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Imprensa Livre

Ah, a “imprensa livre”…

Hoje (mais) duas empresas romperam o patrocínio com a rádio Gaúcha aqui de Porto Alegre em razão dos comentários no programa Timeline de um formador de opinião que se chama Davi Coimbra.

Eu acho o Davi Coimbra um desastre comentando futebol, e seus comentários sobre política são conhecidos como “a voz do patrão”, sempre à direita, contra Lula, contra o PT e com ataques frequentes à esquerda. Eu jamais o assisto desde um famigerado posicionamento seu – sem provas e sem evidências – contra Lula para impedi-lo de concorrer à presidência. Também não assisto o Timeline, mas sei que a entrevista com Lula foi desrespeitosa e grosseira, assim como uma realizada com o senador Requião na qual ele bateu com o telefone de tão furioso ficou com o tratamento jocoso e debochado dos jornalistas do programa.

Posso não gostar nada do que estes comunicadores falam ou escrevem, mas esse é um problema de quem os assiste, não meu. Faço o meu boicote pessoal e acho justo que assim se faça. Se não houver abuso da lei digam o que quiserem em seus veículos. Entretanto, o que vemos agora é que os patrocinadores retiram os contratos diante das discordâncias de opinião. Tudo para não manchar sua imagem diante de opiniões controversas.

Atentem para a situação: hoje em dia, o que você escuta e assiste em uma rádio e também em outros meios fica por conta da régua moral de um fabricante de bolachas que, por discordar do chato do Davi, resolve retirar o seu patrocínio. Foi exatamente o que aconteceu…

Entretanto, “imprensa é dizer aquilo que alguém não quer ouvir”. Essa é a frase do imperador do jornalismo americano, William Hearst, que inspirou Orson Welles em Cidadão Kane. Dizer grosserias pode ser jornalismo, assim como destratar pessoas. O jornalista anda no fio da navalha, pois para trazer a verdade sempre corre o risco de ser ofensivo. Minhas grosserias contra Bolsonaro precisam ser toleradas assim como aquelas ditas contra Lula. Se estiver dentro da LEI está valendo. Retire-se dessa pauta difamação e calúnia e o resto precisa ser protegido. Todos fazemos críticas e elas também precisam de proteção. Se nós admitirmos esse tipo de patrulha sobre a opinião alheia então seremos reféns desse tipo de controle corporativo sobre o que pode ou não ser dito.

E quem disse que empresas de bolacha tem o direito de decidir que tipo de notícia será dada? Ou a perspectiva a ser utilizada? O que eu digo é que esse tipo de controle da notícia pelo capitalismo pode ser qualquer coisa, menos imprensa livre. Prefiro a opinião ridícula de um bolsonarista que fala para quem quer lhe escutar do que o controle feito por algum capitalista (ou pelo Estado) do que seja justo noticiar.

Jornalismo é falar algo que alguém não quer ouvir, mas racismo, machismo, difamações ou mentiras não são cobertas por esta análise, exatamente porque há LEI para coibir este tipo de manifestação.

Para mim fica evidente e translúcido o ocaso da imprensa corporativa. Uma imprensa que precisa agradar seus patrocinadores produz um jornalismo vendido, amarrado, preso. Pode ser tudo, menos imprensa livre.

Jornalista fazendo publicidade de produtos – como garotos propaganda – é o fim da várzea. Sou do tempo em que se dizia “jornalista não tem amigo”, para mostrar que o profissional da imprensa íntegro deveria estar na linha de frente para ACUSAR as empresas que ferem a ética, políticos que agem de forma corrupta e até empresas que atentam contra a saúde pública. Mas, para serem silenciados, são comprados com patrocínios em seus programas. “Não disse o que queremos ouvir? Então tiramos o seu salário”.

É preciso criar um novo modelo, sem as amarras da publicidade corporativa, sem as chantagens e pressões do capital. Sem isso não temos imprensa, no máximo “relações públicas” empresariais.

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Imprensa Livre

Por que pagar para ler notícias?

Hoje em dia vemos o surgimento das “Mídias independentes” que se contrapõe à mídia corporativa. O advento da Internet oportunizou a multiplicação ad infinitum de fontes de informação – algumas de alta qualidade e outras pura enganação. A diferença é que nas mídias tradicionais os anunciantes atuam – direta ou indiretamente – na escolha de pautas, nas ênfases e no próprio trato da notícia. Afinal, ninguém (nenhuma corporação) vai pagar os altos custos dos noticiários para correr o risco de ter o nome de sua empresa enxovalhado.

