Arquivo da tag: Fernando Pessoa

Inculta e bela…

Não há porque esmorecer diante das necessárias críticas aos modismos e criações contemporâneas que atrasam o aprofundamento de ideias. Criticar o identitarismo é certo, assim como questionar a “cultura woke” ou o politicamente correto. Também é justo e lembrar que o Brasil é um país essencialmente mestiço, evitando assim o agravamento de tensões raciais. Certo também é responsabilizar a direita internacional por fomentar a divisão criada pelo identitarismo, cujo objetivo sempre foi criar guetos de identidade que sobrepujassem em relevância a luta de classes.

Com isso nos fragmentamos e, separados, somos facilmente controláveis. Nada é mais parecido do que um branco miserável e um negro excluído, ambos em luta contra ricos de qualquer cor ou ascendência.

Entretanto, estamos errando ao tratar a língua como uma obra acabada e estanque. Se vamos um dia usar pronomes neutros não será pela decisão de um grupo de notáveis, muito menos por seus arroubos de indignação. A língua é um organismo vivo e adaptável; maleável e evolutivo. Só o latim e o sânscrito não mudam, porque estão mortos e petrificados. A autoridade máxima para as mudanças de um idioma é o uso popular. Se for usado, se cair nas graças do povo, então terá valor, seguirá adiante e vai se fortalecer e prosperar. Se não for utilizado vira gracejo e se torna esquecido.

E de nada adianta reclamar. Não fosse assim ainda estaríamos usando “vosmecê” em nossas conversas – mesmo informais. Não fez diferença alguma que um catedrático de época distante achasse ridícula e violenta a forma sincopada que a substituiu, a doce e elegante “você”. A disseminação popular foi soberana.

Quando eu encontrava, na forma escrita ou falada, a expressão “a nível de” eu mentalmente gritava “em nível, em nível!!!”, mas hoje soa ridículo ficar apregoando esse preciosismo diante da disseminação dessa forma de falar tão comum aos políticos. O uso venceu a norma culta.

Se o “todes“, “amigues” e estas outras formas vão prosperar – ou não – dependerá dos falantes desse idioma apenas, e não será pela nossa infrutífera indignação diante das mudanças inexoráveis da língua.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Racismo em Lobato

Não há dúvida alguma que Monteiro Lobato era racista. Se fosse questionado talvez batesse no peito e confirmasse com veemência. A única questão é situar seu racismo no tempo e no espaço. Naquela época o racismo era “científico” e atendia pelo nome de “Eugenismo”, que pretendia uma depuração da raça através do seu embranquecimento, até porque a raça negra era vista como inferior, menos apta, estúpida e adequada apenas ao trabalho braçal. Monteiro Lobato era entusiasta dessas ideias e ajudou a difundi-las.

Faz parte do progresso das ideias pousar o olhar sobre estas figuras históricas e mostrar suas falhas. O racismo de Monteiro Lobato, mas também de Fernando Pessoa, precisa ser exposto para que seja possível soterrar as ideologias supremacistas. A importância de ambos para a literatura vai continuar, mas não é justo manter este aspecto de seu trabalho e de suas vidas desconhecido, sem sofrer o julgamento da história.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Iconoclastia

images-17

Se é necessário jogar os velhos ídolos ao fogo na árdua tarefa de nós libertar de seu jugo sufocante, também creio ser fundamental fazê-lo de forma criteriosa.

Ainda considero válida a tese de que “as virtudes são do homem, os vícios de sua época”. Não há como criticar um personagem sem a necessária contextualização do sujeito no tempo e no espaço. Se não há “sujeito sem cultura, e cultura sem sujeito” então tudo o que somos surge dessa interação entre nossa subjetividade e o conjunto de valores que nos rodeiam no oceano de significantes e significados onde estamos submersos.

Por outro lado, o entendimento de figuras icônicas como sujeitos falíveis e limitados nos ajuda a humanizá-los. Tal tarefa é fundamental para que, assim identificados, possamos seguir seus ensinamentos com mais precisão. Enquanto forem divindades serão inatingíveis; ao nosso lado, passíveis de falhas e erros humanos, serão parceiros de travessia.

Entretanto, se posso perdoar a falta de amabilidade de Marx com seus filhos e seu caso extra conjugal, assim como as diatribes dos astros da TV ou do futebol, o mesmo não posso dizer de literatos cujas palavras escritas ferem preceitos básicos da civilidade e da dignidade humana. Por mais que sua genialidade transpareça e seja exaltada, e mesmo que as épocas sejam outras, a misoginia e o racismo de Fernando Pessoa ou Humberto de Campos são inaceitáveis e colocam a profundidade e dimensão de sua obra em questão. Se a imagem que fazem de negros e mulheres era tão diminutiva e preconceituosa, que outras falhas de percepção podem ser piores?

Perder um ídolo é como arrancar uma parte de si mesmo; felizmente uma porção de nós que ainda nos prendia às fantasias e idealizações mais infantis.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos