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Crime

Um jovem, cuidado por um padrasto militar e explicitamente nazista, pega armas do pai (CAC), vai para dois colégios munido de armamento pesado e mata várias pessoas. Depois disso volta para casa e vai para a praia com a família. Parece um enredo de uma peça de Nelson Rodrigues, mas é apenas o fato ocorrido na cidade de Aracruz, no interior do Espírito Santo. Apesar de ser algo pouco comum no Brasil é algo que ocorre diariamente nos Estados Unidos (school shootings), o país que mais produz este tipo de ação destrutiva. Parece que as iniciativas de distribuição de armas protagonizada por Bolsonaro estão desde já mostrando seus resultados.

Diante da barbárie desta ação, e a frieza com a qual foi conduzida, nos perguntamos: Por quê?

Parafraseando Tolstói, “As pessoas que não matam o fazem por uma única razão; as que matam o fazem pelas mais diversas razões”. As que não matam tem estruturas psíquicas – muito mais do que a lei – que as impedem de tirar a vida de alguém. Mas todas as explicações que eu poderia dar para o fato de alguém matar um semelhante se encontram confinadas apenas ao espectro da neurose; não há como me identificar com alguém que circula na perversão. Estas razões são para mim são um mistério.

Para alguns a resposta é simples: “São criminosos brutais. Gente do mal. Que se entendam com a lei”. Neste caso, para que debater? Coloquem logo em uma jaula. Pronto, o problema está resolvido. Simples, não? Mas com esta simplificação não teremos mais a necessidade de abordar estes casos através do cientista social, do criminologista, da assistente social, do psicanalista e do psicólogo. Precisamos apenas sistema judiciário e carcereiros. Ahhh… e se o espancador não for da cor “normal” a gente sabe como o judiciário atua, não?

Veja, esse é o pensamento clássico punitivista, um modelo moralista que entende as pessoas de uma determinada localidade (cidade, país, planeta) como divididas entre dois grupos essenciais: pessoas “do bem” e pessoas “do mal“. Todo mundo conhece um bolsonarista que usa essa perspectiva e essa divisão da sociedade. Nessa lógica a aplicação da lei e a segregação (ou mesmo eliminação) das pessoas “do mal”, com eficiência e precisão, determinará que na sociedade (e em liberdade) sobrem apenas as pessoas “do bem”. Assim, a lei depura “o cesto que contém maçãs podres”.

E aqui está nossa dose diária de essencialismo moralizante. Esse é o pensamento neoliberal de direita, de gente de bem, armada, que atira em assaltantes, criminosos, traficantes etc. Quem pode dizer que estão errados?

Bem, eu digo. Se estes sujeitos são criminosos – e precisamos contê-los – isso não impede que sejam entendidos em suas motivações. Pelo contrário, precisamos levar a fundo a pergunta que é fundamental: “O que leva alguém a matar…” pois sem essa resposta faremos o mesmo que os americanos, que transformaram a América Livre no “país dos prisioneiros”, um lugar onde quase 2.3 milhões de pessoas estão encarceradas a um custo de mais de 50 bilhões de dólares anuais, sendo que 200 mil desses presos são mulheres e mães. Ou mesmo o Brasil, onde 920 mil pessoas tem privação da liberdade. E de que adianta esse aprisionamento em massa? Do ponto de vista da eliminação da violência NADA. As ações punitivas tem resultados pífios. O crime é muito mais consequência do que causa. Colocar gente na prisão apenas abre vaga para novatos aqui fora…

Um sujeito que espanca talvez peça socorro. Outro está reproduzindo a única matriz de relacionamento que aprendeu na infância. Outro é psicopata. Aquele outro se vingou de um espancamento que recebeu previamente. Cada sujeito espanca por sua história e suas dores. Mulheres são as maiores espancadoras de crianças – mas a gente encontra justificativas com muito mais facilidade, não? – e também elas precisam ser entendidas para podermos curar a ferida da violência doméstica em sua origem, e não na ponta do iceberg – a pancada explícita e pública.

