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Mitos

Imaginem que, numa espetacular descoberta arqueológica, são encontrados na Palestina papiros que descrevem vida e os caminhos do “Jesus real”. Nestes documentos está descrito, de forma inequívoca, que o Messias nunca foi um ser santificado, mas tão somente um escroque, um ladrão, um dissimulador que usava de meros truques de mágica para enganar incautos e ludibriar os crédulos da época. Sua condenação se deu por suas múltiplas falcatruas ou golpes, e não por suas belas palavras, ensinamentos, parábolas, bem-aventuranças ou milagres. Tudo de belo escrito sobre ele não passa de peças políticas, criadas sobre um personagem ficcional, meramente baseado no jovem judeu crucificado no Gólgota.

Claro, é apenas um exercício de imaginação; nada disso ocorreu. Minha pergunta é: se fosse verdade, quantos abandonariam a fé cristã diante das evidências de que o personagem que tanto veneram – e por mais de dois mil anos – não é mais que uma mera criação humana? Quantos deixariam o cristianismo após descobrir que o verdadeiro Jesus de Nazaré nada se parece com o Cristo sobre o qual se ergueu uma igreja de sucesso em todo o planeta.

Minha resposta simples é: zero.

Inobstante as provas encontradas, a vinculação que temos com esses personagens está muito além (ou aquém) de qualquer análise racional, e por isso mesmo esta conexão é poderosa. Não precisamos da razão para criar vínculos com esses ícones, pela mesma razão que nossas outras tantas conexões afetivas não carecem de qualquer ligação racional essencial. Não amamos esta ou aquela pessoa por uma análise lógica e baseada em fatos; nossa ligação é muito mais visceral, e não precisa que os elementos subam do fígado ao cérebro para serem validados.

Aliás, as descobertas recentes da estrutura do Universo balançaram as estruturas da Igreja, mas esta lentamente assimilou as novas descobertas e as ressignificou. “Ok, não somos o centro do Universo, mas Deus Pai zela por todos nós por sua onisciência, onipresença e amor infinito”. Feito. Bola ao centro e reinicia o jogo.

Esse tema me veio à mente porque a recente condenação de Trump tem essas mesmas características. Alguém acha mesmo que Trump perderá a próxima eleição por ter sido julgado, condenado e seus crimes revelados? Responda então: um candidato que se coloca contra o sistema, ao ser condenado por este mesmo sistema que combate, não sairá fortalecido? Essa é a grande força de Trump: disseminar no povo americano a esperança no retorno aos tempos de glória através da ficção de que ele representa o combate ao “sistema”, o enfrentamento ao “deep state” e a luta contra o “globalismo“. Como ele mesmo disse: “Eu poderia dar um tiro em um sujeito na 5ª Avenida e ainda assim venceria a eleição”. E não está errado; ele sabe o papel mítico que exerce sobre o eleitorado.

Bolsonaro, o fac-símile do trumpismo em Pindorama, igualmente sabe que as provas de seus desmandos, a roubalheira, as joias, as propinas da vacina e a tentativa de golpe não atingem o coração de sua imagem de “cruzado antissistema” e contra “tudo isso que está aí”. Ele entendeu que sua legião de acólitos pouco se interessa pela vida real e mundana do seu líder, e apenas enxerga o “mito” que pode redimi-los de sua vida insossa e medíocre. Tanto lá quanto aqui, a falência do capitalismo continuará produzindo estas figuras que iludem seus seguidores fingindo combater o sistema quando, em verdade, são o seu último suspiro.

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Trombadinha

As atuais descobertas da Polícia Federal mostram de forma inequívoca o que algumas pessoas à esquerda do espectro político denunciavam há muito tempo: durante quatro longos anos fomos governados por um reles trombadinha. Sim, tivemos à frente de um país gigante um ladrãozinho minúsculo, um escroque que passou anos preocupado em fazer pequenos furtos, subtraindo o erário público de bugigangas recebidas como presentes. Sim, ainda há que se desvendar os grandes roubos e as denúncias de propriedades em nome de laranjas nos Estados Unidos, mas a avidez para roubar tudo o que estivesse ao alcance da mão é uma descoberta brutal e chocante. E o roubo daquilo que foi ganho de ditadores árabes apenas desvela os crimes menores, pois que o crime maior – a corrupção que teve nas joias o devido pagamento – ainda não foi devidamente investigado. A sensação natural diante destas últimas notícias é a mais profunda vergonha.

Sim, inevitável vergonha. Imaginem o constrangimento de saber que um país como o Brasil, de 200 milhões de habitantes, com riquezas imensas, um povo sofrido e uma história complexa e grandiosa foi governado por um farsante, um mísero estelionatário com um discurso francamente fascista. Atrás dele, a lhe dar suporte, uma horda de fanáticos, zumbis contaminados por um discurso anticomunista desenterrado da guerra fria, enfeitado por palavras de ordem que evocam o fascismo mais rasteiro.

Que vergonha, que vexame. Tive amigos que, por ódio ao Lula e ao PT – o que no fundo escondia uma rejeição à qualquer ameaça de justiça social – até ontem defendiam Bolsonaro, tratando-o como “injustiçado”, “cavaleiro de Deus”, enviado para nos livrar da famigerada “ameaça comunista”. São os mesmos que ainda hoje, chamam os celerados que em janeiro invadiram Brasília de “patriotas” afirmando que o golpe foi planejado pelo PT para derrubar o governo… do próprio PT. Como podem explicar agora essa rede de roubalheira rasteira, que agia nos porões do Palácio, envolvendo inclusive – sem surpresa – a nata da mediocridade militar. Como justificar agora que o combate ao “Estado Inchado”, outra rotunda falsidade, precisava de uma figura como este escroque racista e canalha? Como explicar as delações do “hacker de Araraquara” que demonstram o interesse do antigo governante de fraudar o resultado das eleições e de envolver o STF nas suas artimanhas?

Por quanto tempo ainda teremos que aceitar um país atrelado a estes monstros travestidos de anjos de Deus, cujos crimes são cometidos sob a égide da proteção da família e da Pátria? Até quando estes militares corruptos e ineptos vão ameaçar nossas aspirações democráticas? Quanto ainda teremos que esperar até que se desmanchem as redes criminosas de igrejas evangélicas e seus líderes estelionatários? Até onde vamos aceitar a máfia do sistema econômico escravizando o povo em nome de sua fome por lucros e poder?

A resposta a estas perguntas significa a diferença entre sermos uma eterna esperança de nação e a fulgurante realidade de um país justo e desenvolvido.

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