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Monogamia

Eu sou do tempo em que virgindade era um valor social. Caiu estrondosamente sem deixar vestígios. Por isso mesmo acredito nessa dinâmica e na ação do tempo sobre mitos e tabus. A monogamia é um passo mais longo e talvez sua queda leve mais tempo. Quem viver verá…

Entretanto, restará ainda o cuidado com as crianças, que demanda esforço conjunto. Eu vivi desde a minha infância a descoberta da paternidade e dos cuidados paternos. Escrevi sobre isso e desagradei algumas pessoas, mas é fato que os homens dessa geração são muito mais próximos dos seus filhos do que todas as gerações anteriores. Quando comparo os cuidados parentais do meu filho com aqueles oferecidos pelo meu pai e avô (e até por mim mesmo) existe um fosso gigantesco de proximidade, cumplicidade e cuidado direto com os filhos.

Assim, houve uma explosão do papel social masculino com os cuidados de bebês e crianças e um decréscimo inegável na importância da maternidade da vida das mulheres, a ponto de haver grupos que a rejeitam por completo. O que era o destino inexorável de todas elas passou a ser apenas uma de tantas vertentes de realização em suas vidas. Para os homens uma descoberta, para as mulheres uma libertação.

Se houve mudanças substantivas no terreno da “posse sobre corpos alheios”, e o questionamento contemporâneo sobre as relações “fechadas”, eu ainda fico reticente com os casamentos abertos onde há filhos para criar. “Abrir” para deixar mulheres (mais uma vez) desamparadas não me parece justo. Precisaremos criar uma nova instituição para isso, caso contrário os casamentos de coabitação e monogâmicos continuarão prevalecendo.

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Filhos, quando

Tive filhos muito cedo. Fui pai aos 21 anos, mas sei que o capitalismo não aceita mais estas escolhas. “É cedo demais, precisa terminar os estudos”, dizem. Depois se estabelecer, fazer mestrado, doutorado, viajar e conhecer o mundo. Filhos se tornaram acessórios e perderam a prioridade. Devemos ainda ter filhos? Creio que sim, mas sei que pela primeira vez na história minha opinião pode ser contestada. Porém, para além da decisão de tê-los outra pergunta se impõe: “Ok, mas quando?

Muitos dirão: “Apenas quando tiver maturidade e condições (financeiras) para esse empreendimento“.

Isso só vai acontecer para a classe média bem depois dos 30 anos. Muitos se aproximam perigosamente dos 40 anos, quando os riscos genéticos se associam à natural queda da fertilidade. Assim sendo, do ponto de vista genético, orgânico e fisiológico, a época mais adequada para ter filhos é a terceira década, mas não é a mais escolhida por fatores culturais. Mesmo sendo socialmente mais seguro, ter filhos mais tarde é muito pesado.

Tive meus filhos ao acaso, por descuido, mas creio que se não fosse assim teria logo depois. A paternidade sempre foi um objetivo primordial na minha vida. Hoje percebo que o que à época pareceu “azar” foi, em verdade, muita sorte. Devo muito do que sou ao aprendizado com meus filhos. Tive ainda a chance de ser avô aos 52 anos, e ter tempo e saúde para ajudar na educação dos meus netos. Quando vejo amigos de quase 50 anos encarando a dureza da paternidade – com muito menos energia que eu tive – só posso sentir pena. Não é fácil e demanda muita força e dedicação. Por isso digo que a melhor época para ter filhos nessa sociedade é quando guardamos a energia necessária para uma tarefa de tamanha magnitude.

Aliás, ao dizer que tive filhos “por descuido” ou , “ao acaso” cometo uma simplificação, ou mesmo uma mentira. Essas ações são sempre carregadas de desejo, seja ele inconsciente ou não. Há sempre uma volição escondida sob a tênue camada de racionalidade que nos abriga de medos ancestrais. Excetuando-se os casos de violência, sempre há intenção nesses deslizes. A pulsão de vida não se importa muito com nossa frágil racionalidade. Sua força e potência é necessária para a manutenção da vida e, portanto, não seria essa conquista tão recente forte o suficiente para ameaçá-la.

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Amor, esse mistério

Ter filhos é um ato de amor e amar é da ordem do pulsional, portanto irracional. Assim, se você encontrar “razões” para ter filhos é porque não ouviu o chamado, o qual nunca lhe chegará pela racionalidade. Quem encontra razões para amar alguém não está amando de verdade, pois que este sentimento não se baseia no involucro acinzentado e racional que recobre nosso cérebro, mas nos porões cálidos, escuros e úmidos do nosso inconsciente. A razão para ter filhos está onde ela não está.