Dizer que estes sujeitos são criminosos é a típica meia-verdade, porque quem furta uma blusa na loja do centro também é ladrão, assim como a mulher pobre que rouba comida para dar aos filhos famintos, mas a história por trás desses furtos muitas vezes pode nos fazer entender a lógica que os motivam. E sem entende esta lógica jamais conseguiremos prever que novos crimes ocorram, exatamente porque desconhecemos a fonte de onde brota. Por trás dessas histórias por certo estará a estrutura perversa da nossa sociedade, a falha do capitalismo em oferecer justiça social e equidade e sua decadência espalhafatosa, que faz surgir em várias partes do mundo a sombra monstruosa do fascismo e, aqui no Brasil, sua vertente mais excludente e violenta: o neonazismo moreno brazuca.

Desta forma, sem entender o sujeito criminoso e o contexto político, econômico e social que o envolve qualquer abordagem será parcial. Prender o criminoso, seja ele o espancador, o assassino, o ladrão pode ter o efeito de estancar a hemorragia temporariamente – e por isso não podemos abrir mão da repressão ao crime – mas nada faz para impedir que novos cortes ocorram na carne da sociedade. Somos uma sociedade perversa; como esperávamos que os sujeitos que nela se criam não tomassem a perversidade como um signo a seguir?

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Trabalho

A mensagem que fica, a partir da ingênua resposta da menina é: você não precisa ser uma mera empregada (comissária de bordo); pode ser uma empresária e dona de um avião. Essa é a moral que subjaz, o subtexto que brota das palavras da menina, travestida de empoderamento feminino. Troque “avião” por qualquer setor do capitalismo, como loja, fábrica, empresa, escritório, etc… e verá que existe um nível de valoração que vai do mais baixo (o trabalhador, a comissária, o empregado) até o capitalista (o dono do avião, o proprietário da empresa, o dono da loja), como se trabalhar e ter uma função (como o simples proletário e a comissária) fosse menos nobre, menos válido ou menos importante do que ser um capitalista dono das coisas, cuja virtude fundamental é possuir grandes volumes de dinheiro, cuja origem é sempre desconsiderada nesta equação.

Pior: as palavras da garota escondem a verdade, vendendo a imagem ilusória de que uma menina pode vir a ser dona de um avião “se ela se esforçar muito“, quando a realidade material mostra que os donos de avião – e de fábricas, de terras, de grandes lojas, etc – pouco se esforçaram na vida em comparação ao trabalhador comum – como qualquer um de nós. Apesar de exceções notáveis e pontuais, são pessoas cuja riqueza vem de suas famílias, de sua classe, de seus contatos e do acúmulo de capital que as gerações anteriores produziram. Portanto, a frase contém uma glamorização do capitalismo e dos bilionários, enquanto insiste na desvalorização do trabalho de todos nós, o qual é tratado como algo menor, menos valoroso e menos interessante quando comparado com o charme de ser bilionário…

Para que fique mais fácil entender, se esse avião for da Virgin Airlines a dona dele se chama Joan Templeman, esposa de Richard Branson, e ela se esforçou durante a sua vida muito menos do que qualquer comissária de bordo. Essa é a questão de querer ser “dono” ao invés de ser “trabalhador”. Para trabalhar é preciso esforço; para ser “dono” nem sempre.

Para descontrair:

A enfermeira sorridente apresenta o bebê recém nascido à sua irmãzinha pelo vidro da maternidade. Ao lado da menina o pai sorri para a moça com o bebê nos braços e diz para sua filha:

– Sabia que se você estudar bastante também poderá ser uma parteira?
A menina põe as mãos na cintura, empina o queixo e então responde:
– Se eu quiser posso ser a dona do hospital!!

Os demais pais, que aguardavam ansiosos para ver seus bebês na sala de espera, abraçam e consolam o pobre pai que cai em prantos enquanto diz entre soluços: “onde foi que dei errei? O que fiz de tão errado?”.

