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Ginetes

Rita era uma mulher de 45 anos, bonita, separada e de voz doce. Tinha dois filhos adolescentes e vivia em um belo apartamento num bairro nobre da mesma cidade em que eu morava. Seu casamento com um arquiteto conhecido havia sucumbido há alguns anos, e a história dessa relação eu ainda preciso escrever, antes que a memória venha a me trair. Certamente um enredo de mistério, romance, aventura e tragédia…

Mas não era essa a história a contar. Em um encontro da Igreja Rita conheceu um senhor divorciado que tinha uma idade semelhante à sua. Pai de dois filhos adultos, um casamento desfeito há uns 10 anos, proprietário de terras em uma cidade do interior. Cristão fervoroso, defensor da família e dos bons costumes. Conservador. Era advogado, mas não atuava; vivia tão somente dos proventos que recebia das terras que arrendava para o plantio de arroz.

Começaram a namorar depois de um certo tempo, e a relação parecia boa. Ambos maduros, com filhos crescidos, sem problemas financeiros. Rita era professora estadual, mas além disso ganhava uma polpuda pensão do seu ex-marido. Os filhos de ambos eram quase independentes.

Depois de algumas semanas de namoro formal o namorado lhe faz um convite especial. Precisaria ir à sua cidade no interior para resolver assuntos pendentes relacionados à sua propriedade rural e a convidou para acompanhá-lo. Aproveitaria a ocasião de uma feira agropecuária na cidade para fazer essa visita. As “gineteadas”, os “tiros de laço”, a festa popular e todas estas atividades da cultura do interior poderiam ser divertidas, mesmo para uma mulher cosmopolita como Rita. Ela aceitou.

Partiram no dia combinado para a cidade. Lá encontraram uma festa típica das cidades pequenas, com a elite de agricultores e pecuaristas que dominam a cena e os inúmeros subalternos que tocam o espetáculo. Barraquinhas de comidas típicas, mulheres com vestidos rendados, jovens imitando a estética caubói, música sertaneja por todos os cantos, filas para o banheiro e gente por todo o lado.

Vamos assistir a “gineteada”, disse ele. Sei de uns bons ginetes que vão se apresentar hoje.

Participar de uma gineteada é “cavalear”, ou “cavalgar”. Na prática consiste em permanecer montado no cavalo que, através da dor, é estimulado a saltar, arquear o corpo e dar pinotes. Rita conhecia a prática de filmes e de fotografias, mas nunca havia visto uma de tão perto. Aproximou-se da pequena mureta que separa o público do tablado de areia e serragem que protege os cavaleiros das inevitáveis quedas e ali ficou observando as provas. Ficou vivamente impressionada com a agilidade e destreza dos ginetes e percebeu o quanto seu namorado vibrava com cada corcoveada e a cada manobra executada pelos exímios montadores.

Subitamente percebeu que ao lado uma moça se aproxima do seu namorado e suavemente lhe bate no ombro. Retirando os olhos do espetáculo, ele gira o corpo na direção dela, que se posta logo atrás.

– Oi, está lembrada de mim?, disse ela sorrindo.

Ele pareceu meio desconcertado e sem jeito. Tentava recordar as feições, mas não as situava no tempo e no espaço.  Fazia um esforço que só foi interrompido quando ela mesma lhe disse o nome.

– Claro que me lembro, disse ele constrangido. Como você está? Faz tempo que não lhe vejo. Tudo certo?

A jovem – que teria idade para ser sua filha – apenas lhe devolveu o sorriso e disse:

– Eu estou muito bem. Não se preocupe. Queria apenas que você conhecesse o seu filho.

Dizendo isso ergueu nos braços o menino que carregava pela mão, que não passava de três anos de idade. Aproximou-o do peito, enquanto o namorado de Rita o fitava com certo espanto. Porém, nada disse, e foi ela quem falou:

– Pode ficar tranquilo. Assista seu show. Achei apenas que devia mostrá-lo a você. Adeus e felicidades.

Ele respondeu ao adeus e girou novamente o corpo para o tablado onde os ginetes se esforçavam para manter seus corpos atados ao lombo dos cavalos ariscos e assustados. Depois de alguns instantes, voltou o rosto para Rita, que se mantinha estática e sem conseguir falar.

