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Leah

O indicador no canto inferior direito do computador apontava 31 de dezembro, anunciando os estertores do ano que se preparava para findar. Solitária em sua casa, Leah terminara as tarefas de limpeza e se preparava para uma noite solitária na frente da TV. Resolveu como última ação, olhar sua caixa de e-mails. No meio de uma lista infindável de “promoções imperdíveis”, encontrou a mensagem de Karen, uma amiga de muitos anos. Abriu o e-mail e leu a curta mensagem.

Terminou de ler o e-mail e manteve os olhos parados na fissura entre o marco da porta e a parede descascada de seu velho apartamento. Sentada à frente da tela do computador e tendo a janela mais ao lado, podia ver os carros desviando uns dos outros na sua frenética busca por espaço, tentando chegar em casa para a ceia de ano novo. Nada naquela tarde prenunciava o que ocorreria a seguir. A notícia a pegou de surpresa, como uma tempestade de turbulências e tremores que aparece no meio de um dia normal de verão.

“Patrick está morrendo”, dizia o texto curto que ainda jazia parado na tela do computador. Karen obteve informações de seu estado por intermédio de amigos comuns. “Leucemia, estágio final”, continuava o texto, que terminava com um “achei que você gostaria de saber”. Os sentimentos dentro de Leah estavam em ebulição, num profundo contraste com sua face inexpressiva e o olhar que teimava em se manter fixado na pequena rachadura ao lado do marco da janela, como se a procurar algo, escondido ali, que pudesse lhe dizer como deveria reagir.

“Patrick sempre foi um covarde, um traidor”. Era só o que podia pensar. “Não havia em seu ser nenhuma fibra de virtude, nenhuma célula capaz de metabolizar honra e respeito. Todos os humanos recebem, pelo menos uma vez na vida, um teste para provar seu caráter. Patrick teve em suas mãos o grande desafio, e falhou miseravelmente. Diante do júri, sabendo que seu depoimento seria fundamental para estabelecer a verdade, escondeu-se, mentiu com seu silêncio, deixou-se covardemente silenciar, por medo de que a verdade o pudesse comprometer”. Leah ainda tentou fixar em seus olhos, enquanto lhe faziam a pergunta que mudaria o destino dela, mas ele baixou a cabeça diante do seu olhar. “Um covarde, cuja mentira flui por todos os poros”.

Depois de alguns instantes tentando descobrir o que pensar e fazer, abriu sua bolsa e dela retirou o celular. Com rápidos golpes na tela descobriu o nome de seu ex-amigo, que depois desses anos todos ainda dormia na sua lista de números. Ficou olhando para os dígitos à sua frente por alguns momentos até que seu dedo pressionou a combinação numérica. Não era justo que ele morresse sem que fosse possível dizer do desprezo profundo que sentia por ele. Era preciso dizer que seu silêncio, sua mentira muda, sua covardia a haviam marcado por todos esses anos. Queria lhe dizer o quanto de mal havia lhe causado, não apenas com sua separação e os danos financeiros, mas também por sua autoestima destruída, sua descrença na justiça e sua falta de fé na humanidade. Patrick simbolizava o que de pior houvera em sua vida. Uma amizade destroçada pela fraqueza de caráter e a falta de escrúpulos. Uma vida cheia de projetos jogada no lixo, desperdiçada como um papel sujo.

Depois de alguns segundos, ouviu o sinal de chamada. Alguém atendeu do outro lado, uma mulher. Uma namorada, enfermeira, familiar; já não tinha nenhuma importância. Leah disse que era uma “velha amiga” e desejava falar com Patrick. A mulher disse que ele estava muito fraco, mas colocaria o telefone em seu ouvido. Ouviu o som do telefone tocar o ouvido de Patrick e sua voz, mais grave do que se acostumara a ouvir.

– Olá, quem é?

Leah manteve-se em silêncio por instantes, tentando entender seus sentimentos. Do outro lado da linha estava o homem que mais odiou em toda sua vida, um amigo cuja amizade foi degenerada por acontecimentos desastrosos, mas que traiu sua confiança e sua amizade, deixando caírem sobre ela as culpas que, na verdade, lhe pertenciam. Por isso Leah teve a vida destroçada e os seus sonhos sepultados. Era o momento de dizer a ele o quanto de dor ainda carregava, e o quanto a morte prematura que ele enfrentava iluminaria seu espírito. Com voz quase sussurrava, ela respondeu:

– Sou eu, Leah.

Ele ficou em silêncio, talvez chocado pela surpresa. Um tempo depois, respondeu.

– O que deseja Leah?

Agora as lágrimas tomavam conta do seu rosto, correndo livremente pelas suas bochechas rosadas e caindo como uma fina cachoeira de ressentimento sobre o teclado do computador. Suas mãos tremiam e seus dentes crispavam, mas não conseguia dizer palavra alguma. Finalmente, após respirar profundamente, respondeu…

– Apenas desejar um feliz ano novo. Boa sorte.

Não esperou sua resposta e desligou. Colocou as mãos na cabeça e chorou profusamente. Talvez, seu desejo de um ano novo feliz tenha sido a mais sofisticada forma de crueldade que foi capaz de formular. Uma vingança dura e quase tão silenciosa quanto aquela da qual foi vítima.