Zbigniew Andropov, ” люблю эту тайну” (Amor, esse mistério), Ed. Vogazes, pág. 135

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Ginetes

Rita era uma mulher de 45 anos, bonita, separada e de voz doce. Tinha dois filhos adolescentes e vivia em um belo apartamento num bairro nobre da mesma cidade em que eu morava. Seu casamento com um arquiteto conhecido havia sucumbido há alguns anos, e a história dessa relação eu ainda preciso escrever, antes que a memória venha a me trair. Certamente um enredo de mistério, romance, aventura e tragédia…

Mas não era essa a história a contar. Em um encontro da Igreja Rita conheceu um senhor divorciado que tinha uma idade semelhante à sua. Pai de dois filhos adultos, um casamento desfeito há uns 10 anos, proprietário de terras em uma cidade do interior. Cristão fervoroso, defensor da família e dos bons costumes. Conservador. Era advogado, mas não atuava; vivia tão somente dos proventos que recebia das terras que arrendava para o plantio de arroz.

Começaram a namorar depois de um certo tempo, e a relação parecia boa. Ambos maduros, com filhos crescidos, sem problemas financeiros. Rita era professora estadual, mas além disso ganhava uma polpuda pensão do seu ex-marido. Os filhos de ambos eram quase independentes.

Depois de algumas semanas de namoro formal o namorado lhe faz um convite especial. Precisaria ir à sua cidade no interior para resolver assuntos pendentes relacionados à sua propriedade rural e a convidou para acompanhá-lo. Aproveitaria a ocasião de uma feira agropecuária na cidade para fazer essa visita. As “gineteadas”, os “tiros de laço”, a festa popular e todas estas atividades da cultura do interior poderiam ser divertidas, mesmo para uma mulher cosmopolita como Rita. Ela aceitou.

Partiram no dia combinado para a cidade. Lá encontraram uma festa típica das cidades pequenas, com a elite de agricultores e pecuaristas que dominam a cena e os inúmeros subalternos que tocam o espetáculo. Barraquinhas de comidas típicas, mulheres com vestidos rendados, jovens imitando a estética caubói, música sertaneja por todos os cantos, filas para o banheiro e gente por todo o lado.

Vamos assistir a “gineteada”, disse ele. Sei de uns bons ginetes que vão se apresentar hoje.

Participar de uma gineteada é “cavalear”, ou “cavalgar”. Na prática consiste em permanecer montado no cavalo que, através da dor, é estimulado a saltar, arquear o corpo e dar pinotes. Rita conhecia a prática de filmes e de fotografias, mas nunca havia visto uma de tão perto. Aproximou-se da pequena mureta que separa o público do tablado de areia e serragem que protege os cavaleiros das inevitáveis quedas e ali ficou observando as provas. Ficou vivamente impressionada com a agilidade e destreza dos ginetes e percebeu o quanto seu namorado vibrava com cada corcoveada e a cada manobra executada pelos exímios montadores.

Subitamente percebeu que ao lado uma moça se aproxima do seu namorado e suavemente lhe bate no ombro. Retirando os olhos do espetáculo, ele gira o corpo na direção dela, que se posta logo atrás.

– Oi, está lembrada de mim?, disse ela sorrindo.

Ele pareceu meio desconcertado e sem jeito. Tentava recordar as feições, mas não as situava no tempo e no espaço.  Fazia um esforço que só foi interrompido quando ela mesma lhe disse o nome.

– Claro que me lembro, disse ele constrangido. Como você está? Faz tempo que não lhe vejo. Tudo certo?

A jovem – que teria idade para ser sua filha – apenas lhe devolveu o sorriso e disse:

– Eu estou muito bem. Não se preocupe. Queria apenas que você conhecesse o seu filho.

Dizendo isso ergueu nos braços o menino que carregava pela mão, que não passava de três anos de idade. Aproximou-o do peito, enquanto o namorado de Rita o fitava com certo espanto. Porém, nada disse, e foi ela quem falou:

– Pode ficar tranquilo. Assista seu show. Achei apenas que devia mostrá-lo a você. Adeus e felicidades.

Ele respondeu ao adeus e girou novamente o corpo para o tablado onde os ginetes se esforçavam para manter seus corpos atados ao lombo dos cavalos ariscos e assustados. Depois de alguns instantes, voltou o rosto para Rita, que se mantinha estática e sem conseguir falar.

Olhou-a com um sorriso patético e falou:

– E não é que saiu bonito como o pai?

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Casa Sagrada

Bebe utero

Casa sagrada
De paredes vermelhas
Tantas vezes tuas lágrimas
Pintaram o alvo lençol
Quantas vezes teus lábios
Falaram comigo em meus sonhos

 Acalentou meus filhos
Quando lá os deixei
Nutriste seus sonhos
E os guardaste para mim
Agora que vais
Leva meu adeus e a certeza
Da gratidão eterna pelo bem
Que fizeste à vida.

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