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Religiões e conflitos

As religiões unificam perspectivas de mundo e de produzem forte fator de coesão e identidade. São modelos de compreensão da realidade sobre aspectos onde a ciência não tem acesso, como o sentido da vida e os significados transcendentais.

Acima de tudo, uma religião não é algo que produz ideias e conceitos, mas onde colocamos nossa visão de mundo e nossas perspectivas. Religião é algo onde colocamos algo de nós, e não de onde retiramos. Culpar as religiões pelas mazelas do mundo – como há muito fazem os new-atheists – é uma tarefa simples, mas para isso é preciso ignorar o sentido último das religiões negando o fato de que de qualquer religião se retira o que se quer, basta desejar.

Durante anos tentaram fazer isso, criando uma visão demeritória das religiões, mas aplicando um viés distorcido da real essência delas. Com isso as Cruzadas perderam todo o sentido comercial e objetivo para se tornarem apenas incursões militares movidas pela religião. A guerra do oriente médio é frequentemente tratada como “judeus x muçulmanos”, como se a questão não fosse o colonialismo e a limpeza étnica, mas sim um choque de crenças religiosas. Aliás, o mesmo truque foi usado para chamar a guerra de libertação da Irlanda como “católicos x protestantes”, apagando o colonialismo britânico na ilha.

Colocar a culpa nas religiões como elementos divisionistas é um erro, mas que ainda faz muito sucesso inclusive entre intelectuais.

A religião não é o BEM e muito menos o MAL. Uma religião não é mais do que um conjunto de símbolos e metáforas para expressar o inexpressável – assim como o mito o é para aquilo para o qual não há verbo. As religiões são construções puramente humanas que se expressam como um idioma, uma língua a conectar através do mesmo poço a água que corre por debaixo da terra. Os diversos poços criados para saciar nossa sede por respostas são as infinitas religiões, mas a água da fé é a mesma.

Quanto à política ela é certamente uma força para o bem. Sem a política – com todos os seus erros, falhas e decepções – sobra apenas a selvageria. Não por acaso política vem de “polis”, cidade, pois antes da política vivíamos sob as leis da selva. A política é, portanto, o projeto de solidariedade que se contrapõe ao mal estar da civilização.

Mas veja, eu apenas argumento – me contrapondo à onda dos novos ateus – que as religiões são espelho das aspirações, desejos e valores humanos, e não a fonte de onde surgem. As religiões são criadas exatamente para dar conta dessa necessidade. Assim, nós não seguimos as religiões; são elas que nos seguem. Para entender melhor o que acredito ser o âmago das religiões esta explicação abaixo do escritor Reza Aslan me parece a mais concisa e didática.

Pode ter certeza que os católicos e os protestantes não guerrearam por causa de religião na Irlanda e nem mesmo na Guerra dos Cem anos, mas por questões políticas, dinheiro, comércio, influências regionais, etc, pela mesma razão que os judeus e muçulmanos lutam até hoje pela terra na Palestina, e não por discordâncias em suas escrituras, tanto quanto os católicos e protestantes da Irlanda lutaram durante muitos anos pela independência da Irlanda tendo de um lado os nacionalistas católicos e do outro os ingleses protestantes invasores. As religiões são falsamente colocadas como origem dos conflitos, mas elas estão apenas nesta posição para tirar o debate das verdadeiras questões.

Para entender melhor veja que as elites financeiras no mundo inteiro – e agora de forma bem marcante no Brasil – colocam a corrupção como seu cavalo de batalha, mas os governos que elas administram são no mínimo tão corruptos (ao meu ver mais) do que os governos que combatiam chamando-os de “corruptos“, “mar de lama“, etc. Então por quê? Ora, porque essa questão moral (como a religião) desvia a atenção das pessoas e produz identificação com um dos lados, mas afasta as razões verdadeiras do radar de cada um de nós. No nosso caso, a equidade e a justiça social. Mas se você se contrapõe a ideia de que a corrupção é a fonte maior dos nossos males você é automaticamente visto como “apoiador de corruptos“.

