Quando o inverno chegar

Quando o inverno chegar, passarei minhas letras tortas ao papel e por todas as horas do dia, inclusive quando o sono me alcançar e pelo chumbo das pálpebras me passar uma rasteira. Até mesmo quando a fome corroer minhas entranhas com sua acidez; os sonhos serão meu alimento. Não deixarei nenhuma lembrança intocada e nenhuma memória infensa à volúpia dos olhos, muito menos permitirei que as ideias, em especial as incômodas e as estúpidas, permaneçam reclusas em minha mente. Quando o inverno chegar, oferecerei a elas a liberdade que me faltará e o espaço que desejaria. Darei às minhas palavras a alforria, garantindo a elas o que meu corpo perdeu.

Jean Simon Laurent, “Lettres du Cachot” (Cartas do Cárcere), Ed. Paschoal, pag 135

Jean Simon Laurent foi um escritor francês nascido em Nouakchott na Mauritânia em 1905. Filho de pai militar francês e mãe mauritana, chegou a Paris em 1910 quando seu pai foi transferido para o Ministério da Defesa francês. Cursou direito em Paris e formou-se com láurea em 1931, vindo a trabalhar com direito migratório. Especializou-se na questão da Argélia e viajou diversas vezes à colônia francesa, emprestando total solidariedade à causa argelina. Tornou-se amigo pessoal de Albert Camus e grande divulgador da Obra de Frantz Fanon. Mestiço, homossexual, anticolonialista,e comunista foi preso em Marselha em 1957, acusado de auxiliar na entrada ilegal de magrebinos na França. Escreveu vários livros e romances sobre os direitos dos imigrantes, e na prisão escreveu “Lettres du Cachot”, uma espécie de “De Profundis” da língua francesa, onde fala de suas paixões, suas lutas e sua história como ativista na clandestinidade, não se furtando de falar abertamente de sua homossexualidade, numa época em que esta orienração ainda era cercada de tabus e violência. Morreu de tuberculose na prisão em 1960, no mesmo ano da morte de seu dileto amigo Albert Camus.

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Arquivado em Contos, Pag 135

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