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Próteses

Acho que só eu olho para essas peças alienígenas com profundo horror. Sei que as pessoas vão dizer que isso é para o prazer, que a masturbação é um ato puro, que não há pecado em gozar etc. Não há como questionar isso. Vão também elogiar tais substitutos protéticos para o gozo a dois, dizendo que isso oferece uma sensação de pura liberdade.

Para mim não passam de modelos monstruosos, objetos que simbolizam o horror individualista neoliberal. São sintomas de uma era em que o encontro a dois é considerado um risco, não apenas físico, mas emocional. Amar alguém é um contrato de dor, acima de qualquer coisa. “Amar é sofrer”. Por esta razão, criamos uma humanidade cujo valor ético mais profundo passa a ser o “cada um por si”, e criamos substitutos cibernéticos do outro, robôs, imagens virtuais e pornografia para mitigar a solidão.

Os novos produtos femininos em nada diferem das bonecas infláveis, “mulheres” objetualizadas (literalmente) pelas quais incels chegam a se apaixonar – e até casar. Próteses de variados tamanhos para oferecer o prazer que o outro sonega. Um objeto de desejo pelo qual não há o sofrimento por um provável abandono. No máximo lamentamos a espera da entrega pela FedEx.

Não vejo nada de errado em vender esses produtos. Afinal, há mercado para eles – em especial na pandemia. Mais ainda, não se trata de criticar as pessoas que usam esses aparelhos, mas analisar tais práticas, pois elas possuem significados importantes e profundos na cultura. Entretanto, confesso que fico muito triste ao ver alguém os comprando. Mais do que um sucesso de mercado, são sintomas de uma degenerescência da humanidade, um passo adiante para o seu extermínio.

Escrevi um outro texto sobre o tema, que pode ser lido aqui.

PS: O texto não é uma crítica a quem usa estes “brinquedos”, mas uma pergunta à sociedade: o que estamos querendo dizer quando achamos natural que próteses substituam pessoas para atingir o prazer? Fico imaginando a gente mostrar para uma mulher indígena e explicar a ela o funcionamento. Talvez ela sinta o mesmo horror que eu sinto…

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As Delícias do Parto

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Pela segunda vez em poucas semanas atendemos um parto (no hospital!) em que a mãe, imediatamente depois que o corpinho inteiro do bebê saiu, exclamou de forma espontânea: “Ai, que delícia!!”

Ai, que delícia!! ??????

Mas… não era para ser um horror?
Não era para elas se ajoelharem e pedirem uma analgesia?
Não era para ficarem aterrorizadas e marcarem uma cesariana ainda segurando entre os dedos trêmulos das mãos o teste de positivo de gravidez?

Não entendo…
Não era para ser uma dor excruciante, injusta, cruel e sem sentido?
Não era para ter a intensidade dolorosa de um dedo decepado?
Não era para ser como “defecar um tijolo”?
Onde cabe o conceito de “delícia” no sombrio cenário de parto que me foi ensinado na escola médica?
Onde “prazer”, “realização” e “superação” poderiam fazer sentido no modelo tecnocrático e biologizante que recebi nos bancos da universidade?

Eu pergunto:
Onde foi que perdemos o caminho do nascimento humano?
Onde foi que esta parte fundamental da sexualidade humana foi culturalmente deturpada?
Em que momento perdemos a mão, caímos soltos no espaço, sem referenciais e sem destino?
Onde foi que prostituímos o parto, encarceramos os corpos e sequestramos o prazer, a alegria e a felicidade de parir em paz e com dignidade?
Porque não podemos mais escutar dos nascimentos a verdade que neles se esconde?

Sim, a verdade por tantos sonegada é que esse momento pode ser uma “delícia”, desde que nós assim aceitemos.

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