Veja mais sobre o tema aqui, na entrevista com Karen Armstrong.

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Corações e Mentes

Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio nossa professora de português nos levou ao cinema para ver um filme recém lançado que se chamava “Corações e Mentes”. Tratava-se de um documentário sobre a guerra do Vietnã, produzido um ano após a retirada das tropas americanas da Indochina e um ano antes da “Batalha de Saigon”, que selou o fim da guerra em 1975. Entre 1 e 3 milhões de vietnamitas perderam a vida nos combates, numa luta insana pelo direito de escolherem seu próprio destino após séculos de dominação estrangeira.

O filme me marcou profundamente pelas cenas de bombardeios, a crueza das torturas, o depoimento tocante dos soldados – que eram obrigados a despejar bombas sobre vilarejos – e tantas outras crueldades. Entretanto, nada me chocou mais do que a fala de um general americano chamado William Westmoreland – curiosamente seu sobrenome significa “mais terras para o oeste” – tanto é que suas palavras e sua expressão apática não me saíram da memória passados já mais de 40 anos.

A fala que tanto me impactou se situa no final do documentário. Em breves segundos ele dizia textualmente que “Os orientais não dão o mesmo alto valor à vida que um ocidental. Para eles a vida é abundante e barata. A filosofia do Oriente expressa isso: a vida não é importante”.

Para mim foi um choque, mas é possível entender perfeitamente as motivações desse general. Para quem pode determinar com um simples aceno de quepe a matança de mulheres e crianças em um vilarejo pobre da Indochina a única forma de suportar tamanha crueldade e covardia é criar a fantasia de que, aquilo que chamamos “vida”, para eles tem um valor menor. Assim, as lágrimas de uma mãe americana sobre o caixão do filho que volta morto da guerra têm muito mais valor do que aquelas vertidas por uma mãe oriental que carrega seu filho sem vida descarnado pelo Napalm. Desta forma, desumanizando o inimigo, é mais fácil cometer as mais brutais atrocidades, pois criamos uma barreira que nos impede o acesso à empatia. Tratamos os inimigos – incluindo seus anciãos, mulheres grávidas e crianças – como gado, ovelhas, para que o extermínio de suas vidas não nos cause dor, culpa ou remorso.

Quando eu presenciava alguém fazendo acusações criminosas contra os palestinos dizendo que usam os próprios filhos como “escudos humanos” – sem uma prova qualquer dessa barbárie – eu sempre lhes perguntava: “Se uma nação estrangeira viesse ocupar sua cidade você colocaria seus filhos na janela de casa para serem o alvo das balas inimigas?” e a reação era sempre um sonoro “NÃO“. Eu, então, questionava: “E por que acha que um palestino faria isso com seus próprios filhos?” e a resposta que se seguia cursava a mesma linha do General William Westmoreland: “Ora, apenas porque eles não são humanos como nós, não dão valor à vida dos seus filhos como nós damos”.

Para perpetuar os massacres covardes contra crianças, bebês e famílias inteiras em Gaza é necessário criar e disseminar um projeto de desumanização dessa população. Só assim a dor de sua carne em brasa se torna diferente da nossa, suas perdas ficam insignificantes e nossos atos monstruosos se tornam aceitáveis.

Chamar de “terroristas” os palestinos que lutam por sua terra, sua autonomia, sua liberdade e pelo fim do Apartheid é tão equivocado quanto usar a mesma palavra para descrever a Resistência Francesa e os Vietcongues, que fizeram exatamente o mesmo. Criar a falsa narrativa de desapego palestino à vida dos próprios filhos é uma covardia sustentada por uma farsa. O mundo precisa enfrentar o imperialismo e o colonialismo racista que nos asfixia, se é que ainda temos esperança de sobreviver enquanto espécie.

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Miko

Não resta dúvida que para as esquerdas é fundamental nos aprofundarmos na luta anti racista, na luta por direitos humanos reprodutivos e sexuais (incluindo aí a luta pelo parto humanizado), na conquista da autonomia de corpos, na proteção aos grupos vulneráveis, etc. Modelos sectários baseados em identidades não cabem mais na nossa sociedade e não podem mais ser confundidos com as bandeiras históricas que defendemos.

