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Ócio

Passei a vida inteira escutando gente se dizendo “workaholic”, como se isso fosse uma virtude, como se trabalhar como uma máquina fosse algo bonito ou nobre, afirmando “não ter tempo”, dando a entender que essa falta era algo admirável e lhe conferia valor e importância. Pois eu digo que boa parte desses sujeitos colocam “stent” no coração aos 45 anos, estão impotentes, obesos, angustiados, solitários, sem amores, pagando pensão e carregados de remorsos. Estão cercados de coisas, objetos, posses, “cargo”, com os quais desenvolvem relações afetivas imaginárias e doentias.

Eu sempre me contrapus a essa ideologia com veemência. Sempre achei que um sujeito não pode ser definido apenas pela sua função social e passei a defender o ócio e o lazer como armas potentes para enfrentar a desumanização do capitalismo. Sempre tive arrepios quando as pessoas usavam desculpas estúpidas para “cancelar o Carnaval”, economizando com lazer, não investindo em música, teatro ou arte e usando como argumento a ideia de que esse dinheiro seria mais bem usado em hospitais e ensino de qualidade.

MENTIRA!!! O lazer é tão importante quanto uma escola ou um hospital, e música é tão importante quanto medicina!! A diversão é uma parte sagrada da vida. Sem o ócio não teríamos 80% da produção literária do mundo; sem a diversão seríamos uma espécie eficiente, porém robotizada, doente e infeliz. Observe bem: quem faz esse discurso sobre a “sacralidade do trabalho”, pela dedicação ao serviço, pedindo para “vestirem a camiseta da empresa” são os patrões, pois eles tem seu lazer garantido pela maisvalia que subtraem do serviço alheio. Todavia, acham que o prazer dos outros é um desperdício imoral…

Esta é uma causa que nos cabe seguir!!! Pelo direito à vagabundagem, aos passeios, a ficar com as crianças, ver uma série na TV, sair de férias, nadar no rio, jogar cartas, ter um hobbie, namorar a vontade e brincar sem culpa. Pelo fim da escravidão moderna!!!

Para ler mais sobre o tema, veja aqui um texto de 2013 sobre a mesma questão.

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Cacarecos

Que tal um Natal com poucos cacarecos?

Pensem bem antes de dar presentes em festas comerciais!! No fim das contas pode sair muito caro. O stress, a exposição ao vírus, o custo inflacionado dos brinquedos a (in)utilidade do presente, etc. Será mesmo que vale a pena tanto esforço em troca de um carinho que pode ser recebido com a simples presença e a comunhão?

Não esqueça que o presente verdadeiro nessa negociação capitalista é o impacto no sujeito causado pela fugaz gratidão infantil. Ela dura poucos minutos e depois o apetite de afeto das crianças exigirá mais presentes, e assim indefinidamente. O desejo é infinito, os recursos não…

Meu conselho é que sejam fortes e resistam à pressão. Crianças que recebem presentes demais tornam-se insensíveis às coisas, aos objetos. É uma adição como qualquer outra; depois de um certo tempo só doses mais fortes conseguem produzir a endorfina necessária para o disparo da onda de prazer.

Não usem as crianças como lenitivos para seus traumas infantis. Graças às inúmeras faltas da infância é que desenvolvemos o desejo de conquistar algo mais na vida. “Toda conquista se faz a partir dos escombros de um fracasso”. Não permita que seus traumas prejudiquem seus filhos e netos. Acreditem no potencial deles em desenvolver criatividade, alegria e sucesso sem a necessidade de acumular coisas.

O Natal é o melhor momento para ensinar as crianças como suportar a frustração consumista.

Tenham todos um Feliz Natal com pouca coisa…

Veja outro post meu aqui

… e leia mais sobre o tema aqui

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Liberais

Há alguns anos eu conversava com o pediatra e epidemiologista Marsden Wagner (já falecido) enquanto tomávamos café no intervalo de uma conferência. Mostrei a ele a manifestação de um professor da Faculdade de Medicina da minha cidade sobre parto humanizado, cheia de críticas vulgares e posturas sem embasamento.