Olhou-a com um sorriso patético e falou:

– E não é que saiu bonito como o pai?

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Casa Sagrada

Bebe utero

Casa sagrada
De paredes vermelhas
Tantas vezes tuas lágrimas
Pintaram o alvo lençol
Quantas vezes teus lábios
Falaram comigo em meus sonhos

 Acalentou meus filhos
Quando lá os deixei
Nutriste seus sonhos
E os guardaste para mim
Agora que vais
Leva meu adeus e a certeza
Da gratidão eterna pelo bem
Que fizeste à vida.

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Tempos Modernos

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Se há uma coisa que me arrependo na juventude é não ter investido pesadamente nos momentos de lazer e alegria com meus filhos. Eu era muito jovem quando fui pai, e o acúmulo de atividades (faculdade de medicina e sete empregos simultâneos) aliada à escassez de recursos me dificultavam o convívio com os pequenos. Eu sei, são desculpas, mas é o que me resta e me dá conforto. As férias eram sempre entremeadas com trabalhos fora de hora, plantões que pagavam bem mas que ninguém queria fazer (carnaval, Natal, etc..), e eu sempre me sentia compelido a aceitá-los. Hoje em dia eu tenho um remorso danado dos momentos que poderia ter usufruído, mas que deixei passar por me preocupar com coisas menores e muito menos importantes do que estar ao lado dos filhos.

Vivemos em um mundo em que o trabalho desempenha um papel central em nossas vidas. Era assim que eu o via. Estudar para me qualificar, me qualificar para trabalhar, e trabalhar para “ser alguém na vida”. O trabalho define e mostra quem a pessoa é, e como se situa no mapa social. Entretanto, eu vejo com preocupação na sociedade contemporânea uma supervalorização do trabalho como tendo o “sentido mais importante na vida de um sujeito”.

Eu creio que esta questão é complexa, e não pretendo esgotá-la em meia dúzia de frases. Se posso entender o significado da função social do trabalho, também posso entender que as relações afetivas e as responsabilidades que temos com aqueles que por nós se afeiçoam não podem ser desprezadas. E na sociedade em que vivemos, trabalhar de forma ininterrupta tornou-se uma meta acima de todas as outras. Não só trabalhar, mas ser fanático pelo trabalho, doente por ele, obcecado pela produtividade e pela excelência, mesmo que esta função social assuma a posição de destaque, acima dos outros objetivos de nossa vida. No mundo atual “workaholic” – aquele que trabalha em excesso e de forma insana – passou a ser um elogio, uma marca indefectível oferecida para os “vencedores”.

Pois eu vejo de forma diferente. Acredito que trabalhar demais é para os pobres de espírito. A cultura do “workaholic” é uma mitologia para burros de carga, que valoriza e coloca em um pedestal o indivíduo que situa seu trabalho acima das relações pessoais ou de seus afetos. É uma forma sutil de escravidão moderna, onde os grilhões não são mais de ferro, mas de mitos e preconceitos urbanos. “Fulano é espetacular, um workaholic obstinado, determinado e incansável” Não, em verdade ele não passa de um tolo!!! Trabalhar acima da conta é um desrespeito consigo mesmo e com a família. Trabalhar acima do que é razoável é para trouxas ou escravos. O trabalho deve ser gratificante e produtivo, lúdico e desafiador. Ele não pode ser um FIM, mas um meio para ser útil ao mundo que nos cerca. O dinheiro que dele advém deve servir apenas para oferecer segurança, tranquilidade e conforto, e não para ser um brinquedo perverso de colecionadores de moedas.

Adrenalina sim, mas jamais sem o contraponto da ocitocina. Se é importante a influência fálica e desafiadora no mundo, onde o trabalho o esforço e a criatividade terão destaque, também serão fundamentais a placidez, o compartilhar, o descanso e o prazer. Sem essa dualidade, em que ambos os aspectos de nossa vida tem espaço para se expressar, seremos autômatos infelizes, semelhantes ao pobre operário de Chaplin em Tempos Modernos.

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