Edgar Kensington Moore, “Happy New Year” da coletânea “Tales from the Fireplace” (Contos da Lareira), Ed. Rutherford, pag. 135

Edgar Kensington Moore foi um escritor britânico nascido em Sheffield em 1937. Estudou artes cênicas na Escola de Teatro William Shakespeare, na sua cidade natal, ainda quando cursava o ensino médio. Aos 21 anos casou-se com Melinda Fergusson e foram morar em Manchester, onde criaram seus três filhos. Foi em Manchester que Edgar produziu seus livros, em especial seus contos sobre a classe operária inglesa. Em “Tales from the Fireplace”, seu último livro publicado, ele mostra uma coletânea de contos relacionados à solidão das grandes cidades, sendo cada capítulo dedicado aos pequenos dramas cotidianos que surpreendem os solitários, desde o anúncio da morte de um desafeto, um bolo de aniversário para tia Betsy e até um acidente doméstico com o gato “Sparky”. Em todos os contos a temática é a dor e a angústia que se encontram acompanhadas da solitude, a dolorosa falta de um ombro para apoiar nossa cabeça ou para secar as inevitáveis lágrimas. Todas as suas personagens são mulheres, desde adolescentes até as idosas que apenas esperam a morte. É possível que este livro tenha como inspiração sua própria mãe, cujo marido faleceu na Batalha da Inglaterra em 1940, fazendo da viuvez precoce que testemunhou em sua mãe uma cicatriz em sua própria vida. Sua mãe criou seus dois filhos (Edgar e seu irmão mais velho George) solitariamente e jamais se envolveu novamente com homem algum. Pouco antes de morrer em 2020, Edgar contou que ver sua mãe sozinha escutando o rádio, costurando e ajeitando os filhos para a escola o marcou profundamente, em todos os sentidos, e talvez tenha sido por isso que escolheu o ofício da escrita, onde a solidão é a companheira mais constante. Edgar faleceu em 2020 de pneumonia, aos 83 anos, em sua casa em Manchester. Deixou a mulher Melinda e os filhos Harvey, Jeffrey e Andrew.

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Sentido da Vida

No dia seguinte à minha morte, o sol vai nascer e se pôr sobre esta colina, pequena Neesha, inobstante o fato de que eu não estarei mais aqui para admirar sua curva graciosa na abóbada celeste e seu mergulho glorioso no horizonte. Este será, sem dúvida, o maior ensinamento que o universo dará à minha arrogância: as coisas não precisam de mim, e tudo continuará girando sem que eu perceba.

Joseph Blaszczykowski, “Za górami słońce nie zachodzi” (Além da Montanha o Sol nunca se Põe), Ed. Zvedia, pág. 135

Joseph “Blatsch”, como assinava suas obras, nasceu em Cracóvia em 1926 e morreu em Breslávia em agosto de 2024 aos 98 anos. Na juventude lutou na União da Luta Armada (posteriormente Exército da Pátria) em ações de sabotagem contra as forças nazistas em sua cidade natal. Nesse período, junto com seus irmãos, auxiliou na interrupção das linhas de abastecimento alemãs para a Frente Oriental, danificando significativamente os transportes ferroviários das tropas alemãs. Com apenas 16 anos ficou conhecido como um forte e destemido guerrilheiro antinazista. Foi um dos homens mais procurados pelo exército de Hitler no período da ocupação, ficando conhecido por muitos como o “Lobo da Cracóvia”. Quando a guerra terminou, mudou-se para Breslávia, cidade recém-incorporada à Polônia após a expulsão da população alemã, onde ingressou no curso de história, graduando como mestre em história europeia. Seu primeiro livro foi sobre a formação do povo polonês. Neste livro “Formacja narodu polskiego” (A formação do povo polaco) ele explica que os germânicos migraram da área por volta do ano 500 da nossa era, durante a chamada idade das trevas. As áreas com florestas mais densas situadas ao norte foram ocupadas pelas populações bálticas. De acordo com estudos arqueológicos, os grupamentos de origem eslava ocupam a região da atual Polônia por mais de 1500 anos. Em 1952 ele escreveu seu primeiro livro de ficção histórica, “Buty Führera” (As Botas do Führer) onde relata o encontro e a longa conversa de um sapateiro de Varsóvia com Adolf Hitler, durante a ocupação da Polônia, na ocasião em que este foi chamado para consertar as botas do chefe do III Reich. O livro alcançou um grande sucesso e foi vertido para o teatro em 1960. Seguiram-se vários livros de ficção sobre a temática da guerra, mas também da solidão, da pobreza, da ascensão do movimento Solidariedade liderado por Lech Wałęsa, sobre a decadência capitalista, a guerra e por fim seu canto do cisne, “Além da Montanha o Sol nunca se Põe”, onde o tema é a velhice, a senectude e a morte. Neste livro ele conta a história de um velho vendedor de livros usados chamado Krzysztof Goralski que compra um livro antigo de uma garota indiana chamada Neesha. Folheando suas páginas ele encontra uma nota manuscrita, e a partir deste momento, profundamente impactado por seu conteúdo, ele fecha sua loja e empreende uma busca insana e obsessiva para reencontrar a garota. O conteúdo da nota jamais é revelado em todo o transcorrer da epopeia, mas fica claro que a busca de Krzysztof é pelo sentido de si mesmo, de sua vida e seu significado mais profundo. O livro, apesar de ter sido escrito a partir de 1980, foi publicado somente em 2023 a pedido do autor, para que esta fosse sua derradeira obra, e para que pudesse acrescentar ao personagem central da trama, o livreiro Krzysztof, os detalhes do espírito e a visão de mundo de um idoso, algo que só o trânsito pela velhice lhe garantiria. Joseph Blaszczykowski era viúvo de Maria Kristeva e teve 3 filhos: Piotr, Fiódor e Paweł e 7 netos. Está enterrado em Cmentarz Grabiszyński, na Breslávia.

