
Nathalie cruzou as mãos sobre os joelhos e manteve seus olhos fixados em um ponto abaixo do horizonte plúmbeo. Tinha-os tristes e as linhas que os circundavam eram marcadas por nuvens densas a cobrir de sombras seu rosto.
– Nada pode preencher este vazio, Nick. Não há sequer palavras que possam ser ditas. Talvez aqui esteja mesmo o “encontro das pontas” que o pastor falou em seu sermão. Se não é possível descrever em palavras a emoção fulgurante do nascimento, também na morte faltam as palavras; ela só pode ser percebida por inteiro quando sentida na carne. Nada do que é dito faz sentido diante da ausência, do vão, do nada que nos recobre. A morte é um grande fosso de nada.
Nick, engoliu em seco e pensou que seu silêncio diria mais do que qualquer frase. “Na dúvida, silencie”, lembrou do conselho do avô. Olhou os olhos secos de Nathalie e sentiu nos próprios braços, como uma cãibra, a dor da impotência. Queria acalentar sua amiga, mas não há abraço suficiente para um momento em que a dor ultrapassa os sentidos.
Nathalie continuou, depois de suspirar e girar os olhos pelo céu, sem poder fixá-los em nada.
– Sabe o que é pior, Nick? É essa sensação incrível de perda, como um membro arrancado sem aviso. O desejo de caminhar e perceber que faltam as pernas, ou de afagar quando se foram os braços.
– Mas… – Nick balbuciou meias palavras, mas foi interrompido pela fala de Nathalie.
– Só o que consigo pensar é que as coisas de que eu mais gostava foram tiradas de mim. Não lembro agora das festas, das viagens, do nascimento dos nossos filhos ou da chegada dos netos. Essas são luzes brilhantes que iluminaram nosso caminho e jamais as perderei da lembrança. Entretanto, o amor não se sustenta apenas por estes alicerces, mas pelos humildes tijolos que lhe dão forma. Em minha mente agora está o prato da comida de que ele mais gostava, o barulho da chave no portão da casa quando chegava, seus passos arrastados no pequeno hall, sua face cansada e o sorriso que ele colava no rosto ao ver chegarem os netos ou quando sentia o cheiro da sua comida predileta.
– Entendo – murmurou Nick, sem ter muito mais o que dizer.
– Que sentido há em viver quando aquele sorriso simples, que significava a minha vida inteira, se perdeu na poeira para sempre?
Nathalie deixou correr uma lágrima tímida enquanto as últimas luminosidades do sol se recolhiam, driblando as nuvens e avisando ao relógio o fim de mais um ciclo.
Jeremy S. Woolworth, “Bridge to Nowhere”, Ed. Sargaço, pág 135
Jeremy Sean Woolworth é um escritor americano nascido em Rodman, Nova York, em 1935. É descendente da família de milionários americanos fundada por Frank Winfield Woolworth, que abriu a gigantesca rede de lojas Woolworth, inaugurada em 1879. Apesar de seu berço dourado, jamais se interessou pelos negócios – que seus irmãos levaram adiante – e se dedicou desde muito cedo à literatura. Fez em seus livros uma excelente descrição da sociedade americana prévia à segunda guerra mundial e, depois dela, com a sombra do macarthismo assombrando a liberdade de expressão que atingiu artistas, jornalistas e escritores – incluindo ele mesmo, preso por desacato ao Congresso após se recusar a depor perante o HUAC (House Un-American Activities Committee), no auge da caça às bruxas macarthista. “Bridge to Nowhere” é uma coletânea de contos sobre a perda em suas formas mais diversas — o exílio, a amizade destroçada pela delação e, também, o luto mais íntimo e silencioso, como o de um casamento interrompido pela morte.