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Política, para que política?

Quando digo que parto humanizado é uma questão política muitos torcem o nariz e dizem que esta proposta será vitoriosa pela avalanche de evidências científicas confirmando nossas teses sobre a autonomia e a visão transdisciplinar desse evento. Essa teleologia me parece tola. Eu acho que acreditar na ciência como guia das ações humanas é basicamente uma postura…. anti científica.

Minha resposta a este positivismo ingênuo é mostrando que as episiotomias – cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental – possuem evidências que comprovam sua ineficiência quando usadas de rotina há mais de 30 anos. Três décadas de provas contundentes, e mesmo assim continua sendo praticada no mundo inteiro. Por este exemplo simplório fica fácil entender que a verdade dos fatos não é suficiente para nos afastar de um preconceito, em especial quando ele nos beneficia.

A homossexualidade deixou de ser considerada doença há poucas décadas, e sua saída do DSM foi celebrada por muitos. Por acaso alguma evidência científica nos mostrou esse erro? Qual o exame clínico deixou clara a inexistência do “homossexualismo”? Ou foram as pressões políticas nesse sentido que produziram a mudança? Vou além: qual a evidência científica seria necessária para liberar o aborto ou para uma aceitação mais científica do parto extra-hospitalar?

A superioridade comprovada – em termos de morbimortalidade materna e neonatal – do parto normal sobre a cesariana é conhecida de todos os profissionais do nascimento. Todavia, a taxa de cesarianas na classe média brasileira é da ordem de 85%, exatamente no segmento mais esclarecido da população. As evidências e provas não produzem nenhuma pressão no sentido de diminuir este abuso.

Ora… nenhuma evidência será suficiente para quem se nega a aceitar as mudanças que ela propõe. Por acaso Galileu foi perseguido por ter poucas provas de suas ideias ou, ao contrário, por tê-las em demasia – o que obrigaria a uma mudança radical no paradigma medieval geocêntrico?

Assim, apesar de reconhecer a importância das pesquisas eu percebo que elas são o SUPORTE das mudanças sociais, a base para produzir sedimentação, mas jamais sua ponta de lança. Para que estas modificações ocorram, é necessário uma ação política coordenada, para assim produzir transformações significativas e duradouras. Por outro lado, esta ação só vai ocorrer quando existir adequado amadurecimento de conceitos e propostas.

Parir é um ato político.
Sexo é um gesto político
Nascer, viver, amar e morrer … também.

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