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Eleições diretas

Precisamos falar de influenciadores digitais…

Caras como Tico Santa Cruz e Felipe Neto com frequência usam de sua influência para trazer temas com perspectivas extremamente equivocadas. A ideia de que as corporações deveriam ter plena liberdade de escolher seus representantes – como a PGR – garantiria a elas um poder autônomo e não regulado pela vontade popular. Criticar Lula por defender essa indicação em tese é um erro. Ou oportunismo.

Assim, esta instância política (pois age sobre a polis) se estabeleceria acima das decisões democráticas, colocando no panteão do poderosos representante de categorias sobre as quais o povo não tem qualquer ingerência.

“Todo o poder emana do povo…”, ainda está valendo?

Ser contra a indicações interesseiras e até criminosas de Bolsonaro é legítimo, desde que isso não signifique golpear a liberdade dos presidentes eleitos de indicar figuras chaves da administração.

J. Edgar Hoover, que ficou 38 anos no poder eleito por seus iguais (e ai de que não votasse nele) é um bom exemplo de como esse modelo pode ser destrutivo e ameaçante à democracia.

Já pensaram 38 anos de Janot ou Aras? Pensem como seria se eles fossem populistas que agradassem sua clientela (os procuradores) mas agissem contra os interesses da nação? Como retirar alguém com esse modelo alheio às decisões do escrutínio popular?

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Arquivado em Política

Profissionalização

Profissionalizar o trabalho das doulas, com todas as vantagens presumidas e os encargos, custos e obrigações envolvidas, pode ser um caminho óbvio para esta ocupação. Entretanto antes que esforços sejam direcionados para este fim é indispensável debater friamente as suas múltiplas perspectivas.

Provavelmente o que houve de mais significativo na obstetrícia ocidental nos últimos anos do século XX e no início deste novo século foi a incorporação das doulas no cenário do parto com todas as consequências que vieram na esteira desta descoberta. Se antes a ciência médica obstétrica se esforçava para trazer o fenômeno do parto para o reducionismo biológico que lhe caracteriza, a partir da entrada das doulas na atenção ao nascimento esta tarefa se tornou ainda mais complexa.

A introdução de um elemento não químico no evento foi capaz de produzir muitas transformações nos resultados objetivos e isso acabou por demonstrar que os elementos não mensuráveis do parto são – apesar de sua invisibilidade aos olhos desavisados – de valor inquestionável na condução do processo. Havia claramente muito mais do que trajeto, objeto e força. O parto realmente acontecia “entre as orelhas”, e era ali o lugar onde as doulas se inseriam de forma mais marcante.

A doulas produziram uma inegável inquietude nos atendentes de parto e nos hospitais. De intrusas foram pouco a pouco conquistando espaço e ganhando a confiança cada vez maior de serviços que investem na humanização. Sua importância e reconhecimento pela cultura foram crescendo, assim como as evidências de sua ação positiva no cuidado oferecido às mulheres em trabalho de parto.

Com isso seu número proliferou no Brasil. Só o nosso grupo formou perto de mil doulas e os outros grupos que surgiram se aproximam de números como este. O sucesso das doulas foi aos poucos se consolidando até encontrar seu dilema mais óbvio: a profissionalização.

“Ora, pensamos, se médicos, enfermeiras, psicoterapeutas, obstetrizes, psicólogas e técnicas de enfermagem são profissionais, por que não haveriam as doulas – que tanto benefício comprovam nos resultados do parto – de também se tornar uma profissão, mais do que uma ocupação?” Não haveria este upgrade de acrescentar valor e visibilidade ao trabalho que aos poucos vai se fortalecendo?

A primeira questão que eu que trazia, desde 2014 quando ousei me posicionar sobre isso, foi de que não havia vantagens fortes o suficiente para suplantar as inúmeras desvantagens que viriam com esse passo. Tornar as doulas “profissionais” exigiria um número enorme de requisitos e no mínimo duas décadas de luta institucional. Com isso viriam junto os conselhos, sindicatos, burocracias, regulamentações, restrições, códigos, protocolos, sanções, punições, cobranças das várias anuidades (sindicato, conselho, associação), vigilância, currículos mínimos, e muitas outras obrigações que qualquer corporação precisa encarar.

Para profissões tradicionais como medicina, enfermagem, engenharia e direito não havia alternativa: o controle sobre os pares seria inevitável para mantê-los sob rígida vigilância . Mas para as doulas, que fazem do afeto e do contato sua ferramenta mais intensa, que vantagem seria forte o suficiente para suplantar o peso de estarem congregadas em uma corporação? Em contrapartida, é bom lembrar que psicanalistas e técnicos de futebol não são profissões, não desejam ser, e são bem remunerados.

Nenhum, ao meu ver. As doulas precisam ser LIVRES para atender suas clientes, assim como livre deve ser o amor. Nenhuma amarra protocolar deve se interpor entre o livre acesso e escolha de uma gestante por quem haverá de lhe dar esse suporte físico, mas também emocional, amoroso e cálido.

Profissionalizar as doulas lhe retira sua original característica de se estabelecer na interface entre o carinho mais doce e a técnica mais apurada. Normatizar essa ação tem efeito tão deletério quanto regulamentar o desejo.

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