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Direitas

As direitas europeias, sem perceber que estão no olho do furacão da crise capitalista, confundem adotar uma posição “antissistema” com namorar o nazifascismo. Ou seja, mais cedo ou mais tarde as direitas no mundo inteiro se rendem à sedução moralista, ao “patriotismo”, à constituição patriarcal da família e à teocracia. Acreditam que existe uma “grande ordem mundial” perversa e destrutiva, semelhante aos “sábios do Sião”, que controla o capitalismo e o corrompe. “Não é o sistema“, dizem eles, “são os imorais e gananciosos que o controlam“.

Infelizmente não perceberam ainda que o “mostro tenebroso” que nos oprime não é quem controla o capitalismo, mas o próprio capitalismo, que se desmancha em frente aos nossos olhos por sua incapacidade de oferecer saúde, segurança, educação, justiça social e prosperidade ao povo. O que estamos vendo nos últimos anos é exatamente mais uma crise brutal de seus valores, regurgitada em convulsões, autoritarismo, Orbán, Bolsonaro, guerra na Ucrânia e declínio do Império. Não há possibilidade de mudar o destino catastrófico do mundo sem mudar seu sistema. Não se trata de “se”, mas “quando”, pois que nossa alternativa é a autodestruição.

Socialismo ou barbárie.

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Ame-se

“Ame a si mesmo acima de tudo”

“A melhor companhia é você mesmo”

“Seu melhor amigo você encontra olhando no espelho”

“Seja a melhor companhia para você mesma”

“Aperte o foda-se”

“Ame-se”

Estes são os mantras da sociedades contemporâneas, repetidos indefinidamente pelo capitalismo individualista, o mesmo que lhe transforma em um ser superior e soberano por possuir um cartão de crédito na carteira. Nesse mundo as relações sociais tornam-se muletas, penduricalhos afetivos; o ser social superior pós-moderno é solitário, independente, consumidor e frio.

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Divisionismos

Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito.”

A legenda dessa foto na internet, escrita por um homem, foi: “Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito”.

A resposta de uma internauta indignada foi: “Sempre tem um macho que…”

A manifestação desse sujeito é obviamente idiota, e realmente está romantizando o trabalho escravo e desumano ao qual as mulheres se submetem. Não há nada de romântico ou nobre em trazer um filho pequeno para seu trabalho por absoluta falta de suporte, seja de creches ou de licenças especiais para a maternagem. Não há dúvida que esta mulher merece todo o nosso respeito, mas não apenas isso; ela merece justiça e valorização do seu trabalho. Não é sobre o respeito que devemos debater…

Entretanto, me incomoda muito quando alguém diz que isso foi dito por um “macho”, como se a motivação para escrever esta tolice foi pelo fato de pertencer ao gênero masculino. Aliás, por acaso causaria surpresa se essa frase fosse escrita por uma mulher? Por certo que não… E por que usar a palavra “macho”? Seria “macho” uma “acusação”, um humano com uma maneira equivocada e violenta de ser no mundo? Pois na minha perspectiva essa legenda não foi escrita porque seu autor é homem, mas porque foi a expressão de alguém que se deixa seduzir pela ideia da “meritocracia subserviente”, e foi escrita pelos mesmos que aplaudem quando meninos de 10 ou 12 anos saem para trabalhar na rua para sustentar suas famílias. Chamam a estes personagens de “trabalhadores”, “heróis”, “bravos guerreiros”, e deixam de enxergar o quanto de exploração e abuso criminoso existe nestas atitudes.