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O Martírio da Verdade

Já tentou entender o horror que é para um artista quando o único tradutor possível para os rabiscos e ideias que escreve ou desenha é ele mesmo? Consegue imaginar a solidão de ser o único falante de um idioma que nunca existiu para mais ninguém? Porventura já procurou saber a dor de ser o guardião de um tesouro ameaçado, e apenas você tem a chave do cofre que o encerra?

Meu irmão Mikael, durante seu último surto, mostrava com a ponta do indicador um minúsculo ponto localizado entre os olhos e me indagava: “Você consegue imaginar a sensação de ter todo o conhecimento do universo concentrado bem aqui, uma matéria tão densa e tão pesada que se torna impossível de conter? Consegue entender a dor de saber o que a ninguém é dado conhecer? Percebe a solidão a que a verdade me condena?”

Não, Mikael, dessa dor só você pode falar. A mim não foi dado ter essa clarividência; minhas verdades são minúsculas, pessoais, passageiras e fugazes. Mas, se me fosse oferecido o benefício da escolha, ficaria com a mediocridade das minhas pequenas mentiras. Não me vejo capaz de suportar o martírio das verdades cruas e brutais.

Wolfgang Hübner, “O Imperador da Solidão”, ed. Dexter, pág. 135

Wolfgang Hübner é um escritor austríaco, nascido em Viena em 1º de janeiro de 1900. Cresceu na cidade que era o centro da cultura europeia no início do século XX e foi testemunha ocular dos acontecimentos determinantes para a ascensão do nazismo. Graduou-se em literatura na Universidade de Viena e foi professor de escolas secundárias durante boa parte de sua vida. Dedicou-se à literatura escrevendo colunas sobre arte e política nos jornais vienenses e passou posteriormente a se dedicar aos romances. Seu livro de estreia foi “Bleib zu Hause, geh nicht raus” (Fique em casa, não saia às ruas) onde descreve a agitação na sociedade alemã na década de 20 relacionada ao crescimento da extrema-direita. Escreveu 10 romances no período entre a Primeira Guerra Mundial e o fim da segunda, a maioria deles ambientados na Áustria ocupada e na crueza da luta pela sobrevivência. Em “O Imperador da Solidão” ele descreve as agruras do jovem serralheiro Amadeus que busca fugir da ocupação alemã na Áustria em direção à Suíça, carregando consigo o irmão esquizofrênico Mikael, que ficou sob seus cuidados após a morte dos pais e da irmã Frida. Wolfgang Hübner morou a vida inteira em Viena, nunca teve filhos e morreu em 1951, de câncer na laringe.

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Paralaxe

Mesmo quando o assunto é uma improvável viagem espacial, a conquista de Constantinopla, a nova teoria da evolução ou os temperos prediletos da cozinha da Mongólia, qualquer coisa que escrevemos é essencialmente sobre nós mesmos. Nada do que sai das nossas palavras foge da formatação produzida por nossas experiências pessoais e a impregnação emocional que elas produzem em nossa personalidade. Não existem opiniões isentas, infensas às emoções e sentimentos de quem as exprime. Essa “neutralidade” técnica é uma ficção, pois se basearia na existência de fatos objetivos, capazes de fugir à necessária interpretação dos nossos sentidos

Existem, em verdade, sujeitos que se preocupam em acolher várias abordagens para um mesmo fato, reconhecendo-os como válidos e coerentes, o que não pode ser confundido com esta pretensa neutralidade. Por certo que aqui se encontra a sabedoria de Heckenhorn*, que deveria ser transmitida às novas gerações que estão chegando às escolas a partir do século, que faz pouco deu seus primeiros vagidos**.

Os estudos da alma humana, em especial estas produzidas pelo médico austríaco Siegfried Freud*** talvez possam nos oferecer novas perspectivas para o estudo do comportamento humano e as motivações recônditas das atitudes e ações aparentemente contraditórias e paradoxais. Vale a pena olhar com atenção o manuscrito recentemente lançado “Três Ensaios sobre a Sexualidade” e os estudos que ele realizou com as doentes histéricas, em especial os relatos da enfermaria de Charcot****.

Herbert Finkler, “Verhaltenshandbuch für den Mann des 20. Jahrhunderts” (Manual do Comportamento para o Homem do Século XX), ed. Prophezeiung, pág 135

Herbert Klaus Finkler foi um escritor alemão nascido em Düsseldorf em 1866, filho de pais agricultores e fabricantes de vinho. Muito cedo se destacou pela sua capacidade de dominar muitas línguas, aprendendo além do alemão o inglês, o latim, o francês, o italiano, o russo e o polaco. Em função do crescimento da vinícola do seu pai com as vendas realizadas para os países vizinhos, ainda jovem acumulou uma considerável fortuna, o que o possibilitou dedicar-se à Academia e à literatura. Em função disso, desenvolveu uma cultura baseada na leitura de clássicos, em especial Friedrich Schiller, que o motivou a escrever sua tese sobre a formação da língua alemã na Universidade de Strasbourg. No seu livro “Manual do Comportamento para o Homem do Século XX” ele descreve uma série de ações e comportamentos relacionados ao que ele descreve como “homem moderno” no campo da sexualidade, fidalguia, honra, mérito e sua relação com o meio ambiente em uma Alemanha que iniciava seu processo de industrialização e urbanização. Morreu em 1929 em Potsdam de causas naturais.

