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Medicina, capitalismo e desastres

Enquanto a medicina for inserida dentro do capitalismo, a venda de drogas continuar a ser um dos maiores negócios transnacionais e a sua publicidade liberada – prometendo beleza, saúde, juventude eterna, felicidade e o fim da angústia – casos como o do jovem fisiculturista encontrado morto ainda serão muito comuns. Os elementos que mais chamam a atenção nesse caso são a idade, a aparência saudável e o gênero da vítima. Sim, estas tragédias são muito mais comuns nas mulheres, que são afetadas por estes tratamentos “mágicos” há milhares de anos, submetendo-se a tratamentos, cirurgias, dietas e drogas na ilusão de permanecerem eternamente desejáveis. Nem precisa lembrar os “pés de lótus“, que deformava os pezinhos das chinesas no período imperial, os “espartilhos“, as “canetinhas” e as cirurgias estéticas abusivas a que se submetem há milênios. Até dietas absurdas e restritivas foram causadoras de milhões de mortes. De acordo com estimativas, só no ano de 2023 dietas inadequadas foram causadoras de mais de 4 milhões de mortes por cardiopatia isquêmica (infartos). Também foram perdidos 97 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (o chamado índice DALY). Trata-se, portanto de uma mortandade superior às guerras!!

No início deste século perdi uma amiga parteira jovem que se submeteu a uma lipoaspiração apenas poucas semanas do nascimento da sua filha. As gordurinhas a mais lhe pareceram insuportáveis, e isso a levou psrs s cirurgia e ao trágico desfecho. Por muito tempo acreditei que essa morte poderia ser evitada com adequado aconselhamento. Pensava “se eu tivesse conversado com ela”, e isso me torturou por muito tempo. Entretanto, hoje eu penso com mais realismo. Que conselho poderia dar que seria capaz de suplantar a avalanche de publicidade que ela recebia desde a mais tenra infância sobre a necessidade de um corpo perfeito? O massacre publicitário a que ela se submeteu está em toda parte, nos filmes, novelas, revistas e na imagem do ser humano “moderno”, com seus corpos altamente “trincados”. Para isso criaram uma quantidade gigantesca de drogas e tratamentos – sem falar nos influencers – que lucram com essa indústria. A morte desse jovem vai para a conta desse modelo de sociedade que faz da imagem corporal uma indústria de lucro e morte.

Claro, não se trata de criticar o natural e saudável desejo de ter saúde, e nem a eventual necessidade de usar algum medicamento para este fim. Porém, neste caso específico, fica muito claro que não se trata de uma busca por saúde. Havia o interesse por uma imagem idealizada de poder, um falo gigantesco usado para expressar externamente valores da masculinidade – assim como fazem as mulheres com sua feminilidade, abusando das inserções de silicone ou cirurgias exageradas. O preço para estes exageros fica muito claro: doenças e até a morte precoce, antes mesmo de atingir a maturidade. A indústria de drogas lava as mãos, pois afinal o sujeito é livre para usá-las e não cabe a ela o dever de fazer avaliações morais ou estéticas sobre quem faz uso de seus produtos. Enquanto isso, as mortes por drogas legais se acumulam, tanto aquelas relacionadas com hormônios quanto com as famosas “canetinhas” emagrecedoras, cujos resultados funestos ainda não apareceram por completo, mas podem ser descobertos em médio e longo prazos.

Uma vida mais saudável, sem drogas de qualquer natureza – salvo em clara e evidente necessidade – deveria ser a conduta de todos. Esta deveria ser, em especial, a recomendação dos médicos, pois estes estudaram os efeitos ruins dos remédios que prescrevem, e os riscos associados ao seu uso. Entretanto, é da essência da medicina capitalista a adoção de tratamentos e remédios, cirurgias e intervenções sobre os corpos. Médicos são despachantes de drogas que, ao lado de auxiliarem o sujeito em algumas doenças, causam a alienação do paciente sobre a condução de sua própria saúde. Além disso, sáo os médicos os mais afetados pela publicidade da indústria farmacëutica, refém de uma indústria bilionária que precisa de suas prescrições. É pouco provável que surja por parte da corporação médica uma reação forte capaz de evitar este tipo de influência. Resta esperar que as pessoas, adequadamente orientadas, afastem-se das soluções mágicas e das propostas estéticas fantasiosas, aceitando a naturalidade dos seus corpos e o cuidado natural de sua saúde.

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Arquivado em Causa Operária, Medicina