Meu paradigma nessa história se chama Miko Peled, que provavelmente poucos conhecem. Israelense, por volta dos 50 anos, judeu. É filho de um famoso general de Israelense, herói da guerra do Yom Kipur, Matti Peled, já falecido. Quando jovem, ainda vivendo em Jerusalém, Miko viu sua sobrinha morrer em um ataque suicida causado por um homem bomba do Fatah. No dia seguinte políticos e jornais israelenses clamavam por vingança e retaliação contra os terroristas árabes. Diante das câmeras a irmã de Miko, mãe da menina morta e uma conhecida professora judia israelense, disse em lágrimas para os jornalistas: “A culpa dessa morte é do governo de Israel, que nunca deu aos palestinos qualquer alternativa para além do terror. Não aceito nenhuma retaliação em meu nome ou de minha família, porque jamais aceitarei que uma mãe Palestina sofra a dor que agora estou sentindo”.

Miko, alguns anos depois e já morando nos Estados Unidos, conheceu na Universidade um grupo de ativistas palestinos e, apesar da desconfiança, aceitou escutá-los. Ao inteirar-se pela primeira vez da narrativa dos “inimigos”, dos “terroristas”, dos “bárbaros árabes” com mais de 30 anos de idade ele viu seu mundo de crenças sionistas desabar.

Sim, eles eram os terroristas, não os palestinos. Pela primeira vez entendeu o Nakba, a expulsão, os massacres, o êxodo e o exílio palestinos. A partir de então escreveu um livro chamado “O Filho do General” e iniciou sua trajetória como palestrante, ativista, defensor dos palestinos, da paz, de uma solução desarmada, pelo BDS e por uma consciência mundial sobre o regime de Apartheid de Israel.Conto essa história porque Miko não é palestino árabe. Nunca sofreu diretamente na pele a dor de ser estrangeiro em sua própria terra. Não teve sua família morta pelo exército de ocupação e nem foi preso por jogar pedras em quem matou seus vizinhos e primos. Porém, Miko foi convencido por amor e não por oposição.

Um palestino “identitário” o veria como um inimigo de sua identidade árabe, por não ter sua língua e sua pele escura. Por ser judeu jamais seria aceito, e suas palavras seriam bloqueadas com o silenciamento do “lugar de fala”. Ora, “como você ousa falar da Palestina seu judeu opressor?”, poderia ser a reação dos que não enxergam nele a identidade Palestina, a única que lhe garantiria direito de falar.

Entretanto, Miko sabe que a Palestina é o seu lar também e por isso mesmo não aceitou jamais ser calado. Ao lado de outros ativistas, árabes e judeus, debate abertamente uma solução para a Palestina. Ousa discordar em alguns temas com o direito que a paixão pela Palestina lhe confere.

Da mesma forma muitos homens brancos sabem que um mundo que oprime mulheres, gays, trans e que despreza negros também é o seu mundo e por esta razão desejam falar de sua inconformidade e lutar contra estas injustiças. Porém, muitos são silenciados por um identitarismo sectário que se move por ressentimentos e preconceitos, que apenas afastam muitos dos possíveis aliados.

Precisamos de um mundo com mais Miko Peled e menos revanchismos estéreis.

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Jean Wyllys e a Palestina

Eu gosto de algumas posições do Jean e muitas das causas que ele defende, apesar de ser critico de algumas outras. Por isso mesmo, por admirar sua coragem e apoiar algumas pautas (como a humanização do nascimento), eu fiquei profundamente decepcionado com sua ida à Palestina, através de um convite mequetrefe da Universidade para debater “diversidade”, caindo no alçapão do pinkwashing sionista.

Enquanto estava lá, no “convescote racista” do qual participou, ele chegou a escrever alguns textos defendendo sua presença no seminário. As explicações eram eivadas do mais primário dos relativismos, ao estilo “os dois lados tem suas culpas”, “é preciso paz“, “o terrorismo precisa acabar“, “Israel tem o direito de existir“, “não aceitamos antissemitismo“, etc. Para terminar oferece a novidade de propor a “solução de dois Estados”, um judeu e outro árabe palestino.