Há alguns anos abrimos uma clínica em uma cidade média do Interior do RS. Depois disso fomos convidados pelo diretor do jornal – um típico “coronel” da informação – para anunciarmos em seu veículo, o único diário impresso da cidade. Ele de cara me informou: “Minha política aqui é a seguinte: se alguém vem ao jornal para reclamar dos médicos eu ligo direto para vocês antes de publicar”. Nenhum constrangimento em confessar que seu jornal era para proteger os poderosos.

E não são apenas empresas. Aqui no RS o conselho de Medicina compra muitas horas na rádio da maior empresa de comunicação local para, com isso, interferir nas pautas médicas. Ora… que produto o CRM tem para vender? Apenas a imagem da medicina, que é passada nos noticiários, inclusive escondendo notícias desagradáveis sempre que possível (como a Globo faz com a Vaza Jato). Essa é uma das práticas mais antigas, que mostra o poder da informação no mundo contemporâneo. Podemos confiar em uma imprensa que pode ser facilmente comprada pelo poder do dinheiro?

Por outro lado a mídia independente, para não sofrer pressões do capital, precisa que o ouvinte/leitor/telespectador seja o único financiador, para que suas pautas não sejam controladas pelo poder econômico, fazendo da audiência o único cliente a ser contemplado. Sem rabo preso e sem constrangimentos de nenhuma natureza por parte do poder econômico.

Esta é uma forma de estimular um jornalismo livre, cuja única fidelidade seja a utopia da imparcialidade. A alternativa a isso existe em outros países: uma empresa pública de comunicação, que não seja atrelada aos governos (uma empresa do Estado) e que possa inclusive lhe fazer oposição.

Por exemplo: para criar um congresso médico e impedir que as palestras do evento sejam comandadas por espaços comprados pela indústria farmacêutica (como nos congressos nacionais e internacionais de medicina) o cliente final (parteira, dotô, doula, psi, etc) precisa pagar para que o congresso seja LIVRE das influências do poder econômico – dos equipamentos, dos hospitais e da Big Pharma – as gigantes vendedoras de drogas.

Por isso é que é urgente criarmos IMPRENSA LIVRE, sem amarras com o sistema econômico.

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Guerra de versões

Antes de adotar um lado de qualquer de matérias tão importantes é essencial situar-se e ver como as informações são produzidas. O que vem da Síria, Coreia do Norte e mesmo Cuba é filtrado por agências de notícias com claras vinculações com o poder econômico internacional. As notícias da Coreia até hoje, e as do Iraque antes da invasão, são exemplos claros do quanto é possível mentir sobre um país inteiro. Quem lembra do Antrax e das armas de destruição em massa? Pois estas desculpas absurdas foram usadas para justificar à opinião pública o massacre sobre um país soberano.

Na Síria de hoje podemos ver “crianças recicladas” sendo tratadas como “novas vítimas” pelos “Capacetes Brancos” para produzir a comiseração internacional e modificar a percepção ocidental da barbárie da guerra. Pode-se ver isso claramente nos inúmeros vídeos sobre o tema. É importante notar que em 2014 houve eleições nas quais Assad foi o vencedor. Portanto, esforçar-se pela deposição de Assad – como é o desejo americano – é correr o grave risco de repetirmos Iraque, Afeganistão e Líbia, onde a intervenção produziu mais miséria, destruição e o controle americano dos recursos, mas às custas de milhares de mortes de civis.

Em qualquer sociedade é necessário que haja pessoas que desafiem o senso comum, procurem visões alternativas, desconfiem dos poderes constituídos e lutem por perspectivas múltiplas e democráticas para os eventos. Não existe verdadeira liberdade quando somos atraídos por uma única narrativa e nos seguramos a ela como se ela fosse “A Verdade”. Os exemplos de fraudes internacionais patrocinadas por grandes nações são incontáveis.

No Brasil o simples convencimento das seis famílias de controladores da grande mídias é suficiente para garantir uma versão particular da história como hegemônica, por mais absurda que ela possa ser. A farsa do triplex do Lula e as escutas de uma presidente eleita sendo divulgadas na grande mídia seriam suficientes para demonstrar a falácia da “liberdade de imprensa”. A confissão de Boni, com 20 anos de atraso, da vergonhosa manipulação do debate presidencial Lula-Collor poderiam botar uma pedra sobre a questão, mas a ilusão de democracia de meios se mantém mais pela nossa fé do que por qualquer evidência. As versões filtradas da guerra da Síria, assim como qualquer outra, mostram que um conflito como esse produz narrativas controladas estritamente pelos poderosos, sendo que só conseguimos alguma visão diferente através da garimpagem criteriosa de descrições alternativas. Nem sempre podemos tê-las, mas quando as encontramos podemos descortinar uma realidade, via de regra, antagônica à versão oficial.

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