Arquivo da tag: enfermeiras

Enfermeiras

enfermeira

Elas sempre me olharam com desconfiança, mas – verdade seja dita – eu nunca consegui transmitir simpatia a elas. Algumas já reclamaram que sou sério e fechado; mal-humorado, emburrado. E, confesso, não ajudei muito, nos últimos anos, a desfazer essa impressão. Todos os sujeitos sobre quem repousam críticas ou suspeitas acabam desenvolvendo algum nível de paranoia. E não é só com enfermeiras; não converso com meus colegas também, e devo passar a ideia de que sou uma espécie de arrogante depressivo.

Não é verdade. Sou reservado e desconfiado, e tenho receio de constranger pessoas com a minha presença.

As enfermeiras me tratam como alguém que está constantemente desafiando sua autoridade no centro obstétrico, mas isso não está muito longe da verdade. A “escolha de Sofia” a que gestantes se submetem, tendo que optar entre o marido e a doula, sempre me causou inconformidade e indignação, e as enfermeiras chefes percebem isso, de forma muito evidente. Resolvi que a melhor tática seria aceitar a atitude arbitrária e esperar que a pressão das pacientes influenciasse a ação dos gestores do CO.

Minha estratégia parece estar, aos poucos, funcionando, pois sinais de reversão das medidas autoritárias começam a aparecer, de forma gradual, porém sensível. Entretanto, a desconfiança das enfermeiras sempre se mantém.

Doutor Ricardo, não pode tomar café aqui“, disse a jovem enfermeira chefe. “Se a doula ficar infelizmente o marido tem que sair“. “Não, não pode entrar outra pessoa“. “São as normas, não posso fazer nada“. “Não Dr., ainda não está no sistema. Tenha paciência e aguarde“.

Não, não, não….

Por isso quando a jovem enfermeira me chamou às falas, em voz baixa e quase sussurrando, eu imaginei que estava, mais uma vez, cometendo alguma pequena contravenção, que poderia colocar sua autoridade em risco.

No entanto, a bela enfermeira se aproximou com um pequeno volume branco na mão e colocou-o sobre o balcão que nos separava. Abriu com cuidado até aparecer um disco, um DVD.

Jogou para mim um sorriso tímido e me falou um tanto sem jeito.

Doutor Ric, poderia dar um autógrafo na minha cópia do ” Renascimento do Parto”? Esse filme foi muito importante na minha formação.

Deu um nó na garganta, e um peso no peito. Trinta anos de relações difíceis e agora a nova geração começava a entender pelo quê tanto lutamos.

Deu vontade de chorar. Quem não?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

As diferenças

enfermeiras1

“Enquanto o parto humanizado for opção apenas para uma casta seleta, uma parcela da classe média que possui dinheiro e informação, nosso trabalho será incompleto e insuficiente. A humanização do nascimento não é uma moda, uma “onda” ou um capricho de mulheres burguesas. Parto com dignidade é direito fundamental, e faz parte das lutas pela democracia e pela liberdade. Nossa paixão pelo parto digno deve atingir a mulher do campo e da cidade, as ricas e as pobres, sem qualquer distinção. “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer“, e isso precisa ocorrer em todos os níveis.”

Faz parte do processo de transformação em curso os desafios que encontramos agora na atenção oferecida por enfermeiras durante o parto. Mulheres imitaram os homens no raiar do feminismo, achando que elas também podiam usufruir do poder e da glória que o falo inspira. Eu curti o tempo do “unissex”, que nada mais era do que mulheres imitando homens, inclusive – e principalmente – nos seus defeitos. Levou tempo para as mulheres perceberem a verdade na frase que pendurei há muitos anos na parede do meu consultório: “Uma mulher que pretende imitar os homens carece de imaginação“.

Agora as mulheres percebem que, SIM, são diferentes e celebram esta diferença com a valorização de seus corpos sinuosos, suas gestações e mamas que produzem leite. Com as parteiras – as profissionais, mas também as tradicionais – ocorreu o mesmo. Pareceu por um bom tempo que imitar a ilusória superioridade tecnológica dos médicos lhes garantiria maior reconhecimento profissional. Enluvaram-se, enrouparam-se de verde, cobriram o rosto com a mascara do anonimato, usaram o aço que corta e a gaze que seca. Chamaram as mulheres de “maezinhas” e “minha filha“, olhando-as de cima a baixo para mostrar, afinal, quem é que manda.

Só agora as enfermeiras obstetras e obstetrizes percebem que não são “doutoras castradas”, mas profissionais cujo maior diferencial é a especial conexão afetiva e espiritual que protagonizam junto às mulheres. Dessa diferença é que surgirá a parteria do século XXI, que vai aliar conhecimento formal e científico com a ancestral capacidade de cuidar que receberam da linhagem de parteiras que se perde na poeira do tempo.

Quem viver, verá…

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto