Arquivo da tag: compulsão

Fumacinhas

Meu pai era o mestre das palavras, um grande conversador e contador de histórias. Todavia, tinha preguiça de escrever. Para ele a escrita era um exercício muito difícil; enfadonho e até torturante. Culpou sempre seu perfeccionismo virginiano por sua aversão em colocar sua visão de mundo em livros.

Como Cristo e Sócrates, o que sabemos dele – e de suas ideias – vem através dos contatos diretos. Conversas, encontros, bate-papos, palestras e pequenas intervenções. Apesar disso, suas posições e ideias ficaram conhecidas em diversas partes do país e até fora dele. Tinha um tal magnetismo ao falar que todos lembram até dos pequenos detalhes dessas conversas.

Eu sou o oposto disso. Por saber que não tenho a doçura, a simpatia e o encanto do meu pai, eu escrevo tudo. Acordo de madrugada e escrevo o sonho que tive. Lembro de um fato engraçado que aconteceu há muitos anos no consultório e coloco tudo no papel. Se recordo de um acontecimento – no qual percebo um significado escondido que só agora me ocorreu – tenho de cair imediatamente de cabeça no texto.

Escrevo em todos os lugares. Filas de supermercado, no banheiro, olhando futebol na TV, na cama, na hora do almoço. Qualquer hora. E não tem nada a ver com qualidade, só o desejo compulsivo de transformar fatos e ideias em texto…

Tenho medo de esquecer uma história. Como elas só existem pela minha perspectiva, vivem solitárias em minha mente. Escrever sobre elas é libertá-las, deixar que ganhem vida. Meu pânico é ver a morte que se aproxima e pensar que algumas histórias morrerão comigo. Como um velho que vem a falecer sem revelar onde escondeu o dinheiro que guardou…

No final da vida, como é comum aos velhos, meu pai contava, como se fossem novas, histórias bem antigas e que eu já ouvira dezenas de vezes. Eu dava risadas e me mostrava interessado, como se fosse a primeira vez a escutá-las. Sei que eu também, em pouco tempo, me surpreenderei escrevendo de novo sobre fatos que já coloquei no papel, mas será apenas por medo de que algo se perca.

Desenvolvi essa compulsão há 20 anos, mas hoje fico pensando que deveria ter começado aos 7 anos de idade. Triste saber que, por certo, nesse tempo todo muitas histórias enjauladas na minha mente já definharam e jamais puderam ver a luz do dia, o que é lamentável.

Pelo menos esta aqui coloquei para fora antes que virasse fumacinha.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

1200

Há exatos 20 anos, 1999, nos umbrais do século XXI, eu comecei a escrever. Velho mesmo, quase quarentão. De pronto deixo claro que não acredito em nenhum sujeito que começou a escrever depois de ser oficialmente ancião, mas eu não escrevia porque queria, apenas porque precisava. Não se tratava de prazer, mas de compulsão. Antes disso eu apenas lia, e com exceção de raros esquetes humorísticos (entre eles um chamado “O círculo do gelo”), eu não me interessava em escrever. Foi a dor, a angústia e a noção cada dia mais intensa de que me resta pouco tempo de vida que me fizeram colocar no papel tudo o que me passa pela cabeça. Literalmente tudo: pensamentos, histórias, chamamentos, citações descobertas e histórias. Histórias tristes ou bizarras. Piadas em profusão, inobstante serem engraçadas ou não – na minha família a regra é “o importante é a quantidade e não a qualidade”. Tenho medo de morrer e guardar comigo uma história que apenas eu sei.

Sei que me resta pouco tempo e gostaria de deixar em algum lugar todas as histórias que eu porventura tomei conhecimento. Fico triste ao saber que dezenas delas não podem ser contadas, pois as pessoas que dela participam poderiam se ofender. Por vezes eu penso em um parto, uma expressão de alguém, uma piada, uma historieta ou o projeto de um grande romance (como o do homem que lia na prisão, ou a história de Eneida, a mulher que fumava e fazia do sexo sua arma mais poderosa) e me apresso a escrever antes que os detalhes evaporem de minha memória.

Hoje escrevi o texto de número 1200 no meu blog, que comecei a organizar apenas em 2012. O que escrevi antes disso está soterrado nas listas de discussão das “Amigas do parto”, ou no “Parto Humanizado”. Outras poucas recuperei e usei como material para os meus dois primeiros livros, o “Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as Orelhas”.

Sei da desimportância do que eu escrevo, mas realmente a qualidade da escrita nunca foi o meu objetivo máximo. Eu comparo esta compulsão com a árvore genealógica que meu pai me deu de presente há alguns anos. Era, em verdade, um pedido singelo para ser lembrado, poder ver o seu nome num quadradinho que, ao mesmo tempo que tinha suas raízes num passado distante, oferecia sementes para os que vinham abaixo. Um desejo ilusório, quase pueril, de imortalidade.

Também estou ciente do amargo que aguarda minha senectude, e sei o quanto será difícil para um velho ter que suportar o que virá. Outrossim, reitero que tudo faria de novo e que esta vida é curta demais para ser encarada com temor.

Evoé!!!

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Abusadores

Tivemos recentemente uma campanha contra os “tarados” urbanos que importunam as pessoas. Alguns posts apelaram para soluções simplistas como a brutalidade e até para “linchamentos”. Isto é: combater machismo com mais machismo e força bruta.  

E veja bem: masturbar-se em ônibus ou na rua é um incômodo, podemos considerar ofensivo e inadequado, até mesmo uma “violência” moral, mas em nada semelhante à agressão ou ao estupro. Atos como estes precisam ser coibidos dentro da lei e da justiça. Se as leis são brandas ou ineficientes que sejam mudadas, mas não se pode apelar para condenações oportunistas diante da emergência de um escândalo público. Ponto.  

Entretanto, é evidente que os sujeitos que fazem isso em público são doentes, compulsivos, incapazes de controlar adequadamente suas ações mesmo diante das ameaças de violência. Eu vejo uma injustiça ao tratar esses sujeitos como depravados do mesmo tipo que assistia o julgamento feroz e cruel contra os alcoolistas no meu tempo de Pronto Socorro. “Se você quiser se controlar é fácil, mas você bebe porque é um vagabundo“. Esse argumento aparecia para qualquer compulsão, das drogas pesadas ao cigarro, mas era usada até para a homossexualidade, lembram? Não faz tanto tempo assim…  

Se hoje podemos chamar os alcoolistas, as cleptomaníacas e as pacientes com psicoses puerperais de doentes, entendendo que estas pessoas precisam de ajuda psicológica e às vezes médica (e não de porrada), porque deveria ser diferente com os masturbadores públicos??? Por que é tão difícil entender a enfermidade a que são submetidos?   Infelizmente eu entendo que qualquer tentativa de analisar racionalmente esta questão significa que achamos que a masturbação pública é “tolerável“, que não merece punição ou que “não causa dano algum“. Maldito maniqueísmo.

Em verdade tudo que desejamos é que TODOS possam ser julgados com um pouco mais de humanidade e compreensão.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência