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Idolatrias

A presença de Sara Inverno nas manifestações pelo parto humanizado e pela autonomia da mulher na escolha pelo local de parto deveria nos fazer pensar de forma muito séria sobre a idolatria e a exaltação de personalidades. É por estas posturas que deveríamos ser muito cuidadosos na exaltação de indivíduos para além da ideia que carregam. A vinculação dela com o direito ao parto domiciliar se parece com a adoção do vegetarianismo por aquele outro personagem sombrio da Alemanha, que hoje em dia é usada como exemplo do perigo de colocar alguém no pedestal olhando para apenas para uma faceta de sua personalidade

Já do lado das vanguardas, fugir da sedução da idolatria é uma tarefa das mais difíceis. O amor direcionado às figuras de destaque é visto como “reconhecimento”, “carinho”, “merecimento”, “justiça”, mas em verdade esconde partes sombrias do nosso psiquismo como a idealização e a projeção.

Mais importante ainda é o “backlash”, a “volta”. Toda a adoração é um pagamento por um serviço prestado. Quem faz essa oferenda espera o retorno, que pode ser através do reforço de nossas crenças. Quando o ídolo resolve dizer algo que se afasta da cartilha que produziu sua idolatria, a decepção é nítida. O problema, a partir daí, passa a ser de contabilidade.

Sim…. como receber de volta todo o investimento afetivo colocado na figura de destaque? “Depois de todo o apoio que lhe demos, como ousa nos dar as costas?”. É aqui que aparece a genialidade do poema cru e dolorido de Augusto dos Anjos

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Não foram poucos os ídolos assassinados pelos seus maiores adoradores. Mark Chapman matou John Lennon e Yolanda Saldívar matou Selena ao perceberem que a dívida do seu amor não poderia ser paga. Mas estes são extremos: o amor ao cigarro produz os mais insanos antitabagistas, assim como os piores fascistas são ex-comunistas.

A história está repleta de exemplos desse fenômeno. Vejo isso até nos casais: atrás de uma paixão avassaladora se ergue uma gigantesca sombra. Quando escutava no consultório uma exaltação aparentemente exagerada de um(a) parceiro(a) eu tremia. Em silêncio refletia nos perigos de tamanha idealização. E mais: diante de tal exaltação como seria possível lidar com a inevitável frustração diante das falhas, erros e pequenas traições?

Arrisco dizer que os maiores ódios nasceram das mais intensas paixões. Não é essa uma das histórias mais prevalentes na literatura?

Ter uma relação menos apaixonada com figuras de destaque é importante para a sobrevivência das ideias. Deixar que estas personalidades cresçam mais do que as propostas que carregam é um passo para a cristalização de qualquer projeto. Mais seguro é desinstituir-se dessas posições, apagando o brilho pessoal (ou controlando-o) em nome das construções coletivas.

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