torçam pelo mesmo time e que honrem nosso nome. Mas o que podemos esperar delas, que nascem como suas mães, que nos parecem tão estranhas e sempre nos confundem com sua especial visão do mundo?

O nascimento de uma filha nos coloca diante de um desafio duplo: a obrigação de enfrentar as dúvidas e temores da paternidade acrescentados ao desafio de entender o “feminino em botão”, a flor delicada e firme que desabrocha em frente aos nossos olhos atônitos e que nos oferece o ensinamento contundente da diferença. Como cuidar do desenvolvimento de seres que sempre nos pareceram enigmáticas, misteriosas e incompreensíveis?

Se por um lado esta tarefa é grandiosa, também o é aterrorizante. Sabemos das marcas que a imagem de um pai produz na construção que essa menina fará de sua própria sexualidade e vida madura. Um pai será a matriz de valores e atitudes por sobre os quais ela vai estabelecer suas parcerias. A paternidade , assim estabelecida, vai impor ao novo pai uma revisão profunda de suas atitudes com relação às mulheres, na  medida em que deixamos de ser sujeitos de nós mesmos e passamos a ser espelhos onde aqueles pequenos olhos sequiosos de aprendizado procuram ensinamentos e exemplos de vida.

Apesar das angústias e do temor diante do gigantismo da tarefa, ainda assim poucas experiências na vida podem se equiparar ao desafio de construir-se pai. As cenas que acompanhei nas ultimas três décadas, onde sisudos homens vertiam lágrimas da mais profunda e genuína emoção ao levarem pela primeira vez seus filhos aos braços, formam um caleidoscópio de imagens que jamais serão apagadas da parede da memória. Ali, na escuridão cálida de uma cena de nascimento, entre sussurros, gemidos, medos e expectativas, se escondem os segredos mais profundos que regem a nossa esperança de imortalidade.

Ricardo Jones

Obstetra

Pai de Lucas e Bebel, avô de Oliver e Henry

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Coração Partido

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“Cada dia que passa mais me convenço da profundidade das marcas que o parto deixa em quem é atropelado por sua voracidade. Em uma sociedade em que as escolhas frequentemente se resumem à suprema alienação da cesariana ou à violência obstétrica do parto vaginal, é triste reconhecer que qualquer destes caminhos produz inexoráveis cicatrizes. Basta que venha a chuva de uma lembrança, um comentário ou mesmo uma manifestação inocente e a cicatriz volta a pulsar.

Não importa que entre a marca no corpo e a fala que a ela se reporta tenham decorrido décadas, ela continua lá, atual, ardente e corrosiva. Não há corpo no qual esta ferida não deixe sua mancha, e não há tempo em uma única existência capaz de apagar seus efeitos.

Porque somos feitos de carne e desejo não é possível que se toque em um sem que o outro goze ou sofra.

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Bom Humor

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Bom humor no CO do hospital.

Sábado à tarde, 40 graus à sombra, Porto Alegre vazia e incandescente. O obstetra entra no CO, cumprimenta a enfermeira, suspira com desânimo e exclama:

– Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar sequestrando, mas estou aqui atendendo parto no verão.

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