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Medicina e arte

Existe uma piada antiga contada nos corredores e salas de cafezinho de hospital que eu lembrei hoje. Se você não quiser ler algo chulo pode parar de ler por aqui. Entretanto, ela me faz pensar num drama comum da prática médica que eu achei que seria interessante descrever.

Um sujeito está casado há 5 anos e sua mulher não consegue engravidar. Ambos procuram um médico e este pede vários exames, entre eles um espermocitograma. O resultado chega em uma semana, o médico passa os olhos e logo “mata a charada”: Zero espermatozoides. O médico então calmamente explica ao paciente que ele tem “azoospermia”, que é estéril, que não há nada a fazer, que é o destino, talvez uma parotidite na infância que passou despercebida. É isso. Não adianta fazer nada. “Sinto muito”, diz ele.

O paciente escuta e sai sem se despedir. Fica magoado, triste e decepcionado com a frieza e a falta de sensibilidade do médico. “Como pode dizer isso sem levar em consideração todos os sentimentos envolvidos? Como pode ser tão frio, sem emoções, sem comiseração ou dó? Um coração de pedra”.

Sai do consultório e marca um atendimento com outro médico, desta vez particular e pagando uma pequena fortuna. Chegando lá explica o caso para o “bam bam bam”, e finalmente mostra os exames. O médico olha, reflete, sobrevoa os números do papel, passa a mão no queixo e começa a contar uma história. Depois emenda uma piada, e mais outra e por fim terminam ambos dando gargalhadas.

O paciente deixa o consultório e abraça o médico, como se fossem velhos amigos, e a sua mulher, que ficara aguardando na recepção, pergunta ao marido afinal o que havia acontecido e qual era o diagnóstico. Seu marido, ainda rindo das histórias que o médico contara, responde:

– Ele disse pra eu não me preocupar por que não tenho p*rra nenhuma.

Ok, eu avisei que era uma bobagem e que era uma piada chula, mas peço que a partir dela me permitam fazer uma digressão. Eu recordei dessa piada porque hoje, mais uma vez, ouvi um relato que se repetiu durante 40 anos de escuta sobre as histórias de pacientes e seus médicos.

A história de hoje também é triste e envolve diagnósticos desagradáveis. Uma moça vai ao médico do convênio com um sangramento no inicio da gravidez conjugado com um pouco de cólica. O médico faz um exame, constata um colo uterino fechado e pede uma ecografia. Algumas horas depois ela volta e traz o exame que mostra um hematoma atrás da placenta e um cisto no ovário. Por ser uma gestação muito inicial o bebê não foi visto.

O médico então explica que o esse sangramento pode ser um início de aborto espontâneo, que o hematoma pode crescer ou estacionar e que o cisto não é nada, pois é normal na gravidez. Diz isso em uma única frase. Olha para o papel à sua frente e pede para ela voltar em duas semanas para ver se a gestação “vingou ou não”. Levanta-se e lhe indica a porta de saída.

Ela sai da consulta furiosa. “Como assim, vingar a gestação? Isso é forma de se referir a uma gravidez, um bebê… o meu filho? Ele poderia ter sido delicado, explicado com gentileza e cuidado. Esse médico é um carniceiro, desumano, animal,…”

É importante lembrar que ela teve uma perda há poucos meses e temia que fosse a mesma história se repetindo. Estava angustiada, sensível, amedrontada. As palavras do médico caíram como uma bigorna em seus ouvidos. Chegou em cada chorando, amaldiçoou o médico e suas próximas três gerações. Só então me ligou.

Ela contou toda a história mais uma vez. Mandou os exames por WhatsApp e pediu minha opinião. Escutei tudo com atenção e percebi – porque a conheço bem – que a questão principal era como lidar com suas emoções afloradas. E é exatamente aqui que entra o nó da história.

Tudo que eu poderia dizer objetivamente era repetir o que já havia sido dito. Não havia muito mistério neste caso do ponto de vista diagnóstico e prognóstico. Eu concordei com as palavras e as condutas propostas pelo médico do convênio. Agora eu estava na posição do velho urologista da piada infame, diante de um caso claro, mas o que poderia eu dizer?

Respirei fundo e resolvi explicar pausadamente cada detalhe do exame e o que pode ser feito. Procurei ser claro, didático, sem ser paternalista, sem dar falsas esperanças, sem mentir, sem dourar a pílula, mas sendo atencioso e realista.

Ela sentiu-se aliviada e ficou de ligar para outras orientações caso achasse necessário. Percebi que ela estava mais confiante, menos angustiada e mais tranquila ao me ouvir dizer – de uma forma diferente – o mesmo que já lhe havia sido dito.

E aí fica provado que a Medicina não é uma ciência, mas uma arte. Como a pintura – uma arte que usa da química das cores para se expressar – a Medicina é uma forma de artesanato que usa as ciências biológicas para tomar corpo e aplicá-las na cura das enfermidades. Olhar para a Medicina como numa técnica é empobrecê-la, tirando-lhe o brilho e a transcendência.

Porém, há que se considerar que essa conexão do médico com o paciente é uma via dupla. O paciente precisa encontrar no profissional essa conexão de transferência, o reconhecimento de um suposto saber, mas o médico precisa responder com empatia, sem a qual sua ação se torna estéril, como uma boa semente que jaz sobre a pedra fria.

Muitas vezes nossas palavras e ações são cuidadosas e delicadas, mas por mais que haja dedicação, a falta de confiança (em especial com profissionais desconhecidos, como os plantonistas) impedirá que uma conexão produtiva se estabeleça. Outras vezes, a falta de empatia do profissional poderá barrar qualquer possibilidade de cura – ou alívio – da angústia experimentada. É importante reconhecer que muitas vezes não há nada que o médico possa dizer para gerar uma resposta positiva, enquanto em outras qualquer coisa que venha a dizer – inclusive repetir o que já foi dito – será entendida como positiva.

A sabedoria para agir nestas situações é arte que se aprende em décadas, mas muitas vezes ela parece menor aos nossos olhos, tanto quanto ocorre com algumas pinturas cuja elaboração foi fruto de anos de amadurecimento artístico, mas que muitas vezes passam invisíveis à nossa atenção.

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