– Um “liberal”, disse ele. Estes são sempre os mais perigosos.

Pedi que me explicasse o que queria dizer com isso.

– Vou descrevê-lo, mesmo sem tê-lo visto jamais. Ele é sério, educado, afirma que mudanças são necessárias, que os médicos realmente abusam das cesarianas, que é preciso melhorar o ensino de obstetrícia, que os médicos de hoje não querem mais atender partos, que a arte obstétrica está acabando e que os médicos atuais “atrofiaram” suas habilidades de atender partos pélvicos e gemelares. Ele se posiciona contra condutas baseadas em “autoridade” e cita com frequência estudos e metanálises, em especial a Biblioteca Cochrane.

– Exatamente, disse eu. Você o descreveu muito bem.

Marsden continuou.

– Eles são os liberais da medicina, Ric. Acreditam que é possível “ajustar” o modelo hegemônico, sem mudar sua essência opressiva. Acham que as falhas encontradas (como o abuso de cesarianas, violência obstétrica, etc) não são devidas a um paradigma equivocado, mas relacionadas ao mau uso do modelo atual. Por isso eles falam em melhorar o atendimento, mas não aceitam sua reformulação. Aposto como ele combate os 3 pontos nevrálgicos do modelo de parteria:

1- Atendimento por parteiras profissionais aos partos de risco habitual,
2- Casas de Parto e
3- Parto Domiciliar.


– Acertei?

– Sim, este é exatamente seu discurso. Sempre fez de tudo para boicotar o atendimento ao parto realizado pela enfermagem no hospital escola, além de combater todas as formas de parto extra-hospitalar.

– Eles são iguais no mundo todo, meu caro. São gentis, estudiosos, avançados e se diferenciam da “velha guarda” dos professores. Entretanto, acreditam que é possível mudar a assistência deixando as pacientes atreladas ao velho paradigma – que garante aos profissionais relevância e importância social – mantendo gestantes coisificadas, tratadas como objetos e não como sujeitos de seus partos. Para eles o protagonismo reservado ao médico é o limite. Avançar para além disso seria uma perda inaceitável de controle, além de um sério risco de ver desaparecer toda a respeitabilidade conquistada.

Lembrei disso hoje ao debater sobre os liberais de esquerda, aqueles que acreditam na possibilidade de “domesticar o capitalismo”, humanizando-o e eliminando seus “exageros”, sem reconhecer que é da essência do capitalismo a divisão em classes e a exploração de uma pela outra.

O mesmo ocorre com os liberais da atenção ao parto e nascimento, os quais acreditam ser possível produzir avanços e melhorias mantendo a mesma lógica da assistência, a mesma hierarquia rígida e o mesmo sistema de poderes centrado no médico. Todavia, sem a garantia do protagonismo à mulher conquistaremos apenas a “sofisticação” da tutela sobre elas exercida há milênios pelo patriarcado. A verdadeira mudança profunda será possível com esta garantia e o entendimento que o nascimento só poderá ser verdadeiramente seguro se for com autonomia e em liberdade.

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Drogas

Sempre foi minha ideia de que não se faz bom combate ao uso de drogas com proibição. Isso se chama “proibicionismo” e não funciona no nível subjetivo. Não funciona agora – mesmo com todo dinheiro investido – assim como não funcionou há 100 anos com a “lei seca” nos Estados Unidos, que só criou “mercado paralelo” e produziu milionários (como os Kennedy) que exploravam o tráfico. Teve que ser abandonada logo depois. Da mesma forma proibir maconha é inútil e só serve para eliminar pretos e pobres e para enriquecer traficantes e políticos corruptos.