* Heckenhorn foi um pedagogo alemão que descreveu um método crítico de educação baseado na apresentação de “paralaxes”, perspectivas diferentes da mesma realidade. Em função disso, foi homenageado com o “cubo de Heckenhorn”, um objeto que muda de forma na medida em que sofre um giro sobre seu eixo principal.

** O “novo século” que há pouco havia iniciado era o século XX. Herbert Finkler escreveu seu primeiro livro com projeções para o século XX em 1890, quando apresentou sua ideias sobre o que se poderia esperar para os próximos 100 anos. Acreditava ele na descoberta de civilizações avançadas na Amazônia, populações nativas da Lua, viagens para outros planetas, bicicletas voadoras, cura da tísica (doenças consumptivas, em especial a tuberculose) e, por certo, acreditava na eugenia, propondo a criação de uma raça única e homogênea para todo o planeta.

*** O autor certamente se referia a “Sigmund” Freud, o médico austríaco, mas inadvertidamente trocou seu nome para *Siegfried*, apesar de conhecer a obra do pai da psicanálise, visto que citou este autor no mesmo parágrafo. Em verdade, “Siegfried Mallmann” era o nome de seu padrasto, homem que se casou com sua mãe após a morte misteriosa de seu pai ao cair dentro de um poço em sua propriedade. Suspeitou-se desde o princípio do vizinho, Siegfried, pois este há muito cortejava a mãe de Herbert. O vizinho foi a julgamento e posteriormente inocentado, mas Herbert confessou a muitos de seus amigos que desconfiava que Siegfried havia cometido o crime, ou ao menos havia participado do seu planejamento. Talvez este seja um real ato falho que apareceu na escrita de Herbert, pois no início do século XX Freud já era conhecido como o “pai” de uma nova ciência da alma.

**** Em 1885, Freud ganhou uma bolsa e uma licença do hospital onde atuava para estudar em Paris por 6 meses. Lá trabalhou com Jean-Martin Charcot, um respeitável médico neurologista do hospital psiquiátrico Saltpêtrière. Charcot estudava paralisias histéricas com o uso de técnicas de hipnose, o que marcou Freud profundamente, e contribuiu muito para que Charcot se tornasse um paradigma profissional para o jovem médico que recém iniciava seus estudos sobre as histerias.

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Sil

Os aplausos ainda eram ouvidos no majestoso salão de conferências do hotel enquanto o representante Benjamin saía ladeado pelos seus assessores e por Jerry, seu segurança pessoal. Ao se dirigir ao hall principal do hotel pelo corredor lateral, encontrou um jovem franzino e bem-vestido exatamente à sua frente, impedindo sua passagem.

– Silmara Bürling!! – falou o jovem.

Ele tinha os punhos cerrados, os lábios crispados, o rosto contraído e o olhar cravado num ponto fixo entre a calva e as sobrancelhas de Benjamin. Esperou alguns segundos pela reação ao nome que havia pronunciado. Diante do silêncio, finalmente perguntou:

– Você conhece minha irmã. Sei disso.

– Desculpe, quem é você? – disse Benjamin.

– Edgar Bürling. Sou o irmão mais novo de Silmara Bürling. Sei que você a conhece e sei sobre vocês. Em verdade sei tudo o que ocorreu, mas quero que você diga na minha cara a sua versão da história.

– Não sei do que você está falando. Por favor, não estou para brincadeiras. Com licença…

Afastou com um gesto brusco o corpo delgado do seu interlocutor da trilha vermelha do tapete do corredor. O discurso inflamado e passional diante da multidão que acabara de lançar seu nome na disputa pela liderança do partido ainda ecoava pelas paredes do auditório, mas Benjamin se encontrava nitidamente inquieto e apressado para tomar um banho antes de sair para o coquetel da cúpula partidária que ocorreria mais tarde.

– Eu sei do bebê, disse ele.

O futuro primeiro-ministro interrompeu seu rumo e virou seu corpo em direção ao jovem.

– Não sei do que você está falando. Você deve estar me confundindo, rapaz. Passe bem.

Continuou sobre a trilha vermelha do tapete do corredor por mais alguns metros, sem olhar para trás. Enquanto ele caminhava com passos firmes, o jovem se manteve estático.

– Betsy!!

Gritou o nome, obrigando o político corpulento a se virar, um pouco antes de chegar à curva que levaria ao hall central do hotel.

– Betsy é como você a chamava. Ela tem direitos, e você não pode impedi-la de nada.

– Pela última vez, não sei do que você está falando. Você está me confundindo, e se insistir em me assediar serei obrigado a chamar a segurança do hotel.

O jovem se manteve parado, sem mover um músculo sequer, olhando firme para o homem que viera encontrar, enquanto via seu corpo desaparecer ao virar no fim do corredor. Jerry por fim se aproximou. Benjamin acenou para o segurança com a mão espalmada em um abano rápido.

– Deixe-o; ele se confundiu.