Ora, qualquer um que se debruça sobre o tema sabe que a solução de dois Estados foi boicotada por Israel. O plano SEMPRE foi, desde 1948, a limpeza étnica e o genocídio. Hoje, com as invasões sistemáticas da linha verde, a solução de dois Estados é impossível, e só resta a solução de UMA Palestina – como nação multiétnica. Uma nação, vários povos. Como a Bélgica ou a Suíça, por exemplo, ou mesmo a África do Sul, que venceu o Apartheid.

Jean é o representante da esquerda sionista no Brasil que precisa ser confrontada, que precisa parar de beber da propaganda de Israel e reconhecer os crimes à humanidade perpetrados contra a população Palestina nativa.

Entretanto, por Jean ser homossexual e negro, ele sabe muito bem o que é preconceito, racismo e exclusão. Tenho a esperança de que esta conversa com Lula seja mais um tijolo a edificar uma troca de postura diante da causa Palestina. As pessoas podem aprender com seus erros e rever suas posturas.

Espero que Jean tenha a sabedoria para apagar esta mácula em sua biografia.

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Dois Estados

Israeli citizens hold Israeli flags and banners during a rally in Tel Aviv on April 19, 2016 to support Elor Azria, an Israeli soldier recently charged with manslaughter after shooting a prone and wounded Palestinian assailant in the head. The rally, attended by an estimated 5,000 people, was a source of controversy in Israel where the top brass have condemned Azria’s actions while far-right supporters and politicians urged his release. / AFP PHOTO / JACK GUEZ

Caros amigos…

Não vai chegar nenhuma solução de “Dois Estados” para a Palestina; não me tomem por ingênuo. Essa solução é uma mentira construida pelo Estado Sionista para enganar o mundo todo. Os acordos de Oslo e Camp David seguiram este mesmo roteiro farsesco, onde desejo sempre foi a supressão da população nativa e original pelo genocídio sistemático (desde 1948 milhões de Palestinos já foram mortos pelas forças de ocupação) e pela limpeza étnica, através das prisões desumanas (inclusive de mulheres e crianças) e pela simples expulsão – como no Nakba – que é um processo, não um evento.

Sim, eu sei o significado de Holocausto e posso lhes garantir que não é uma palavra que só pode ser usada para as mortes de judeus. Houve um holocausto na Armênia, outro na China ocupada, na Coreia, no Congo sob o regime de Leopoldo da Bélgica, nas populações nativas das Américas e agora testemunhamos um massacre na Palestina – que tem o direito de ser chamado de holocausto, por ter o racismo como principal motivação.

Não haverá “democracia” na Palestina enquanto existir um regime de Apartheid e de caráter segregacionista como o sionismo. Não há mais como tapar o sol com a peneira. Abram os jornais e pesquisem na Internet e vejam como o MUNDO INTEIRO já acordou para a vergonha de uma etnocracia racista – a última experiência de colonialismo a sobreviver no mundo atual.

O modelo de dois estados foi BOICOTADO por Israel com as invasões sistemáticas da “linha verde” – os limites de 1967 – e a multiplicação dos assentamentos ilegais, que continuam até hoje. A demolição continuada de casas e vilas inteiras de palestinos teve sua velocidade acelerada nos últimos anos com os governos de extrema direita, mas não há nenhuma hipótese de que um governo sionista de esquerda faria diferente – e a história prova que nunca o fizeram.

Democracia, meus caros, só com um estado multinacional, com voto abrangente para a população palestina, com o reconhecimento do árabe como língua nacional – junto com o hebraico – com escolas mistas, com liberdade religiosa e com governos democraticamente eleitos por todos que lá vivem.

Não venham com conversinhas. Façam o dever de casa primeiro. Não esqueçam que o maior parceiro da barbárie fascista do Brasil é exatamente Israel e seu fascismo.

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