Acreditam mesmo que são os homens os inimigos, aqueles que estão na origem da iniquidade? Seriam eles a causa primeira desse problema? Quando vamos entender que no momento em que essa foto foi tirada havia um homem morrendo ao cair de um andaime, sendo baleado pela polícia, morrendo no trânsito, sofrendo um acidente de trabalho, mergulhando a 100 metros de profundidade para consertar um cano ou subindo a 200 metros de altura para ajustar um cabo de alta tensão? Alguns mergulham no esgoto, outros carregam o seu lixo nas ruas, sem falar nas guerras onde 99% dos mortos são homens ou nos suicídios em que 80% são cometidos por homens jovens. Esse tipo de ideia – de que o sofrimento das mulheres é causado pelos homens – é tolo, sem base, sem sentido e divisionista. Da mesma forma o sofrimento desses homens não pode recair sobre as mulheres, tão vitimadas quanto eles por um modelo cruel.

Esse desequilíbrio, essa dor, essa injustiça são causados por um sistema injusto que atinge a todos e se chama capitalismo, um modelo social perverso que divide as sociedades em classes, onde quem determina é o capital e não o sexo, o talento, a competência, a orientação sexual ou a capacidade. Culpar os homens – como se o fato de ser homem fosse crime – é indecente e errado, tão equivocado quanto ver um miserável negro apontando o dedo para o seu vizinho branco – e tão f*dido quanto ele – chamando-o de “opressor”. Esse tipo de acusação faz os ricos, os rentistas e a elite financeira darem gargalhadas. “Enquanto eles se acusam entre si não percebem que ferramos a todos”.

O identitarismo é um movimento de direita, importado dos imperialistas do partido democrata americano, cujo grande objetivo é dividir as sociedades em grupos de identidade, fazendo-os cegos à realidade das classes. Apostar nessa perspectiva de mundo é aceitar a dominação e a divisão e permitir que a subserviência ao imperialismo e ao capital sejam determinantes imutáveis.

A imagem mostra uma vitima das sociedade de classes, e não dos homens. Os homens são igualmente vítimas desse modelo e ficar debatendo quem é “mais vítima” é inútil quando temos uma tarefa muito mais nobre e importante pela frente: o fim do capitalismo e de toda a ideia de castas na sociedade.

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A Patologia Social dos Biliardários

Foto: Carta Capital

Numa sociedade dividida em classes, onde existem bolhas que separam as castas sociais, bilionários são pessoas distantes do nosso convívio regular. Em função dessa distância, e da necessidade de essencializar as diferenças, os bilionários desenvolvem desprezo pelo povo, seus jeitos, seu cheiro, suas roupas, sua música, seu linguajar. Essa percepção que têm de nós surge do fato de que eles se isolam num universo onde apenas encontram seus iguais – outros bilionários – cuja fortuna foi certamente forjada na exploração do trabalho alheio, na pilhagem, no roubo, à sombra dos poderosos e com doses quase imperceptíveis de escrúpulos. O jornalista Chris Hedges tem um excelente ponto de vista no que diz respeito à “Patologia dos Ricos”, afirmando que nossa percepção dos muito ricos é baseada em propaganda e que não espelha a realidade da sociopatia que tal divisão de classes proporciona.

Muitos, e durante muito tempo, acreditaram que um dos principais problemas está na falta de educação do povo, o que faz com que tenhamos políticos despreparados para dar conta das coisas do país. Em verdade, os oligarcas brasileiros – e igualmente os americanos – são paridos nas melhores escolas e com a melhor educação que se conhece. O problema não é a falta de preparo e de educação, mas um sistema político que escolhe representantes nas classes dominantes sucumbindo à ilusão de que sua educação os faria agir de forma a produzir progresso e justiça social.

Atenção: o “biliardário” não é o seu vizinho que tem uma casa de dois andares na praia ou que tem uma Hylux na garagem. Esse é o “rico” da classe média. O biliardário é um sujeito que você nunca viu pessoalmente.