Entrou no elevador e apertou o 12. Pensou ainda em seu discurso, e o quanto seria custoso suportar os ataques que viriam dos opositores na longa disputa que se aproximava, mas também temia pelo fogo amigo, os inimigos de dentro do partido, em especial aqueles que não se furtavam em dar tapinhas nas costas enquanto tramavam para derrubá-lo do posto de liderança. Escutou o estalido da porta do elevador se abrindo e seguiu em direção ao seu quarto. Tirou do bolso do terno o cartão magnético para abrir a porta do quarto e viu a luz verde na maçaneta anunciar que estava destravada.

Sentou-se na cama e colocou a mão no bolso interno do casaco. Tirou o celular para confirmar o horário e calculou o tempo do banho e da troca de roupa. Ergueu-se da cama e segurou sua carteira com as duas mãos. Pegou o cartão de crédito e colocou sobre o criado mudo. Na ranhura da carteira onde estava o cartão retirou uma pequena fotografia. Nela havia a imagem de uma moça loira, cabelos soltos, sorriso tímido. No verso da fotografia miúda pôde ler as três letras desenhadas.

“SIL”…

Arthur Sutherland-Bell, “Power and Lust”, ed. Manchester Press, pág 135

Arthur Sutherland-Bell, mais conhecido como Arthur Bell, é um jornalista e escritor escocês. Nascido em Aberdeen em 1969, estudou jornalismo e depois sociologia em Glasgow. Aos 30 anos escreveu seu primeiro livro, um romance histórico baseado nos acontecimentos ocorridos na guerra contra a coroa britânica em 1745, chamada de “Segundo Levante Jacobita”, cujo objetivo era reconduzir a Casa de Stuart ao trono através de Charles Edward Stuart, neto de Jaime II de Inglaterra, deposto pelo Parlamento durante a Revolução Gloriosa. Depois desse livro lançou mais dois romances que tiveram enorme sucesso editorial: “In bed with the Queen” e “Bloody Rainbow”, que virou série de TV na BBC com Mary Hildegard no papel da espiã que colocou a coroa britânica em perigo. Seu último livro foi exatamente “Power and Lust”, outro mega sucesso de vendas que dizem ser inspirado nos casos e romances do agora ex-primeiro-ministro Boris Johnson, fato negado sistematicamente pelo autor. Na trama, o representante Benjamin Jenkins (B. J., mais uma coincidência?) é conduzido à liderança do partido e posteriormente ao cargo máximo do parlamento inglês. Entretanto, se vê envolvido em uma trama que inclui chantagem, sexo, morte e as entranhas apodrecidas da política no coração decadente do império inglês. Arthur Bell mora em Edimburgo.

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Bajuladores

Meu único preconceito inamovível é com aqueles que me elogiam. Não aceito esse mau gosto, não compro essa mentira, não engulo essa farsa, e muito menos fui feito para ser elogiado, mas para ser odiado ou temido. Sequer admito que ofereçam a mim qualquer pretensa virtude. Sou o pior escarro, o mais grudento e fétido; sou o pus rançoso e a ferida viva. Sou o erro da criação e o aborto redivivo. Odeio a fraqueza de espírito e os bajuladores que, ao meu ver, nada mais merecem do que a morte.

Jules Bertrand D’Amicci, “Histoires d’un Amour Parfait” (Histórias de um amor perfeito), ed. Saint Clair-Paris, pag. 135

Jules D’Amicci é um poeta e novelista francês nascido em Lyon em 1959. Desde cedo se dedicou ao estudo de letras e com 22 anos lançou seu primeiro livro, “Étoiles”, que venceu o prêmio de jovens escritores de sua cidade. Posteriormente, já vivendo em Paris e estudando na Sorbonne, começou a trabalhar na redação do Jornal Le Monde, onde trabalhou por 35 anos, primeiro como revisor, depois como editor de texto, redator, jornalista e até hoje como colunista. É militante do partido socialista (PS) francês desde 1982, tendo já exercido funções administrativas na instituição. No romance “Histórias de um amor perfeito” ele narra a história de Jadelle e Gaspar. Ela, uma executiva da Dupont, e ele garçom de um restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense, cuja voz interior abre o livro logo nas primeiras páginas, revelando uma violência insuspeitada por trás da timidez aparente. O destino (a intervenção de Gaspar na briga com o namorado no restaurante) os lançou numa espiral destrutiva de amor. A trama envolvente aos poucos revela a personalidade doentia e perversa dos personagens, envoltos em capas ilusórias de humildade e timidez. Quando a paixão entre ambos explode, brotam também na pele as gotas ácidas de ressentimento, rancor e ódio, curtidas por décadas de recalque e frustração. A história de ambos, como Bonnie e Clyde em Paris, nos permite refletir sobre as armadilhas criadas por fachadas dóceis que abrigam feras e monstros com almas destroçadas. Jules D’Amicci mora em Paris com a atriz Anette Bettancourt e seus dois filhos, Jean e Marcel.

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Quando o inverno chegar

Quando o inverno chegar, passarei minhas letras tortas ao papel e por todas as horas do dia, inclusive quando o sono me alcançar e pelo chumbo das pálpebras me passar uma rasteira. Até mesmo quando a fome corroer minhas entranhas com sua acidez; os sonhos serão meu alimento. Não deixarei nenhuma lembrança intocada e nenhuma memória infensa à volúpia dos olhos, muito menos permitirei que as ideias, em especial as incômodas e as estúpidas, permaneçam reclusas em minha mente. Quando o inverno chegar, oferecerei a elas a liberdade que me faltará e o espaço que desejaria. Darei às minhas palavras a alforria, garantindo a elas o que meu corpo perdeu.

