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Presentes

Na minha família existe um costume que tem mais de 4 décadas: zero presentes natalinos. Nada, absolutamente nada, sequer “amigo-oculto” de 20 reais. Isso começou como uma atitude radical há quase 4 décadas. Quando meus filhos tinham 5 ou 6 anos a minha mãe me perguntou o que poderia dar a eles. Meu filho escutou e ficou semanas pensando, perguntando, ansioso pelo que poderia ganhar. Ao ver a ansiedade deles, eu e Zeza decidimos exterminar a fonte dessa angústia: avisamos a eles que não ganhariam nada, que o Natal era uma festa para estar junto com a família, para contar suas histórias da escola para os tios, dar risadas sobre a piada do “pavê”, encontrar os primos, comer bolo e visitar os avós. Nada além disso seria justo. Mais ainda: avisamos aos tios e avós para não darem presente algum no Natal, visto que isso não poderia se tornar uma competição entre eles (algo que já vi) romper o tipo de educação que os pais queriam imprimir.

E vejam, a ideia é de que não há nenhum problema em presentear os filhos – ou parentes e amigos – mas estávamos tentando evitar a transformação da festividade do Natal em um encontro mercantil, onde se comercializam objetos e afetos. A proposta era de que, caso quisessem dar um presente para as crianças, que escolhessem uma data aleatória, ou usassem o aniversário delas. É claro que isso não é a solução de todos os problemas da sociedade mas, além de criar uma cultura avessa ao consumismo, ela evita a angústia inevitável de todos nós sobre a compra de presentes. Imaginem a felicidade de alguém que não precisa se preocupar com presentes para filhos, colegas de trabalho, pais, irmãos, etc, e sem sentir culpa! É um imenso alívio! Além disso, cabe uma reflexão um pouco mais profunda. Afinal, qual o sentido de presentear? O que afinal existe nesse gesto? Podemos colocar este ato sob uma investigação mais apurada? Quem ganha e quem dá nesta relação?

Uma amiga certa vez me contou uma história que considero reveladora. Disse que não resistiu à tentação e comprou um “helicóptero de controle remoto” para seu neto de 7 anos. Perguntei a ela: “Você sabe a média de tempo que uma criança se interessa por essas engenhocas? Este tempo é medido em minutos…” Ela sorriu e suspirou. Depois me disse conformada: “Eu sei tudo isso. Sei que ele vai provavelmente curtir mais a caixa do que o helicóptero, mas…. tu tinhas que ver a carinha dele quando abriu o pacote. Olhou para mim, me deu um abraço e disse: ‘Eu te amo vovó’.”

Essa história me fez perceber que, muitas das vezes, o presente que damos é para nós mesmos. Oferecemos um objeto qualquer para uma criança em troca do seu afeto, e todos sabemos o quanto elas são espertas para perceber como nos deixamos seduzir por estas demonstrações explicitas de amor. Por esta razão, é sempre útil analisar as verdadeiras razões que se escondem dentro do pacote colorido que oferecemos. Elas são aparentemente cobertas de generosidade, mas escondem as nossas necessidades mais básicas de afeto; são muitas vezes atos criados para que possamos receber como recompensa o amor que tanto carecemos.

Ainda acredito que a melhor alternativa ao consumismo do presente é… ser presente. Seja o melhor tio, filho, pai, amigo, agregado possível para todos aqueles que compartilharem este momento com você. Não use essa festa para negociar a atenção e o carinho que você precisa.

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Essência humana

A ideia do “homem essencialmente bom”, como apregoada por Jean Jacques Rousseau, definido como o sujeito que, nascendo bom, depois é corrompido pela sociedade, não resiste às análises mais superficiais. Creio mesmo que o homem nasce essencialmente egocêntrico, fixado em si mesmo e em sua própria sobrevivência, colocada acima de todos os outros valores. Somente a lenta maturação é capaz de afastá-lo de sua propensão natural a preservar a si mesmo como tarefa precípua. Nascemos “maus”, no sentido de nossa essência egoísta. O altruísmo – se é que ele existe – só é conquistado com muito labor e bem mais tarde, e só ocorre pelas forças sociais; somos fraternos por imposição do meio.

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Youtubers

Ver Youtubers fazendo publicidade com a tragédia alheia me faz lembrar que isso é o mesmo que Huck faz todo fim de semana e Silvio Santos faz desde os anos 70. Nenhuma novidade, e nada a comemorar.

“Ainn, mas pelo menos estão fazendo algo”. Sim, seria pior a inação, mas, por princípio, essa menina não deveria ganhar UM TOSTÃO sequer dessas pessoas ricas, mas receber tudo o que a iniquidade e a injustiça social sonegaram a ela. É com estas atitudes publicitárias que um liberal medíocre como Huck hipnotiza milhares de pessoas e se tornou candidato à presidência. Faturando em cima da desgraça de um sujeito popularizamos a “doutrina da graça”, onde um miserável qualquer – como um de nós – cai nas graças de um milionário poderoso e consegue sua casa, um caminhão do Faustão, um enxoval ou até a reforma de sua “lata velha”.

A tática de distribuir migalhas é antiga, e vai desde o dono de mercadinho na Vila que se veste de papai Noel distribuindo balas para as crianças até as doações vultuosas de Gates, Bezos, Soros, Koch e tantos outros milionários. São todos movidos pela “culpa cristã da riqueza” e por bem articuladas campanhas de publicidade, alçando seus nomes na sociedade como “beneméritos”, enquanto (no caso de Gates e Bezos) continuam com suas práticas predatórias e até criminosas contra a vida humana.

Existem formas éticas de ajudar em situações de urgência. O anonimato, por exemplo. Bastaria descobrir a conta da mãe da menina (se ela tiver), ou entregar um envelope em mãos. Poderia pagar a escola diretamente, sem aparecer e sem ganhar dividendos com seu “altruísmo”.

Por princípio não confio em milionários que tiram selfie com pobres ou que divulgam suas caridades em outdoor. Aliás, não posso aceitar que uma sociedade madura aceite bilionários, pois que eles são um brutal entrave à democracia.

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