Bilionários vivem em bolhas de privilégios, em condomínios fechados de usura e abundância indecentes. As únicas pessoas normais a quem encontram são vassalos, serviçais, muitos deles esperando uma pequena migalha ou o sublime êxtase de dizerem-se próximos do “comendador” ou da “fulana, rica e extravagante”. São personagens que desde crianças foram ensinados dar ordens a adultos; empregadas, babás, motoristas, diaristas, etc, acostumado-se a olhar a quem trabalha de cima para baixo. O mundo das gentes normais é algo que assistem com certo desprezo, com distância, olhando através de suas gigantescas TVs panorâmicas de plasma. A tragédia ocorre quando sujeitos com essa formação assumem posições do poder, como a família Bush, os Clinton, Trump, os Kennedy ou Boris Johnson, pois que enxergam o povo com profundo menosprezo, como uma imensa massa de serviçais ao seu serviço – e não o oposto, como somos iludimos a pensar.

Por certo que não é preciso dizer que toda a riqueza obscena que os cerca desde o berço não é garantia alguma de felicidade, realização ou alegria. Vidas construídas sobre “coisas” frequentemente são tão frágeis quanto a matéria que constitui seus objetos, a qual se deprecia rapidamente. Acreditar na capacidade do dinheiro em produzir a realização plena do sujeito é desprezar as evidências cotidianas que nos mostram a inexistência dessa conexão.

Uma amiga doula americana certa feita foi convidada para atender um casal herdeiro de uma família bilionária de um país distante. Recebeu para isso altos honorários e todas as despesas pagas. Depois do atendimento ela descreveu o casal como pessoas extremamente simples, com hábitos mundanos e triviais, iguais aos de qualquer mortal. “Gente como nós”, disse ela com a doçura que lhe caracteriza.

Eu lhe respondi que até a Rainha da Inglaterra pareceria normal num contato trivial e ocasional. Entretanto, os valores do sujeito vão inexoravelmente aparecer quando forem colocados à prova – em especial num momento de crise. O sujeito que desprezou e xingou policiais na frente da sua casa, dizendo ganhar milhões enquanto eles não passavam de pobres funcionários públicos, apenas expôs seu espírito deteriorado em um momento de crise, deflagrado por uma quantidade razoável de álcool. Posso apostar que, no dia a dia, ele é um sujeito que dissimula e esconde com perfeição seus preconceitos e o desprezo que, em essência, nutre pelos que estão abaixo de si na pirâmide dos ganhos materiais.

Zardoz, filme de 1974 com Sean Connery

O mesmo posso imaginar do jovem casal de bilionários, que certamente vivem no Valhalla dos ricos, no Olimpo dos “diferenciados” e que não conhecem, como nós, o preço do quilo da alcatra e não se espanta com o preço do leite. O mundo contemporâneo criou o universo distópico de Zardoz, um obscuro filme de 1974 com Sean Connery, onde a população rica vive reclusa em redomas de vidro para se proteger da crescente massa de miseráveis. E não se trata de uma avaliação de ordem moral, mas uma perspectiva de classes, onde a separação econômica – cuja ligação se dá pela exploração – produz uma ideologia e uma conduta cotidiana que naturalizam essa distância entre os bilionários e o povo por eles explorados.

Estabelecer conceitos – para o bem e para o mal – baseado nas informações superficiais colhidas em contatos ocasionais é sempre um passo para o equívoco ou a injustiça. Diga aí: quanto tempo você levou para se dar conta que aquele ex-campeão de Fórmula 1 era um reacionário de primeira?

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Massacres

UVALDE, TEXAS – 27 DE MAIO: Um memorial para as vítimas do tiroteio em massa na Robb Elementary School, onde 19 crianças e dois adultos foram mortos. 

Apesar de concordar que a proliferação de armas desempenha um papel importante na tragédia dos massacres em escolas nos Estados Unidos – como a que aconteceu recentemente na Escola Pública de Uvalde, Texas – creio que a simples eliminação delas seria o equivalente a “tirar o sofá da sala”. “Americanos possuem 46% das 857 milhões de armas de fogo nas mãos de civis no mundo todo, embora representem apenas 4% da população mundial. Estudo revela que há 120,5 armas de fogos ‘civis’ registradas por cada 100 habitantes nos EUA”. Por esta estatística recente, percebemos que existem mais armas do que habitantes nos Estados Unidos. Toda essa liberalidade, todavia, está prevista na constituição americana, exatamente na “segunda emenda”. Esta emenda à Constituição dos Estados Unidos protege o direito do povo e dos policiais de garantir a legitima defesa através manter ou portar armas. Foi aprovada em 15 de dezembro de 1791, juntamente com as outras nove emendas constitucionais constantes da Carta dos Direitos dos Estados Unidos ou Declaração dos Direitos dos Cidadãos dos Estados Unidos.