Jean Simon Laurent, “Lettres du Cachot” (Cartas do Cárcere), Ed. Paschoal, pag 135

Jean Simon Laurent foi um escritor francês nascido em Nouakchott na Mauritânia em 1905. Filho de pai militar francês e mãe mauritana, chegou a Paris em 1910 quando seu pai foi transferido para o Ministério da Defesa francês. Cursou direito em Paris e formou-se com láurea em 1931, vindo a trabalhar com direito migratório. Especializou-se na questão da Argélia e viajou diversas vezes à colônia francesa, emprestando total solidariedade à causa argelina. Tornou-se amigo pessoal de Albert Camus e grande divulgador da Obra de Frantz Fanon. Mestiço, homossexual, anticolonialista,e comunista foi preso em Marselha em 1957, acusado de auxiliar na entrada ilegal de magrebinos na França. Escreveu vários livros e romances sobre os direitos dos imigrantes, e na prisão escreveu “Lettres du Cachot”, uma espécie de “De Profundis” da língua francesa, onde fala de suas paixões, suas lutas e sua história como ativista na clandestinidade, não se furtando de falar abertamente de sua homossexualidade, numa época em que esta orienração ainda era cercada de tabus e violência. Morreu de tuberculose na prisão em 1960, no mesmo ano da morte de seu dileto amigo Albert Camus.

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A Serviço do Imperador

Sim, Haruki, eu escrevo sobre qualquer coisa, todos os dias. Tão logo um pensamento galopa pelas ondas escuras do meu cabelo, ele cai à minha frente vertido em tinta. Escrevo qualquer coisa que se possa acomodar entre as letras, qualquer lembrança que faça cócegas pretéritas, qualquer ideia, todas as percepções, todas as imagens vívidas do passado, de qualquer lugar, modo e circunstância. Faço isso de forma compulsiva, metódica e premente, mas não de uma maneira laboriosa e dolorida. Porém, reconheço seu caráter exonerativo; escrevo como quem aperta um abscesso cuja dor alivia quando se abre para o ar.

Escrevo ainda mais pela premência da morte, o desenlace definitivo, o fim que me aguarda num ponto adiante qualquer no traçado da vida. Escrever passou a ser meu contrato para driblar o esquecimento inexorável que me aguarda. Paradoxalmente, enquanto a vida se restringe às quatro paredes desta cela, parece que nunca me aventurei tão distante nas minhas lembranças; a constrição do corpo abriu um portal de memórias que a pletora de liberdade não me oferecia. Como um cego que agora saboreia com requinte os ruídos e cheiros – outrora subtraídos pela volúpia da luz – minha fantasia corre solta, minhas lembranças são vívidas e claras e minha saudade colore de dor cada reminiscência. Nunca fui tão longe sem precisar me mover.

Pela nossa minúscula janela gradeada vejo a neve vergar o galho da cerejeira no Kōkyo Higashi Gyoen, o parque Imperial, mas só o sei porque a enxergo todos os dias nas minhas memórias. Para mim o peso dos flocos dobrando os galhos finos é tão real quanto o som da sirene avisando a chegada da noite ou o barulho metálico das trancas nas portas de ferro.

Não me pergunte, Haruki, por que escrevo. Escrever é o que ainda me permite respirar.

Tatsuki Shinkai, “A Serviço do Imperador” (天皇陛下のお仕えに), Ed. Orient Press, pag. 135.

Tatsuki Shinkai é um escritor japonês nascido em 1918 em Osaka e que lutou na guerra contra os Estados Unidos. Formou-se em literatura mas logo depois alistou-se no exército Imperial japonês no esforço de guerra. Patriota e entusiasmado com o expansionismo japonês na Ásia, fazia parte da tripulação do porta-aviões Akagi que foi afundado pelos navios americanos na batalha de Midway. Conseguiu saltar do navio em chamas e foi resgatado pelos inimigos, enviado posteriormente como POW (prisioneiro de guerra) para os Estados Unidos, onde permaneceu em um campo de prisioneiros de guerra no Wisconsin até o final da guerra. Tatsuki foi libertado em 1946 e voltou para sua cidade Osaka, encontrando-a parcialmente destruída. Durante os anos em que esteve prisioneiro escreveu um diário em formato de diálogos com seus parceiros de cela, onde aborda assuntos como o sentido da vida, a liberdade (e sua ausência), honra, guerra, pátria e fé. Negou-se a publicar seus diários durante os 20 anos que se seguiram à derrota japonesa, e só após a morte de seus pais em 1966 resolveu entregar seus manuscritos a uma editora japonesa. Seu livro obteve um enorme sucesso no Japão, mas também nos Estados Unidos, tanto pelo relato de sua própria experiência como prisioneiro de guerra quanto por trazer à tona, num capítulo à parte, o testemunho de nipo-americanos que conheceu depois da guerra e que haviam sido internados em campos de concentração nos Estados Unidos apenas por sua ascendência — um episódio distinto do seu próprio cativeiro, mas que o livro também denuncia com veemência. Depois do sucesso do livro, este foi vertido para o cinema, numa produção japonesa de 1973 do diretor Hayato Watanabe e com Fukuyo Hiroshi no papel do soldado Tatsuki. O famoso diretor Akira Kurosawa refere que o clima melancólico e intimista deste filme, que aborda o trauma e a vergonha da derrota na guerra, produziu enorme influência em sua obra cinematográfica. Posteriormente, Tatsuki mudou-se para os Estados Unidos para dar aulas de literatura japonesa em Princeton e, a partir desta segunda fase em sua escrita, produziu vários outros ensaios, crônicas e romances, que fizeram grande sucesso entre o público americano. Perto de sua morte revelou que os personagens do seu livro “A Serviço do Imperador” (天皇陛下のお仕えに) pediram que seus nomes verdadeiros jamais fossem revelados, pois que suas histórias poderiam causar vergonha para suas famílias, promessa que Tatsuki cumpriu até sua morte em janeiro de 2010, em Portland, Oregon. Tatsuki nunca se casou e não deixou filhos.

