Arquivo da tag: Drauzio Varela

Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Droga Milagrosa

fosfoetanolamina

Eu não gosto das manifestações do Dr Dráuzio, até porque tudo que ele fala é “chapa branca”. Nunca se ouvirá dele nada criativo, novo, instigante, questionador, provocativo ou que proponha mudanças na estrutura de poderes na saúde. É tome vacinas, faça pré-natal, exames preventivos, novas drogas etc. Além disso ele é um perfeito tecnocrata, sempre associado ao poder econômico e descaradamente contra o parto normal. Já escrevi um texto há mais de 15 anos chamado “Pumba”, quando de uma entrevista dele à revista Cláudia (ainda existe?) em que ele afirmava que parto era uma coisa muito chata e que era melhor fazer uma cirurgia e…. PUMBA!, se tirava o bebê sem ficar escutando gemidos e reclamações dos familiares, que ficavam de fora do centro obstétrico incomodando. Ele é um exemplar muito fácil de reconhecer da “velha escola médica”, acostumada com uma visão arrogante, pretensiosa, higienista e professoral da saúde. “Escute o que eu tenho a dizer, pois eu entendo da saúde de vocês muito mais do que vocês mesmos“…

Entretanto…. creio que ele está correto em não dar crédito à Fosfoetanolamina, droga que está sendo tratada como a “cura do câncer”. Não se pode vender uma droga – ou mesmo disseminar essa ideia – sem que seus efeitos sejam comprovados. Existem etapas FUNDAMENTAIS que não foram cumpridas, sem as quais não haverá PROVA da eficácia no tratamento de qualquer afecção. Dizer que há boicotes à sua experimentação pode ser até verdade, mas isso não exclui o fato de que sem comprovações ela não pode ser considerada um tratamento adequado para o câncer, seja de que tipo for.

A indústria farmacêutica é uma máfia das mais perversas existentes, e disso temos comprovações muito claras por testemunhos de inúmeros profissionais que foram atacados e perseguidos por suas ações ou descobertas. Entretanto, neste caso específico, não é a ação da “Big Pharma” o problema, mas as etapas que faltam para a comprovação da eficácia do medicamento. Sem isso qualquer atitude será extemporânea e, potencialmente, perigosa.

Não basta parecer um bom medicamento…. é preciso provar. Isso demanda tempo e dinheiro.

E paciência…

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina