Inculta e bela…

Não há porque esmorecer diante das necessárias críticas aos modismos e criações contemporâneas que atrasam o aprofundamento de ideias. Criticar o identitarismo é certo, assim como questionar a “cultura woke” ou o politicamente correto. Também é justo e lembrar que o Brasil é um país essencialmente mestiço, evitando assim o agravamento de tensões raciais. Certo também é responsabilizar a direita internacional por fomentar a divisão criada pelo identitarismo, cujo objetivo sempre foi criar guetos de identidade que sobrepujassem em relevância a luta de classes.

Com isso nos fragmentamos e, separados, somos facilmente controláveis. Nada é mais parecido do que um branco miserável e um negro excluído, ambos em luta contra ricos de qualquer cor ou ascendência.

Entretanto, estamos errando ao tratar a língua como uma obra acabada e estanque. Se vamos um dia usar pronomes neutros não será pela decisão de um grupo de notáveis, muito menos por seus arroubos de indignação. A língua é um organismo vivo e adaptável; maleável e evolutivo. Só o latim e o sânscrito não mudam, porque estão mortos e petrificados. A autoridade máxima para as mudanças de um idioma é o uso popular. Se for usado, se cair nas graças do povo, então terá valor, seguirá adiante e vai se fortalecer e prosperar. Se não for utilizado vira gracejo e se torna esquecido.

E de nada adianta reclamar. Não fosse assim ainda estaríamos usando “vosmecê” em nossas conversas – mesmo informais. Não fez diferença alguma que um catedrático de época distante achasse ridícula e violenta a forma sincopada que a substituiu, a doce e elegante “você”. A disseminação popular foi soberana.

Quando eu encontrava, na forma escrita ou falada, a expressão “a nível de” eu mentalmente gritava “em nível, em nível!!!”, mas hoje soa ridículo ficar apregoando esse preciosismo diante da disseminação dessa forma de falar tão comum aos políticos. O uso venceu a norma culta.

Se o “todes“, “amigues” e estas outras formas vão prosperar – ou não – dependerá dos falantes desse idioma apenas, e não será pela nossa infrutífera indignação diante das mudanças inexoráveis da língua.

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