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O bolor do pão

Igor Sidorov, preso na brutal prisão siberiana de Tobolsk pela recusa em pagar os pesados impostos que ameaçariam a própria sobrevivência de sua família, encontrou seu companheiro de cela Fiódor Vasilev, um dos presos mais antigos de Tobolsk. Este era um homem de feições rudes, cabelos e barba negra, testa olímpica e nariz bem desenhado. Seu encarceramento foi causado por assoviar a Internacional durante uma parada marcial da Guarda Imperial russa, considerado como um desrespeito e uma atitude conspiratória contra o Czar e sua família. Igor puxou a cadeira à frente de Fiódor parecendo angustiado. Este manteve-se atento ao pedaço de jornal que tinha à sua frente.

– Tovarish Fiódor, sabe das notícias do “salão”?

“Salão” era como os presos se referiam à sala contígua ao escritório do diretor, um amplo ambiente de paredes de pedra cortada, escuro e frio, onde o diretor recebia de forma ameaçante os recém-chegados na famosa prisão czarista.

– Nada me foi dito, Igor. Se tens algo a me falar, desembuche ou me deixe desfrutar o jornal e o bolor deste pão azedo, cortesia de Nicolau.

– O diretor Petrov foi deposto, tovarish. Demitido. Afastado por ordens diretas do Czar. Dizem que essa atitude tem a ver com o escândalo das bebidas e a relação disso com Viktor Gruchenko. Corrupção, troca de favores. Sergei me disse que do setor norte é possível observar as carruagens e a guarda postada em frente ao portão principal. Nosso martírio pode estar chegando ao fim, Fiódor. As torturas, os espancamentos, as mortes terão um fim!!

Com os olhos marejados de emoção, agarrou os braços do amigo e os sacudiu, imaginando ser possível injetar-lhe ânimo através dos dedos descarnados que seguravam a roupa suja e puída do companheiro. Fiódor tomou a última gota de chá e retirou com a ponta dos dedos a mancha esverdeada que cobria seu pedaço de pão. Olhou seu amigo no fundo de seus olhos negros e falou com voz pausada:

– Esse pão não fica menos infectado apenas por tirar o bolor que o cobre; isso apenas diminui nosso nojo do visível, mantendo intacto o universo invisível de impurezas que o contaminam. Tirar um diretor corrupto apenas nos oferece a ilusão de um benefício, o espaço de alívio entre o horror de agora e o próximo espancamento. Porém, a dura realidade é que se mudam as moscas para que a merda permaneça intacta.

Cruzou as mãos sobre a mesa de madeira escura e, ainda olhando firme nos olhos de Igor, completou:

– Não se deixe enganar pela ilusão dos sentidos mais grosseiros, tovarish. Somente teremos paz quando não houver mais prisões e não houver mais injustiça, e não apenas por melhorarem a índole dos nossos carrascos.

Levantou-se e saiu a caminhar em direção à porta. De longe, Igor ainda pode escutar a música que Fiódor assobiava. Sem dúvida, a Internacional.

Bóris S. Gregoriev, “ночь волков” (A Noite dos Lobos), ed. Vostok, pág. 135

Bóris Sergueievich Gregoriev é um escritor russo dedicado aos romances históricos, em especial aos acontecimentos do final do século XIX que culminaram com as revoluções proletárias de 1905 e 1917, a queda do Czar e a execução de sua família. O livro “A Noite dos Lobos” trata da fuga de prisioneiros da famosa prisão de Tobolsk, por onde também passou, a caminho do cativeiro em Omsk, o escritor Dostoiévski. No livro um grupo de prisioneiros políticos, liderados por Fiódor Vasilev, fogem da prisão para criar uma brigada de conspiracionistas anarquistas para a derrubada do Czar. Esta intentona anárquica recebeu dos historiadores a alcunha de “A Noite dos Lobos”, que acabou de forma fatídica no “massacre da Catedral de São Basílio”, com a morte de todos os participantes e o desaparecimento de seu líder, Fiódor Vasilev. Sua figura mítica de revolucionário suscita dúvidas até hoje, e para muitos historiadores sua reaparição no cenário das disputas teria sido constatada por várias testemunhas durante a revolução de 1917, existindo a forte suspeita de que ele se tornou um dos principais conselheiros militares de Trotsky. Bóris Gregoriev nasceu em Leningrado em 1942, escreve em várias revistas culturais e é casado com Olga Gregorieva, com quem tem dois filhos, Ivan e Natália.