A epidemia de violência com armas através dos ataques à escolas mantém aceso o debate sobre a Segunda Emenda, mas também sobre quem teria o direito constitucionalmente protegido de portar armas. Todavia, frequentemente está ausente nesses debates o racismo intrínseco à aplicação desigual das leis sobre armas e a relação entre os apelos ao direito de uso das armas e a justificativa da violência das milícias. Ao longo da história americana a retórica da utilização de armas pela população civil foi manipulada para estimular a tensão racial e enquadrar a população negra como uma ameaça emergente.

Os mapas de massacres agora são feitos mensalmente

É óbvio que estes massacres cotidianos nos Estados Unidos são apenas o sintoma de uma sociedade doente; a retirada das armas através de leis severas de controle produziria tão somente a transmutação do sintoma, assim como acontece com os inúmeros vícios que criamos. Sem armas cresceria o tráfico e os ataques por outros meios, evidenciando as derivações da enfermidade sistêmica, como um tumor que, mesmo quando extirpado, não elimina o desequilíbrio que o produziu.

Não haverá saída para os massacres sem que tenhamos a coragem de cortar profundamente na carne, sem reconhecer que sua origem está em um sistema econômico que concentra a renda, que cria bilionários às custas da exploração dos recursos naturais e humanos do planeta inteiro, que condena enormes contingentes da população à miséria ou à sobrevivência através da caridade. Trata-se de um capitalismo doente, violento e desagregador – como é de sua natureza. Quando produzimos uma sociedade onde uma parcela minúscula controla a maior parte da riqueza da nação, criando um contingente crescente de “perdedores e fracassados”, é de se esperar que estas pessoas, excluídas da opulência capitalista, descubram uma forma de se vingar.

Portanto, quando as pessoas tratam a emergência dos sintomas como a própria doença estamos diante de um problema claro de diagnóstico. Os massacres que ocorrem nos Estados Unidos em escolas, assim como a ajuda astronômica deste país para sustentar guerras e golpes de Estado no mundo inteiro, não são problemas em si, mas manifestações de uma brutal crise no sistema capitalista, algo facilmente previsível se entendermos as próprias previsões que Karl Marx nos deixou no final do século XIX. Se continuarmos a tratar a “febre” como se fosse a própria doença deixaremos de tratar a infecção que a causou, atrasando a possibilidade de ajustar e equilibrar o organismo, seja este um sujeito ou uma sociedade.

O massacre mesmo não ocorre nas escolas, mas no mundo inteiro que se submete às regras impostas pelo Imperialismo.

A propósito, vejo especialistas falando da importância da educação escolar e os malefícios do “homeschooling” (teses com a quais eu concordo), mas ainda assim penso que, se eu tivesse filhos pequenos e morasse nos Estados Unidos, levaria muito a sério a possibilidade de educá-los longe de uma escola. Levar os filhos pequenos para um lugar onde a manifestação de frustração se manifesta com AR-15 e massacres de crianças deveria deixar qualquer pai em pânico.

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O nome da doença…

Os Estados Unidos é um país de drogados, mas essa catástrofe não surge pela aparição mágica de uma geração de degenerados. Pelo contrário; ela vem sendo fomentada há mais de um século e se agudiza pelas crises do capitalismo, tão inevitáveis quanto previsíveis. O nome da doença é capitalismo, o sintoma é a pandemia de mortes por abuso de drogas.

A indústria farmacêutica, ao vender a ideologia da solução exógena para os dilemas da alma, oferece a solução simples das drogas: da aspirina ao “cristal meth”, próteses para ocupar os buracos do nosso desejo insatisfeito.