Outra coisa: não é a droga que vai fazer uma criança fracassar na vida, é o contrário. É uma vida fracassada e cheia de dores morais que vai levar um sujeito às drogas. Droga não é a origem do mal… É CONSEQUÊNCIA. A guerra às drogas é o ato desesperado de “tirar o sofá da sala”, trocando o resultado por sua causa. Este tipo de ato não produz nenhum benefício social. Não interrompe o uso e só coloca jovens pobres na cadeia onde farão a faculdade do crime. Em suma: uma perda de tempo e recursos que poderiam ser usados na prevenção.

É qual a prevenção? A resposta curta é acabar com o capitalismo, um sistema econômico que sobrevive do consumo de inutilidades (ou produtos para o desejo infinito, e não para reais necessidades) e que torna doentes e fracassados aqueles que não podem consumir. A droga se torna uma válvula de escape natural.

A resposta mais longa é parar com o estímulo à todas as drogas – sim, os remédios inclusive – dos quais as sociedades atuais se tornaram dependentes. Hoje se morre MUITO mais de ansiolíticos e antidepressivos do que de maconha e cocaína. MUITO MAIS. Por ano são 200 mil pacientes que morrem pelos efeitos colaterais de remédios prescritos, apenas nos Estados Unidos, e isso é muita gente!!! Essa medicina tecnocrática, drogal e intervencionista já é a terceira causa de morte entre os americanos, atrás apenas de doenças cardíacas e câncer.

Precisamos combater a CULTURA DA DROGA, que nos faz acreditar que a cura da angústia se vende em pílulas ou injeções. Qual a possibilidade de um adolescente não se drogar se desde a mais tenra infância ele é ensinado de que “para cada sintoma corresponde uma droga que se compra na farmácia”?

Ora… quando a adolescência e suas dúvidas e angústias começarem a doer de verdade (quem já não sentiu na pele essas dores?) ele vai procurar uma droga que lhe produza alívio; na farmácia ou na esquina. Como convencê-lo a não se drogar se a sua vida inteira houve estímulo para colocar nas drogas a solução dos dilemas????

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Classe

Perder eleição é momento, justiça social é um objetivo em longo prazo. À maioria expressiva do povo do Brasil sofre lavagem cerebral como todos que, mesmo sendo pobres, votam nos partidos dos ricos, acreditando que socialismo significa “não trabalhar”, quando é o OPOSTO: o capitalismo é que lhes dá o privilégio de não trabalhar e viver do trabalho alheio.

Ou achamos mesmo que os filhos dos milionários nos quais votamos trabalham e se esforçam igual a nós?

Não esqueça que passamos por um golpe. Lula ganharia a eleição de não fosse impedido por um juiz corrupto e uma mídia vendida. Mas eles sabiam que era necessário convencer os tolos – que consomem fake news pelo whatsapp – de que o problema do Brasil é a “corrupção do PT”. Veja… fomos tão estupidamente enganados que nem nos demos conta que (re)colocamos no poder o CENTRÃO, os partidos mais acusados de corrupção da história do Brasil. Pior, fazemos ainda vistas grossas para a corrupção da familícia do presidente. Sequer comentamos mais o fato de que nunca houve uma prova sequer contra o presidente Lula.

Em verdade, não queremos mesmo acabar com a corrupção; nunca foi do interesse da elite e dos poderosos terminar com isso. O que não suportamos é a justiça social; não desejamos acabar com a miséria, a fome ou a falta de moradias dignas. Não aceitamos pobres viajando de avião, ou comprando carros e TVs. E tudo isso porque nos consideramos “ricos”, diferentes dos pobres, apenas porque alguns tem o título de “doutor”, ou porque o mercadinho ou a lojinha nos fazem ganhar um pouquinho mais do que nosso vizinho.

Tolos… nunca faremos parte da festa dos ricos. No máximo seremos os garçons ou flanelinhas para os carros deles. Talvez o médico que vai atender a bebedeira deles e seus vômitos de canapés com Champagne.

Falta espelho. Falta ver quem somos. Falta reconhecer a classe onde fincamos nossos pés.

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