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Feliz ano novo

Ao raiar do ano que surge, parece que as histórias do mundo subitamente se tornaram claras à minha frente. Todos os detalhes, as filigranas, o colorido de cada emoção, os contextos e seus cheiros. Foi como se, ao se fechar meu corpo, minha alma pudesse subitamente voar sem restrições. Hoje, no parapeito da janela do quarto, ouvi pela primeira vez o trinado de um “asa de cera”1. É como se o som banal de um pássaro a me desejar um feliz ano novo fizesse sentido pela primeira vez, e sua melodia magicamente pudesse me tocar o espírito, como antes sempre pareceu impossível. Foi Andropov2 quem me disse, com sua característica falta de humor, que as perdas carregam ganhos invisíveis aos olhos desarmados, da mesma forma como os ganhos nos impõem perdas que custamos a perceber. Agora reconheço o quanto havia de sabedoria em suas simples palavras.

Perdi tudo o que mais valorizava, mas apenas agora percebo que ganhei a plena noção da grandeza da vida. Meu corpo imóvel agora é objeto de cuidados, uma prisão onde habita minha mente, agora liberta. Como presente inesperado, hoje encontrei a chave para Shermak3 e o significado último da renúncia de Natália4. Um encanto súbito que já estava desistindo de encontrar. Parece mesmo que um portal se abriu à frente, ou talvez sempre estivera aberto, mas meu corpo grosseiro impedia a passagem para um mundo de clareza. Percebo que só agora essa avalanche de pensamentos sobrecarrega de imagens e sentidos as minhas ideias. Espero que o ano que começa me permita curar as feridas que teimam em cobrir o que resta desse corpo. Agora vejo o quanto ainda há para escrever, para dizer, para gritar. Que eu tenha as forças que meu desejo demanda.

Ygor Petrov, “Ensaios, cartas e escritos menores”, org. Serguei Petrov, ed. Baltic, pág 135

Ygor Ivanov Petrov foi um escritor, romancista e ensaísta russo, nascido em São Petersburgo em 9 de fevereiro de 1881, no mesmo dia da morte de Fiódor Dostoiévski, que também exerceu grande influência em sua obra. Com forte caráter revolucionário e marxista, escreveu na juventude vários artigos de caráter político, em especial com críticas a Nicolau II e sua corte, o que lhe valeu um mandado de prisão pela Okhrana, a polícia política do Czar, e uma inexorável fuga para Londres. Lá escreveu seu primeiro romance, “Sob o gelo do Volga”, que conta a história de amor entre Ekaterina e Nikolai ambientado na decadente e faminta Rússia czarista. Depois desta estreia na ficção escreveu “Chuva de Fogo”, “Vidas de Vidro” e “O Tocador de Balalaika”, todos no exílio londrino. Foi em Londres, com 22 anos, que conheceu Vladimir Ilyich Ulianov conhecido para a posteridade por Lênin. Em 1903, encontrou-se com o grande revolucionário e outros marxistas russos, quando na ocasião criaram o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. Ygor percebeu a cisão entre os bolcheviques (majoritários) aliados de Lênin que defendiam a ação revolucionária e os Mencheviques que se postavam a favor de um movimento reformista. Imediatamente colocou-se ao lado do grande líder, o que lhe custaria várias represálias e a própria morte prematura com apenas 39 anos durante a guerra civil.

Voltou para a Rússia com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com Voltou para a Rússia com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com 29 anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Pedro, o Grande. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano. anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Nicolau II. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano. A carta de ano novo, ditada por Ygor Petrov apenas 11 meses antes de sua morte, foi escrita no hospital após ter sido ferido por um tiro durante a guerra civil russa que o deixou paralisado do pescoço para baixo. No período que se seguiu ao ferimento jamais conseguiu deixar o hospital, até sua morte por septicemia. Lá conheceu Jack Reed, o jovem que escreveu “10 dias que abalaram o mundo” e puderam trocar ideias sobre o futuro da revolução que apenas se iniciava. Ygor morreu pouco mais de um mês após a morte de Jack, mas neste período de confinamento conseguiu terminar dois de seus mais importantes livros, “Mar Gelado” e “As cartas de Bóris”, ditados para sua secretária Ivanova. Morreu em 18 de novembro de 1920, em Moscou.

1- “Asa de cera” é um pássaro muito comum na Rússia ocidental. Tem uma bela plumagem e uma crista marrom chamativa em sua cabeça. Seu canto é o murmúrio “svir-ri-ri-ri”, que muito se parece com o som de uma flauta tocada, com tom agudo e repetitivo.
2- Andropov era o comandante de sua divisão na guerra civil e seu parceiro desde os tempos de exílio na Inglaterra.
3- Shermak era o navio do romance “Mar Gelado” que tinha como centro narrativo o dilema moral do comandante Ivan Mileiovich entre o ideal e a sobrevivência de seus homens, sintetizado na sua frase antológica dirigida aos marinheiros reunidos no convés do Shermak: “A honra e a liberdade valem mais do que estes blocos de gelo que nos prendem.” Essa história foi posteriormente transformada em filme pelo cineasta Alexei Bakov.
4- No romance “As cartas de Bóris” Natália era a amante de Dimitri Ustalov, prefeito da cidade de Vyborg que escondeu a gravidez e fugiu para Irkutsk, às margens do lago Baikal, na Sibéria, para que sua gestação não destruísse a reputação do seu amado. Lá nasceu Vladimir (uma pouco sutil homenagem a seu camarada Lênin) que, sem o saber, combateria o próprio pai na revolução russa.

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