Não há solução punitivista ou coercitiva para a endemia da drogadição. A única forma de tratar efetivamente esta ferida é entendê-la como o paliativo que usamos para acalmar nossas dores, e a solução só pode estar na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada, longe da miséria humana do capitalismo.

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Ilusões

Sempre imagino que a mesma ilusão que alimenta a ideia de uma cura para a neurose é a que hoje percebo que não se trata de curar desvios de processos adoecidos e disfuncionais, erros acumulados pelo caminhos ou traumas estruturantes, mas a tentativa ilusória de subverter a essência neurótica humana ou a perversidade inerente ao sistema capitalista. Para transformar a essência dessas estruturas só através do seu extermínio – pela morte e com o fim do capitalismo.

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O Dia em que Geni salvou a Terra

Um dos aspectos de Geni e o Zepelim – entre os inúmeros outros possíveis, além de infinitas metáforas e leituras – que mais gosto é aquele que aproxima a música de Chico Buarque de “O dia em que a Terra Parou”, filme de 1951, dirigido por Robert Wise, estrelado por Michael Rennie e adaptado de “Farewell to the Master”, de Harry Bates.

Neste filme, realizado logo após a II Guerra Mundial e nos primórdios do império americano, uma nave alienígena chega à Terra trazendo uma ameaça dos líderes de outra parte do universo. Inicialmente Klaatu, o alien (auxiliado por seu escudeiro robótico Gort), tenta dialogar com os cientistas da Terra e, quando deixa claro que deseja se encontrar com os governantes para alertá-los das consequências de seus atos nefastos, passa a ser hostilizado e ameaçado pelos humanos.

Na música de Chico ocorre uma trama semelhante. Um Zepelim prateado desce à terra e seu comandante “cheirando a brilho e a cobre”, se espanta com nossa estupidez e “ao ver tanto horror e iniquidade” resolve tudo explodir. Entretanto, avisa que poderá mudar de ideia se a transexual Geni o satisfizer por uma noite. Tanto o forasteiro do Zepelim quanto Klaatu são portadores de uma ameaça externa, e ambos são tomados de indignação e fúria ao se chocarem com a realidade de um planeta governado pelo egoísmo e corroído pela estrutura perversa da sociedade.

Em ambos os casos a solução vem pelo sacrifício e pelo amor. No caso de Chico, uma Geni que se entrega ao forasteiro temido e poderoso, salvando a Terra ao satisfazê-lo. Já na história de Harry Bates a salvação da civilização também ocorre pelo encontro com a “fissura bizarra na ordem cósmica”, a inesperada tensão sexual que se estabelece entre Klaatu e sua anfitriã, a senhora Helen Benson. Foi esse contato com o desejo que permitiu a Klaatu – mesmo ferido de morte – reconhecer a necessidade de oferecer à Terra uma nova chance.

Sim, eu reconheço que há uma leitura alternativa – e mais explícita – do filme dirigido por Robert Wise. Nesta visão, a película inaugura a “pax americana”. Os alienígenas – nobres, prateados, limpos e justos – seriam os americanos, a polícia do planeta, levando a democracia liberal e o capitalismo para os povos “bárbaros”, da Coreia ao Oriente Médio. Junto com estas regras impostas vem implícito um ultimato: comportem-se ou serão destruídos; ou no mínimo estrangulados, como Cuba, Irã e Venezuela.

Na história de Chico o mundo é salvo e tudo volta a ser “como dantes, no quartel de Abrantes”. Geni volta a ocupar o lugar social da puta desprezível e os preconceitos seguem inalterados. O sol volta a brilhar e a gratidão pela renúncia de Geni é rapidamente esquecida. Um final muito mais triste do que a ficção científica de “O dia em que a Terra Parou”.

A música de Chico agora vai se transformar em filme e desde já me pergunto: haverá um Zepelim? Prateado mesmo? Geni será uma atriz trans? O final será melancólico como na música?

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